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Fotos: René
Cabrales
Disputa pelas
primeiras letras
Ricardo
Pont
Projeto
pretende restringir a regência das classes de alfabetização aos
professores que possuam, no mínimo, o magistério. Proposta compromete
programas de educação de adultos, como o Mova

Fotos René Cabrales
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Um projeto
de lei recente, protocolado pelaSubcomissão de Educação de Jovens
e Adultos da Câmara dos Deputados, promete trazer à tona, nos
próximos meses, desavenças históricas entre as teorias e as técnicas
adotadas pelas frentes nacionais de alfabetização, sejam elas
rivais ou antigas aliadas em causa partidária.
A proposta,
aprovada em 3 de maio pela Comissão de Educação e justificada
em argüição da deputada gaúcha Esther Grossi (PT), estabelece
a inclusão de um parágrafo ao artigo 37 da Lei de Diretrizes e
Bases, que dispõe sobre a elaboração de programas públicos que
garantam a alfabetização de brasileiros iletrados. A contar da
possível publicação da lei, os projetos e programas criados com
a meta de erradicar o analfabetismo no País – seja em âmbito nacional,
estadual ou municipal – ficarão obrigados a empregar, exclusivamente,
professores titulados que possuam, no mínimo, formação pedagógica
de nível médio, equivalente ao magistério.
A nova cláusula
atinge em cheio iniciativas em curso que costumam ceder a regência
de classe a pessoas voluntárias, ainda que assessoradas, desde
que tenham completado o ensino fundamental. Assim funcionam as
versões estadual e municipal do Movimento de Alfabetização de
Jovens e Adultos (Mova) - difundido desde 1989 pelas prefeituras
de administração popular - e o projeto Alfabetização Solidária,
integrante do programa federal Comunidade Solidária, ligado ao
gabinete da primeira-dama, Ruth Cardoso.

Fotos René Cabrales
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A proposta
da Subcomissão, que deverá passar pela Comissão de Constituição
e Justiça para, só então, subir a plenário, decorre do estudo
“Panorama da Alfabetização no Brasil”, que reporta os 21 projetos
e quatro programas na área de Educação de Jovens e Adultos adotados
pelo país desde o ano de 1854. De acordo com a deputada federal
Esther Grossi (PT-RS), o levantamento conclui que nenhuma das
iniciativas financiadas com verbas públicas, nos últimos 146 anos,
foi suficientemente capaz de produzir os resultados desejados
na redução do contingente de analfabetos, que já atinge a marca
de 19 milhões de pessoas. Os deputados atribuem a suposta “ineficiência”
à convocação reiterada de leigos para atuar como alfabetizadores,
no lugar de professores titulados.
Caso seja
aprovado, o projeto de lei – de autoria coletiva – terá de ser
regulamentado e reservar aos programas em vigor um prazo mínimo
de adaptação. A medida mais concreta tende a ser a restrição do
repasse de verbas federais a projetos que desrespeitarem as exigências
de titulação. A injeção de recursos federais na Educação de Jovens
e Adultos, ao longo da próxima década, está prevista no substitutivo
do deputado Agnelo Queiroz (PC do B-DF) ao texto do Plano Nacional
de Educação. A idéia, a partir do aporte financeiro, é de que
a educação de adultos abandone o atual perfil, de caráter supletivo,
e passe a caracterizar um processo de aprendizagem continuada.
A discussão, agora, recai sobre quem estaria suficientemente preparado
para assumir o fardo. Diretrizes do Conselho Nacional de Educação
apontam que a educação de adultos só poderá ser efetiva se lançar
mão de profissionais à altura das exigências da área. A prescrição
do governo federal recebe o aval da principal representante de
oposição às políticas do Ministério da Educação. Em artigo recente,
a petista Esther Grossi sustenta que alfabetizar é uma tarefa
eminentemente pedagógica, sobretudo se considerada a complexidade
embutida no ato de reger uma turma de adultos oriundos de “ambientes
pobres em situações e procedimentos envolvendo a leitura e a escrita”.
Ao justificar
o projeto de lei, no protocolo encaminhado à CCJ, Esther escreve
que a diminuição do analfabetismo só será fato considerável se
as campanhas e movimentos que hoje envolvem “afetos, ideologia
e caridade” forem substituídos por programas com “consistente
exigência pedagógica”. A elevação dos padrões de qualidade, a
universalização do direito de aprender e a valorização do magistério
são elencadas pela deputada como as linhas mestras da proposta.
Não faltam
argumentos que fazem contraponto ao discurso de Esther – ainda
que a parlamentar deixe claro que o projeto é de autoria coletiva.
A professora do Departamento de Estudos Especiais da Ufrgs Denise
Comerlato, que concede assessoria ao Mova/Porto Alegre e dirige
as ações da universidade gaúcha no município piauiense de Itainópolis,
dentro do programa Alfabetização Solidária, é uma das autoridades
que considera o projeto da Câmara “precipitado”.
Denise entende
que, antes de coibir iniciativas “que estão dando resultado”,
cabe ao Legislativo priorizar a qualificação específica, em nível
superior, de professores formados para alfabetizar adultos. “Nossa
posição oficial será sempre a de discordar com a substituição
do profissional pelo voluntário, mas é preciso compreender o atual
momento histórico e, em lugar de proibir ações que já existem,
considerar a extensão da população que não é procurada pela escola
regular”, pondera.
A Universidade
Federal de Pernambuco é a única do país a oferecer a graduação
em Pedagogia na habilitação para a Educação de Jovens e Adultos.
Em Minas Gerais, o curso permite uma ênfase na área. Na Ufrgs,
o tópico é trabalhado em duas disciplinas obrigatórias e, caso
o aluno se interesse, em outras quatro optativas.

