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Fotos: René
Cabrales
Ana Maria
Machado
Ler
é um direito. E um dever
César
Fraga
Fotos:
René Cabrales
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Em setembro
deste ano, a escritora Ana Maria Machado recebe o prêmio Hans
Christian Andersen, laurel máximo concedido a autores de literatura
infantil no mundo todo. É o topo de uma carreira de 30 anos, 110
livros, muita dedicação e envolvimento com a escrita para crianças
e adolescentes. Ana Maria tem suas obras traduzidas em 16 países.
Foi professora, jornalista e aluna de Roland Barthes e Umberto
Eco. Na entrevista também fala do exílio que teve de encarar logo
após terem identificado o seu carro como o que foi utilizado no
seqüestro do embaixador americano em 1969. Também nos fala dos
motivos pelos quais faz literatura e dos compromissos éticos dos
intelectuais brasileiros e do papel da escola na formação de novos
leitores
Extra Classe
– Do tempo que você escrevia para a revista Recreio, ainda no
final dos anos 60, até agora, o que mudou na escritora Ana Maria
Machado? Ana Maria Machado - Ora bolas, eu era muito mais
bonita e jovem (risos). Afora isso, sou intrinsecamente a mesma
pessoa, só que mais madura. Há o fato também de hoje eu ser uma
escritora profissional e exercer isso em tempo integral. Não preciso
mais ficar escrevendo com o tempo roubado de outras atividades.
Com isso eu posso me dedicar mais horas e burilar mais o texto.
EC –
É possível viver de literatura no Brasil?
Ana – Eu acho que é. Mas, é claro, depende do padrão de
vida que se quer ter. Apesar de ter livros publicados em outros
países, é do mercado brasileiro que eu dependo basicamente. É
preciso entender que eu vivo de literatura na soma de direito
autoral de livro, palestras e artigos. Já não tenho outra profissão
há muito tempo. Agora, é bem verdade que o meu apartamento eu
comprei quando ainda era jornalista. Com isso passei a viver de
literatura sem ter de pagar aluguel.
EC –
Esta é uma pergunta recorrente, mas qual a diferença entre escrever
para adultos e crianças?
Ana – Existem algumas diferenças, mas são muito sutis.
Não é uma coisa evidente. Já aconteceu de eu começar a escrever
alguma coisa para crianças e depois perceber que daria um bom
texto para adultos e vive-e-versa. O conteúdo é basicamente o
mesmo. O que muda é a forma. Escrever para criança é como assobiar
uma melodia. Para adultos, é executar uma sinfonia.
EC –
Que responsabilidade deve ter hoje quem escreve textos infantis
sabendo que a obra pode ser a porta de entrada para novos leitores
no mundo da literatura?
Ana – Eu acho que não se tem que pensar em responsabilidades
quando se escreve. Quem pensa muito nisso não faz literatura,
faz porta de entrada. A responsabilidade que se tem deve ser a
mesma, tanto para adultos como para crianças. É a responsabilidade
social que qualquer intelectual deve ter no Brasil dos dias de
hoje. Ainda que a gente não deva colocar a criação artística a
serviço de um dever social, nada nos exime de termos uma posição
muito clara e nítida, e isso acaba fatalmente aparecendo em tudo
que a gente faz. O intelectual deve, ao mesmo tempo, mostrar como
a situação brasileira é complexa, porém, utilizando uma linguagem
extremamente simples. É uma função quase didática a de explicar
às pessoas como tudo é complicado. O Brasil é uma grande macarronada.
Você puxa uma porta e quando você vai mexer lá dentro acaba saindo
uma outra coisa do outro lado do prato. Mas é preciso ter muito
cuidado para não se tornar panfletário.
EC-
Além do reconhecimento dos leitores, prêmio é importante?
Fotos:
René Cabrales
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Ana –
É importante, sim. Eu só fiquei escritora porque ganhei um prêmio.
Foi determinante para a minha carreira ter ganhado, em 1978, o
prêmio João de Barro com Uma história meio ao contrário. Até então,
só havia publicado os meus textos para a revista Recreio reunidos
em livro pela editora Abril. E coisa foi mais ou menos assim:
inscrevi o livro no concurso e ganhei. A partir daí outras editoras
passaram a me procurar. Eu estava com as gavetas cheias de trabalhos
já escritos, pois na época eu não fazia a mínima idéia de como
funcionava este mundo editorial. Para se ter uma idéia, havia
tanto trabalho acumulado que, entre 1979 e 1980, publiquei uns
seis ou sete livros. Com isso eu concluo que o prêmio foi importante,
pelo menos para mim. Não pela notoriedade, mas pelo pontapé inicial.
Mais tarde, em 1981, veio o prêmio Casa de Las Américas, em Cuba,
que era uma coisa meio proibida para os brasileiros. Fiz questão
de me inscrever e participar. Meu objetivo era questionar esta
pseudo proibição e, no final, acabei ganhando com um livro adulto.
A repercussão disso na imprensa foi bastante grande, até pelo
momento político em que vivíamos.
EC -
E o Hans Christian Andersen?
