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Fotos René
Cabrales
Uma saída
para o desemprego
Gilson
Camargo, de São Paulo
As
declarações do presidente Fernando Henrique durante visita à França,
no começo de junho, acabaram aquecendo o debate em torno da redução
da jornada de trabalho. Entusiasmado com as reformas implantadas
pelo governo do primeiro-ministro socialista Lionel Jospin - que
no início do ano adotou a lei proposta pela ministra do Trabalho
e da Solidariedade Martine Aubry, reduzindo a jornada de 39 para
35 horas semanais -, FHC incentivou empresários e trabalhadores
a negociar a redução da jornada como “estímulo para a criação
de empregos no país”. Sem querer, FHC endossou a campanha unificada
pela redução da jornada, deflagrada em meados de fevereiro pela
CUT, Força Sindical e CGT
A estimativa
do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) é de
que a taxa de desemprego no país, que oscila atualmente em torno
de 8%, encerre o ano em 9,8%. Frear o desemprego com a abertura
de novos postos de trabalho a partir da redução da jornada para
36 horas semanais até 2002 é a proposta dos sindicalistas. O argumento
tem como base uma simulação feita por técnicos do Departamento
Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-econômicos (Dieese),
segundo o qual seria possível criar quase dois milhões de empregos
em todo o país com a redução de 10% no número de horas que cada
trabalhador cumpre por semana. Os setores públicos e privados
empregam 24 milhões de trabalhadores. Desse total, 17 milhões,
ou 70%, cumprem mais de 40 horas de trabalho por semana. Se a
jornada fosse reduzida em 10%, as empresas teriam que contratar
1,7 milhão de funcionários para manter a produtividade sem a necessidade
de investir em tecnologia.
“O país poderia
se livrar do desemprego se mexesse na jornada para valer. Basta
passar a atual carga semanal não de 44 horas para 36 horas, mas
para 28 horas. Só aí seriam criados 8 milhões de vagas, o estoque
atual de desocupados no país”, explica Márcio Pochmann, pesquisador
da Unicamp e autor do livro A Batalha pelo Primeiro Emprego. Para
o economista, a redução da carga horária semanal pode contribuir
com a geração de empregos, dependendo do modelo adotado, e contrapõe
os casos da Alemanha e da França. “O modelo alemão trouxe redução
pontual da jornada, decorrente da iniciativa de sindicatos e empresas.
O efeito macroeconômico é pequeno, circunscrito à empresa que
reduziu a jornada. No caso da França, a redução é mais eficiente.
O efeito macroeconômico é maior e impede que se manifestem condições
desiguais de concorrência entre as empresas. É importante uma
decisão de ordem nacional”, sinaliza.
De
acordo com Pochmann, a redução da jornada só trará mais empregos
com crescimento econômico, com controle das horas-extras e sem
alteração de custos para as empresas. “O que mais cresceu no Brasil
nos anos 90 foram as horas-extras: são 27 milhões de trabalhadores
que fazem horas-extras e que equivalem a três milhões de postos
de trabalho de 44 horas semanais”, ilustra o economista da Unicamp.De
acordo com Cássio Calvet, economista do Dieese/RS, o debate em
torno da adoção da jornada reduzida de trabalho não é novo, mas
ganhou força a partir do aumento contínuo do desemprego e pelas
declarações do presidente no exterior. “A redução de jornada é
capaz de gerar postos de trabalho e aquece a economia a partir
do momento em que integra trabalhadores com a criação de poder
aquisitivo. No Brasil há um aumento da produtividade, o que permitiria
essa redução da jornada sem aumentar os custos para as empresas”.
Para Calvet, as declarações de FHC não refletem a postura do governo
internamente e soam como “arrependimento”. “O governo quer que
os trabalhadores discutam a redução da jornada num momento de
perda de poder dos sindicatos, com uma taxa de desemprego beirando
20% e perdas de conquistas históricas pelos trabalhadores. A política
do governo federal sempre vai no sentido contrário, de desregulamentação
do mercado de trabalho com estímulo ao banco de horas e à terceirização
que, na prática, acabam aumentando a jornada de trabalho”, critica
o economista, defendendo a redução da jornada em nível nacional,
via Congresso.