Fotos René Cabrales
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Denise ressalta
a necessidade da promoção urgente de políticas públicas que garantam
a educação permanente, na rede regular de ensino, para cobrir
uma demanda oculta de adultos analfabetos que não exige escolaridade
- a não ser para os filhos. Segundo a educadora, os movimentos
que hoje se organizam buscam preencher esse vácuo e, em hipótese
alguma, pretendem tomar da escola e do professor a incumbência
de educar a população. A idéia de Denise é compartilhada pela
integrante da equipe coordenadora do Mova/RS, Márcia Terra. “Nosso
objetivo é o de chegar aonde a escola não está, dar oportunidade
a quem não teve acesso a ela, e chance de escolha a quem pretende
continuar estudando”, resume Márcia, ao negar que o trabalho de
alfabetização inicial assumido pelo Movimento subestime o professor
titulado.
O apoio de
Esther Grossi ao projeto da Comissão de Educação tem recebido
duras críticas da coordenadora do Mova/Porto Alegre, Mariângela
Bairros. Segundo ela, a reação da deputada, já esperada, sucede
uma série de “afrontas públicas”, feitas pela petista, contra
a figura do educador popular, adotada pelo movimento, abarcado
pelo próprio PT. “Esther não conhece nosso trabalho de perto e
nunca esteve disposta a debatê-lo; gostaria de ver a deputada
conversar com os nossos educadores”, desabafa Mariângela.
Esther Grossi,
que revela aproveitamento de 50% e evasão elevada durante e após
as intervenções realizadas até hoje pelo Alfabetização Solidária,
admite não ter se detido a estudos específicos sobre o Mova. Ela
se reserva a explicar que o projeto da comissão é de abrangência
nacional e não foi elaborado para coibir programas isolados. As
ressalvas da deputada petista ao projeto escolhido pela administração
de Porto Alegre para reduzir o analfabetismo são conhecidas há
tempos. Mariângela Bairros e Denise Comerlato confirmam que, em
1989, a implantação, junto à SMEd, do Serviço de Educação de Jovens
e Adultos (Seja), foi concretizada a despeito da campanha contrária
de Esther, então secretária municipal da gestão Olívio Dutra.
O Seja é considerado, hoje, uma espécie de embrião para as adoções
do Mova pela Prefeitura e pelo governo do estado.
O educador
popular é a figura central e característica do movimento. É ele
quem responde pela intervenção direta em sala de aula e conduz,
assessorado por um professor, um processo que se embasa no Construtivismo
Interacionista, difundido no país a partir de 1989 pelo então
secretário de educação de São Paulo, Paulo Freire.
A meta do
Mova é resgatar a cidadania de sujeitos históricos até então alienados
do processo social. Preceitos básicos da ação do projeto exigem
que a aquisição do alfabeto surja a partir de palavras que cerquem
o cotidiano em que vive cada turma. O educador, indicado por ofício
pela entidade conveniada, deve conhecer a fundo a comunidade em
que está inserido, nutrir vínculos com os moradores da região
e discorrer, com intimidade e cumplicidade, sobre a realidade
que será passada para o papel.
De acordo
com Mariângela, essa “troca de saberes”, que se estabelece ao
longo dos meses do curso, e o teor do compromisso que o educador
assume, por pertencer à comunidade, potencializam o trabalho pedagógico
e multiplicam os resultados positivos.
As secretarias
de estado e de município da Educação não têm computados quantos
dos mais de 5 mil educadores que atuam nas modalidades gaúchas
do Mova possuiriam a titulação prevista no projeto que tramita
na Câmara. A diretora estadual Márcia Terra, baseda em convivência
acumulada com as comunidades, garante, porém, que nem todas as
pastorais, clubes de mães, associações de bairro e áreas indígenas
dispõem de professores que interajam o suficiente, a ponto de
atrair a atenção da turma e controlar a evasão. Nesses casos,
os “santos de casa” depõem os titulados.
Defendidas
pela deputada Esther Grossi, as teorias pós-construtivistas de
alfabetização desaprovam essa substituição. Conforme a educadora,
as chamadas “aprendizagens complexas” prescindem de planejamento
profissional e elegem a escola como instituição específica. Esther
também critica o fato de que o emprego de professores titulares,
na formação de crianças, seja mais rígido, em lei, que na alfabetização
de jovens e adultos. “É um contrasenso”, já que as pessoas que
estão fora de idade escolar apresentam uma série de internalizações
e geralmente acham que não conseguirão aprender”. A deputada presume,
ainda, que se for aprovada, a lei acabará contribuindo para qualificar,
em cascata, docentes em todos os níveis de ensino.
A educadora
Denise Comerlato estima que os movimentos que hoje atuam nas comunidades
não deverão concordar pacificamente com a substituição de sua
ação institucional pela adoção de pessoal qualificado. Conforme
Márcia Terra, da SEC, a mudança, se for aprovada, terá de ser
levada à prova frente ao aluno. “Eles devem tomar posição e dizer
se sentem alguma diferença”, conclui.
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