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O Outro
Luís
Fernando Verissimo
O presidente
disse que, se alguém tirou proveito da compra de votos para a
sua reeleição, não foi ele. Cumé quié?! É isso mesmo. O presidente
disse que, se alguém tirou proveito da compra de votos para a
sua reeleição, não foi ele. O presidente disse que, se alguém...
Espera um pouquinho. Está tudo explicado! A surpreendente declaração,
antes de comprometer o presidente, na verdade o absolve. Agora
sabemos por que ele condena a injustiça social no Brasil e em
cinco anos fez tão pouco para diminui-la e colaborou tanto para
agravá-la. Finalmente revelado como ele pode fazer aqueles discursos
no Exterior contra a dependência no capital volátil internacional
e ao mesmo tempo presidir a rendição incondicional do Brasil à
agiotagem globalizada. Está claro por que ele se choca sinceramente
com a violência e a miséria que crescem e só falta atacar um governo
que tira verba do social para remunerar a especulação, como se
o governo não fosse dele.
É que ele
não é ele. Ou ele não se reconhece nele mesmo. Ou ele é ele e
também é outro, que ele só observa, sem se envolver. Foi para
reeleger o Outro, não ele, que compraram os votos para a emenda
da reeleição. Ele não aprova, mas não quis se meter, era assunto
do Outro. Quando discursa no Exterior, ele precisa se controlar
para não criticar o Outro e o que o Outro está fazendo na presidência.
Seria deselegante. Afinal, ele só freqüenta o Planalto porque
o Outro está lá. Só vai a cerimônias, coquetéis etc. porque representa
o Outro. Só pode fazer suas viagens, e suas observações, e suas
frases, por uma deferência do Outro. Se o Outro não tivesse sido
reeleito – por qualquer meio, não é assunto dele –, ele não estaria
onde está. Por isso ele precisa ter tato ao tratar com o Outro,
embora discorde de muita coisa que o Outro faz. Por isso, quando
comenta a situação do país, nunca cita o responsável. E quando
diz que quem tirou proveito da compra dos votos para a reeleição
não foi ele, deixa apenas subentendido o fim da frase: “Foi o
Outro”.
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