Ana – Bem, este nem se fala. Estou contentíssima e muito
honrada. Ele é considerado o maior prêmio concedido ao gênero
de literatura que escrevo. E saber que você é considerada a melhor
do mundo naquilo que você faz e não ficar contente não existe.
Estou muito feliz por nove jurados de nacionalidades diferentes
terem me escolhido. Mas uma coisa deve ser dita: alguns prêmios
que recebi talvez não os tivesse merecido, assim como alguns que
mereci não ganhei. Há uma relatividade muito grande nisso.
EC - Como
você vê a influência do conto moral na literatura infantil brasileira?
Ana – No livro infantil brasileiro quase não existe a presença
do conto moral. De Monteiro Lobato para cá esta preocupação quase
não existe entre os autores. No resto do mundo tem muito disso
ainda. No Brasil já temos pelo menos 80 anos de estrada sem esta
influência e é aí que está a grande força da literatura infantil
brasileira. Mas uma coisa é falar no conto moral, outra é produzir
um texto que discute questões éticas. Pois este último é próprio
de toda a literatura. Toda a obra apresenta dilemas morais.
EC –
Você tem idéia de como a literatura é tratada nas escolas?
Fotos:
René Cabrales
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Ana –
Existem vários aspectos que envolvem esta questão. Primeiro que
em um país como o Brasil a escola precisa desempenhar um papel
importantíssimo na introdução dos cidadãos à literatura. A tradição
familiar de levar a literatura às próximas gerações inexiste por
questões óbvias. A grande maioria é muito carente e conseqüentemente
não têm acesso ao livro, portanto... Então, é importante que o
professor lembre de algumas coisas básicas. Uma delas é que a
linguagem narrativa – que permite ao homem contar histórias –
é que distingue o homem do animal. Esta distinção vem lá do começo
da história, vem se perpetuando de geração em geração. Homero
recontou a Odisséia muito antes que existisse a escrita, no século
8 antes de Cristo. Os gregos inventaram uma porção de coisas.
Depois deles vieram os romanos, os renascentistas e assim por
diante. Enfim, temos uma herança, um patrimônio que os nossos
antepassados nos deixaram, como um avô que deixou terras ou jóias.
E a segunda coisa a ser lembrada pelos professores é que todos
estes cidadãozinhos que freqüentam as escolas têm o direito a
esta herança. Então, qualquer interferência que não permita que
esta herança chegue aos seus herdeiros é crime. A última coisa
a lembrar é que não se pode ter um professor de natação que não
saiba nadar, então não podemos achar que um professor que não
lê vá ter capacidade de despertar em alguém o gosto pela leitura.
EC –
Voltando ao final dos anos 60, como se deu o episódio do teu exílio
na França?
Ana - Tudo aconteceu em função do seqüestro do embaixador
americano em setembro de 1969. Foi o meu fusca o carro utilizado
na ação. Com isso fui presa logo que o veículo foi identificado.
O meu irmão, o Franklin Martins, que é hoje jornalista, foi um
dos que organizou o seqüestro e foi quem escreveu o famoso manifesto.
Na época, a polícia toda procurava por ele e acabou prendendo
a mim, ao meu pai e meus dois outros irmãos. A mim soltaram logo
e percebi que havia me transformado em uma isca viva, pois o que
eles queriam era prender o Franklin. Então, por uma questão de
segurança minha e dele era interessante que eu saísse do país.
Fui para a França, onde pedi asilo. Fui com meu marido e um filho
pequeno. Lá eu fiquei estudando até ir para a Inglaterra. Ao todo
foram três anos fora, um ano e meio para cada país.
EC -
Foi nesta época que foste aluna de Roland Barthes?
Ana - Foi sim. Antes de sair já havia me inscrito para
um doutorado, no Rio. Quando cheguei na França fui direto procurar
o Barthes. E sem dúvida ele foi um ótimo professor. Certamente
foi um dos professores que mais me marcou. Sempre foi muito exigente
e ao mesmo tempo sabia ouvir muito. Ele me instigou muito. Enfim,
foi a pessoa que me ensinou a pensar.
EC -
Como se sente a Ana Maria Machado depois de tudo isso?
Ana - Me sinto ainda muito professora. Sempre que posso
volto para a sala de aula, apesar de considerar a burocracia da
escola muito chata. Ano passado dei um semestre sobre Literatura
Brasileira na Califórnia. Venho de uma família de professores,
desde o meu avô até dois dos meus filhos, que foram professores.
Mas aonde eu quero chegar com tudo isso é que a perda do prestígio
que a profissão sofreu nestas últimas décadas no Brasil não é
obra do acaso. Precisamos estar alertas quanto a isso. Este mecanismo
acaba transformando o professor culto, estudioso e cientista na
imagem da professorinha, da tia – alguém que não lê nunca, mas
é muito boazinha. Ou seja, a feminilização da profissão privilegia
muito mais o aspecto afetivo do que o intelectual, e esse processo
precisa ser revertido. E volto a frisar que a única maneira de
se retornar da esfera afetiva para a esfera do saber é lendo muito.
Ler é poder. É ao mesmo tempo um direito e um dever cívico.
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