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Depressão:
prosar ou Prozac?
Nelson
Asnis*
Uma das controvérsias
mais atuais em termos de tratamentos para as depressões diz respeito
ao que oferecer às pessoas que nos procuram: psicoterapia ou remédios
antidepressivos? Os recentes congressos de psiquiatria sempre
apresentam mesas-redondas nas quais inúmeros colegas insistem
em atacar de forma veemente as psicoterapias de orientação psicanalítica
e, por conseguinte, a própria psicanálise, com o intuito de demonstrar
que a psicofarmacologia deve ser o tratamento de escolha para
as depressões.
Os antidepressivos
foram descobertos na década de 50 de forma acidental (como tantos
outros remédios). Pesquisadores norte-americanos, buscando avanços
no tratamento da tuberculose com um fármaco chamado Iproniazida
perceberam que seus doentes continuavam tossindo e expectorando
como antes, mas o faziam com humor bastante elevado.
O cientista
suíço Kuhn, testando a Imipramina no tratamento da esquizofrenia,
concluiu que seus pacientes mantinham-se psicóticos, porém mais
sorridentes. Estes fármacos passaram então a ser utilizados como
antidepressivos; o primeiro, no entanto, foi retirado do mercado
por causar necrose hepática.
Desde então,
inúmeros antidepressivos foram sintetizados e seu uso propagado
no mundo inteiro. Para termos uma idéia do que isto representa,
basta lembrar, por exemplo, que cerca de cem milhões de pessoas
se valem de antidepressivos ou tranqüilizantes, sendo que 10 %
destas consomem em todo o mundo apenas um deles, o Prozac.
No Brasil,
o uso indiscriminado de psicofármacos é um problema de saúde pública,
uma vez que submete inúmeras pessoas a riscos sérios decorrentes
dos para-efeitos destes remédios. Vários relatos nos chegam de
antidepressivos “receitados” em colunas sociais, revistas de circulação
nacional, salões de beleza, escolas etc.
É claro que
os antidepressivos são medicações essenciais no tratamento de
diversas psicopatologias, em especial a chamada depressão maior,
na qual alterações na química cerebral podem levar o indivíduo
inclusive ao risco de suicídio.Voltando então à questão do uso
abusivo, por que ele vem ocorrendo? Penso que devido a três fatores
principais.
1.
O ranking 125: o lugar 125 no ranking da Organização Mundial da
Saúde (OMS) sobre a qualidade dos sistemas de saúde dos países
encontra expressão na área da saúde mental. A diretora-geral da
OMS, GroBrundtland, atenta para as condições precárias com que
são atendidas as pessoas economicamente menos favorecidas.
No Brasil,
o deformado sistema de saúde na área de saúde mental inviabiliza
os pacientes de conseguirem consultas de psicoterapia com tempo
suficiente que os permita falar sobre seus sofrimentos, ao invés
de entorpecê-los. Igualmente, muitos psiquiatras acabam só medicando
seus pacientes por não disporem de qualquer outra alternativa
a oferecer, sendo que os antidepressivos disponíveis são, de um
modo geral, aqueles com maiores efeitos colaterais e não os mais
modernos.

Ilustração: Eugênio
Neves
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2. A busca
da “felicidade química”: um bom número de psiquiatras entende
equivocadamente que para validar o tratamento medicamentoso da
depressão é preciso atacar sistematicamente as abordagens terapêuticas
psicanalíticas, como se não houvesse lugar para ambas. O emprego
isolado de antidepressivos traz o risco de estarmos tratando um
conjunto de neurotransmissores e não uma pessoa que se encontra
deprimida, com freqüência, justamente por não estar conseguindo
se tratar com um terapeuta que a escute. O antidepressivo isoladamente
funcionaria como um anestésico que acalma a dor (psíquica) sem
tratar, no entanto, os motivos pelos quais o sofrimento se faz
presente. Corre-se, assim, o risco de estabelecer uma “felicidade
química” independente da melhora real da qualidade de vida da
pessoa deprimida. Não podemos esquecer porém que muitas pessoas
necessitarão restabelecer seu equilíbrio neuroquímico com antidepressivos,
sem os quais não conseguiriam condições psíquicas para examinar
suas dificuldades em psicoterapia.
3. A globalização
e a cultura do “quanto menos pensar e sentir, melhor”: a globalização,
com seus mecanismos perversos de massificação, encontra na psicofarmacologia
mal utilizada um campo fértil de ação. O faturamento dos laboratórios
farmacêuticos, fabricantes de antidepressivos, aumentou na década
1986-96 cerca de 1087%. A classe médica psiquiátrica é continuamente
bombardeada em revistas e congressos por propagandas maciças que
mostram, à semelhança das propagandas de cigarros, lindas flores,
mulheres sorridentes, casais felizes e promessas de liberdade,
se você, é claro, utilizar o antidepressivo sugerido. Muitos sucumbem
ao bombardeio e empregam esses medicamentos de forma indiscriminada.
As abordagens
psicanalíticas tão criticadas atentam para o fato de que aquela
pessoa que está à frente do médico buscando auxílio para sua depressão
difere de qualquer outra, tendo uma história única de vida, necessitando,
portanto, de um tratamento único. A psicanálise ajuda a pensar,
aumenta a capacidade de reflexão e estimula a criatividade, contrapondo-se
de forma vigorosa a uma cultura globalizada onde “quanto menos
você pensar e sentir, melhor”.
O mais importante
no tratamento da depressão é cuidarmos não apenas da doença, mas
principalmente da pessoa que está pedindo passagem para a vida.
Os antidepressivos se constituem em alternativas valiosas, desde
que associados às psicoterapias.
*Médico psiquiatra,
mestre em Psicofarmacologia (FFFCMPA), professor da PUC/RS e coordenador
de Ensino da Residência Médica de Psiquiatria da Fundação Universitária
Mário Martins.
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