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Fotos Luciano
Quirino/Diário de Sorocaba/AE
Os herdeiros
do Iluminismo
Flávio
Silveira*
De
um modo geral, manifestar-se contra autoridades públicas é um
direito legítimo das democracias. Não deve ser diferente, então,
quando um estudante resolve estourar um ovo na cabeça do ministro
José Serra, mesmo constituindo-se, este, num protesto primário,
numa agressão meramente personalizada. É evidente que ela tem
um efeito simbólico. E é evidente, também, que atingir um ministro
com um ovo não é recurso democrático, ainda que com esse ato não
se queira ferir ou lesar a integridade de quem quer que seja.
Analisando
o episódio, entretanto, pelo aspecto da legitimidade, se estabelece
um limiar muito tênue para um tipo de manifestação entre o primitivo
e o ineficaz. O Estado faz com muita freqüência esse tipo de intervenção
autoritária, em que prevalece a força em detrimento da negociação.
E não é por outro motivo que as manifestações oficiais em torno
do caso indicaram um dimensionamento superior ao fato em si, próximo
do apelativo. Afinal de contas, deve-se considerar que as pessoas
não estão se manifestando contra o governo gratuitamente, já que
professores e servidores púbicos estão sem aumento salarial há
muito tempo.
O problema
todo está em que este governo não se reconhece como alvo das críticas
e dos protestos, como um organismo que está em posição de enfrentamento
e divorciado do movimento social, incapaz de lidar com as reivindicações
– legítimas ou não – de uma parcela da sociedade. Ele, governo,
não se vê como parte desse processo de deterioração das condições
materiais do país porque é formado por um grupo de intelectuais
e professores que se auto percebe como alguém que está fazendo
o melhor possível nessa corda bamba entre um Congresso e uma opção
de aliança conservadores, de um lado, e uma perspectiva social-democrata,
de outro. Na sua representação, as autoridades deste governo estão
cientes de que criam as condições necessárias para desenvolver
o país.
Então, a quem
interessa descaracterizar essas manifestações como parte, ainda
que primária, do jogo democrático? Nesse caso, é preciso discutir
o alcance efetivo da democracia e o papel da autoridade nesse
cenário institucional. Se temos uma estrutura fortemente personalizada,
como a nossa, perder um presidente ou qualquer outra autoridade
central é um trauma. Quando os movimentos sociais descambam para
esse lado, ficam numa situação muito delicada, no limiar de algo
que seja o oposto ao objetivo que se pretende alcançar.
Na verdade,
não há nenhum grupo organizado no país hoje capaz de usar politicamente
episódios dessa natureza. Episódios como esse podem criar condições
para ações de grupos dessa natureza? Eventualmente, sim. Mas não
se vislumbra, no momento, uma liderança conservadora capaz de
aglutinar, em curto prazo, os personagens interessados em explorar
fatos desse tipo. Mesmo entre as Forças Armadas não existe mais
aquele medo de ascensão dos grupos à esquerda que persistia nas
décadas de 50 e 60, ainda que haja descontentamento salarial e
uma espécie de sentimento anti-popular por parte da corporação.
No episódio
da queima do Relógio dos 500 Anos, em Porto Alegre, a intenção
clara dos manifestantes era ter um efeito simbólico de crítica
a uma versão dominante da História. O fato, entretanto, virou
uma bomba de efeito retardado e contrário, que afetou de maneira
inversa os integrantes do movimento social vinculados a uma visão
crítica dos 500 anos e até mesmo o governo estadual. Isso revela
um segundo aspecto do episódio: a incapacidade de o movimento
construir alternativas de pressão que não o levem ao isolamento.
Afinal, não consta que o ovo estralado na cabeça do ministro José
Serra tenha resolvido algum dos problemas reivindicados pelos
manifestantes.
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Doutor em Sociologia pela USP, coordenador do Programa de Mestrado
em Ciências Sociais da PUC/RS
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