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Por que Van
Gogh cortou a orelha em Paris
Nei
Lisboa
Escrevo de
Roma, quase ao final desta pequena tour européia, bastante animado
pela beleza da cidade e pelo bom tempo que se abriu desde que
aqui cheguei. Vinha de uns dias em Londres debaixo de frio e chuva,
sem falar no calor humano, que sobra na Itália, e na Inglaterra
ainda não inventaram.
Também
dei sorte com o hotel na chegada, uma suíte com cama enorme, uma
benção depois de duas noites em cabines de trem, e uma raridade
na Europa, acredito, pelo menos por US$ 60 a diária. Em Paris,
entendi por que o Van Gogh cortou uma orelha, certamente hospedado
num cubículo como o meu. Com as duas, era difícil se movimentar
lá dentro.
Enfim, era
Paris, e em Paris o hotel serve mesmo é para trocar o band-aid
das bolhas nos pés e seguir batendo perna por uma cidade onde,
nessa época do ano, às onze da noite não é noite, é dia. A beleza
da arquitetura, dos boulevards, dos cafés, dos monumentos, é realmente
um colírio para os olhos, como de resto o é nas outras cidades
européias por onde passei. E Paris ficou ainda mais linda no domingo
em que o Guga tornou-se número um do mundo, maravilhosa e merecidamente.
Eu bem que avisei, Valéria e Flávio, sou ou não sou um bom profeta
esportivo? Vou cobrar aquele caderno especial quando cobrir o
tricampeonato em Wimbledon para o Extra Classe dominical.
Mas o tênis
aqui anda um pouco abafado por conta da Eurocopa, assunto que
acompanhei de perto em um domingo maravilhoso de Amsterdã, torcedores
de todos os lugares, muita festa e muita música numa praça ensandecida
da cidade das bicicletas, e onde o inglês é língua corrente, tornando
tudo mais fácil. Já de Londres, veja só, sai-se com a certeza
de que a língua nativa é o holandês. Sem querer ser rançoso com
os ingleses, a minha passagem por lá foi muito cara e pouco compensadora.
Não posso me despedir sem uma notinha sobre o drama do Ricardo
Carle, que começou na exata manhã em que embarquei, e que já soube
ter estado a cidade devidamente consternada e solidária. Sou um
dos suspeitos para falar sobre o jornalista, o escritor, a pessoa,
porque o tenho na conta dos melhores amigos, como tanta outra
gente também o tem. Mas desconfio, agora que as notícias sobre
a recuperação dele são as melhores, que na verdade tudo foi uma
desculpa para merecidas férias e para pegar uma carona nessa minha
viagem. Pelo menos em pensamento, bebemos todos os bons vinhos
juntos, e dele recebi as melhores dicas sobre a viela a dobrar
à direita ou à esquerda, em Paris ou em Roma. Não aceito menos
do que chegar aí vendo o Ricardo sorrir sobre o que já passou,
e pra ele vai o meu maior abraço.
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