Empresários
terão de debater
“O discurso
de FHC é para francês ouvir. O presidente defende a redução da
jornada lá fora, mas a sua base de sustentação parlamentar não
aceita discutir a proposta”, contra-ataca o deputado Paulo Paim
(PT-RS), autor da proposta de emenda constitucional que reduz
a jornada de 44 horas para 40 horas semanais. Paulo Paim também
detecta contradição entre o discurso de FHC no exterior e o comportamento
do governo em relação à questão. Apresentada por Paim e por Ignácio
Arruda (PC do B-CE), a emenda constitucional que prevê a redução
da jornada é combatida pelos deputados da base governista. Para
que a proposição fosse incluída na pauta de votação da Câmara,
os líderes do PFL, do PSDB, do PPB e do PTB, que formam a base
de sustentação do governo, deveriam indicar seus representantes
para a comissão encarregada de analisar a matéria. Detalhe: a
proposta de emenda constitucional foi protocolada na secretaria
em 1995. Nunca entrou na pauta de discussão. “O governo indicou
o ex-deputado João Melão Neto (SP) para relator. Ele sentou-se
sobre a matéria, que até hoje não tem parecer, até porque o deputado
não se reelegeu”, protesta Paim. Para o deputado gaúcho, a redução
da jornada de trabalho é uma tendência “mundial e irreversível”.
“O governo e os empresários vão ter que enfrentar esse debate,
porque a redução vai acabar acontecendo de uma forma ou de outra.
Na Austrália, por exemplo, o turno de seis horas já é uma realidade.
Em países como a França a tendência é reduzir a jornada de 35
horas para até 15 horas semanais”, ilustra o parlamentar.
Logo após
a fala de FHC, o ministro do Trabalho e Renda, Francisco Dornelles,
apressou-se em relativizar as declarações do presidente: “A situação
das grandes e das pequenas empresas não é a mesma das microempresas.
Há casos em que a redução da carga horária poderá implicar no
aumento da informalidade. Por isso, a redução da jornada deverá
resultar de negociações e não de uma mudança na legislação”, defendeu.
Outra argumentação
contrária à redução da jornada foi levantada pelo empresário Antônio
Ermírio de Moraes, superintendente do Grupo Votorantin: “Quem
vai pagar os custos da redução da jornada?”, reagiu. Para Renan
Proença, presidente da Federação das Indústrias do estado (Fiergs),
o efeito da redução seria negativo sobre empregos e salários.
“A redução da jornada eleva custos, reduz a competitividade, freia
as exportações. Significa menos empresas e menos salários”, argumenta.
“O presidente tem boas idéias sobre o Brasil quando está no exterior”,
ironiza o presidente da Federação das Associações Comerciais do
Rio Grande do Sul (Federasul), Mauro Knijnik. “A redução da jornada
deveria ocorrer junto com a retomada do crescimento”, esquiva-se.
Metalúrgicos
filiados à Central Única dos Trabalhadores (CUT) e Força Sindical,
que reivindicam um corte de oito horas na jornada semanal, de
44 horas para 36 horas, iniciaram por Porto Alegre uma série de
manifestações que culminaram com acampamentos de 36 horas em frente
às federações das indústrias para pressionar empresários. Em São
Paulo, cerca de 40 mil trabalhadores metalúrgicos e da construção
civil paralisaram 90 empresas por períodos de até duas horas,
na manhã do último dia 23. Com base no levantamento feito pelo
Dieese, que demonstra ser possível criar 1,7 milhão de empregos
com a redução da jornada, o presidente da Força Sindical, Paulo
Pereira da Silva, defende uma mudança no artigo sétimo da Constituição,
reduzindo a carga semanal de 44 horas para 40 horas. “Se o presidente
realmente acredita que a redução da jornada de trabalho é necessária,
deve propor essa discussão ao Congresso Nacional ou ninguém vai
acreditar que ele estava falando sério”, alfineta o sindicalista.
Redução
já é realidade no ABC
Cerca de 500
metalúrgicos da Brazaço Mapri Textron, em São Paulo, passarão
a cumprir 40 horas semanais no segundo semestre, com redução de
duas horas em agosto e mais duas em outubro. Na região do ABC
onde, segundo a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos
(Anfavea), o número total de trabalhadores caiu de 111 mil em
abril de 1998 para 94 mil em abril deste ano, as experiências
com a redução da jornada para 40 horas sem redução dos salários
estão criando novos postos de trabalho.
Os 13 mil
metalúrgicos da Volkswagen, em São Bernardo do Campo, por exemplo,
trabalham 42 horas semanais depois de um ano trabalhando quatro
dias por semana. Segundo o coordenador da comissão de fábrica
da Volks, Clarindo Ferreira Prado, a empresa já anunciou 500 novas
contratações a curto prazo. Neste ano, foram abertos 530 novos
postos de trabalho nas fábricas da Mercedes-Benz (330) e General
Motors (230), todas no ABC.
O fim da jornada
flexível de trabalho e do banco de horas, que aumentaria a jornada
a partir de agora, foi a fórmula encontrada pelos metalúrgicos
da Scania para induzir novas contratações na empresa, que já anunciou
aumento no efetivo de acordo com Vital Dantas, membro do Sistema
Único de Representação (SUR). A jornada de trabalho na Scania
alterna semestres de 32 e 40 horas semanais, com aumento da produtividade
de 135 para 175 unidades por dia.
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