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Esculturas
que o mar não quis
César
Fraga
O
dia-a-dia do artista plástico Hamílton Coelho, 46
anos, é fazer arte, mais especificamente, esculturas. Onde?
Lá na ponta sul do Brasil. Ele recolhe restos da maré
e transforma em obras de arte. Madeira, ossadas, bóias,
pedaços de navios. Mas não é só isso,
além do conceito, digamos ecológico, o resultado
visual e tátil é impressionante. Não pense
que os objetos, depois da interferência do olhar e das mãos
do escultor possuem uma aparência tosca. As formas são
futuristas, lembrando cenários dos velhos gibis do Flash
Gordon. É possível, por exemplo, flagrar o escultor
sentado dentro de uma de suas instalações, uma mandíbula
de baleia imensa, como se estivesse na cabine de uma nave. É
justamente essa conexão com o futuro, com a modernidade
em sentido amplo, que faz do seu trabalho paradoxal, mostrando
o belo por meio do uso de dejetos vomitados pelo Atlântico.
Dizer
que Hamilton Coelho faz arte no fim do mundo pode parecer exagero,
mas é a analogia perfeita para a sensação
que se tem ao penetrar em sua residência, que é um
misto de ateliê, museu e lar. Os filhos correm e brincam
dentro da casa repleta de peças parte em andamento, de
acabamento ou em exposição. Se ele tivesse nascido
europeu talvez possuísse a mesma notoriedade de um Frans
Kracjberg - artista plástico polonês que ficou mundialmente
famoso por utilizar restos de árvores queimadas provenientes
de florestas para suas esculturas- . Mas não, é
brasileiro, nascido em Santa Vitória do Palmar e residente,
por opção artística e estética, nos
últimos metros de Brasil existentes antes da fronteira
com o Uruguai, na Barra do Chuí. Hamilton Coelho e Kracjberg
já tiveram um encontro há alguns anos, quando trocaram
considerações sobre a sintonia de suas obras. No
momento está sendo estudada a possibilidade de uma exposição
de ambos no Uruguai, "mas ainda são apenas projetos",
diz Hamílton.

Hamílton
Coelho utiliza materiais vindos do mar para elaborar suas obras,
transformando dejetos em esculturas
O
quartel general do artista fica a menos de cinqüenta metros
do marco divisório entre os dois países. Isso mesmo,
o dito cujo, fica literalmente dentro do quintal de um antigo
posto policial, que no passado foi utilizado pelo regime militar
para guardar a fronteira nos anos 60. Isso faz de Hamilton o último
habitante do Brasil, ou o primeiro, dependendo do ponto de vista.
Porém, hoje Coelho dá ao local um significado bem
mais nobre. Reformado, o lugar serve, além de casa, como
um abrigo para as obras de arte. Tornou-se um museu, aberto à
visitação, onde todas as peças em exposição
são feitas com detritos deixados pela maré, na costa,
à beira da praia. Enormes ossos de baleia, bóias
e imensas carcaças de navios são a matéria
prima para o trabalho extremamente original que Hamilton vem desenvolvendo
há mais de 20 anos, em silêncio e sem alarde. Embora
a imprensa do centro do país tenha vendido a imagem dele
como sendo uma espécie de ermitão, está longe
disso. Ligado em tudo via internet, TV e jornais, esta aura que
lhe foi impingida é totalmente falsa. Quando perguntado
sobre os motivos de não estar nos grandes centros culturais
responde: "Minha arte é verdadeira. Não preciso
e não quero estar nos grandes centros. Meu lugar é
aqui. Só aqui tenho as condições ideais de
realizar o meu trabalho".
Coelho age com a certeza de estar fazendo a única coisa
que poderia ser feita. Outro detalhe é que cada obra pode
levar muito tempo para ficar pronta. Mas para ele não há
problema nisso. A paciência e a tranqüilidade fazem
parte de seu método. Pode parecer excentricidade, mas o
escultor após descobrir os objetos, ossos por exemplo,
é capaz de deixá-los enterrados em praias desertas
durante anos até que fiquem no estado adequado para que
sofram as interferências da mão do artista.
Ele se dedicou a estudar estrutura do corpo das baleias como Leonardo
Da Vinci a anatomia do corpo humano. Justamente por isso, tornou-se
uma espécie de consultor das faculdades de oceanografia
e biologia da região sul. Sempre que um animal morto é
encontrado na costa brasileira - gaúcha e catarinense -
ele é chamado para ajudar na dissecação dos
grandes mamíferos do mar. " No fundo, meu trabalho
tem um significado ecológico muito grande. O fato de estar
usando os restos que o mar vomitou na praia, principalmente as
baleias, animais sempre em ameaça de extinção,
indica uma forma de dizer para as pessoas que harmonizar com a
natureza é possível. Se lixo e cadáveres
de animais mortos podem virar arte e beleza, tudo é possível",
desabafa Hamilton.
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| Os
objetos criados por Hamílton, muitas vezes, quase não
sofrem interferência da mão humana. Não
raro, basta o olhar do artista para que adquiram um novo significado. |
Para
o sustento da família, possui uma loja de artesanatos e
peças de decoração, em Santa Vitória
do Palmar. O ponto forte são as velas feitas com a areia
da praia. As consultorias as universidades também lhe rendem
alguns honorários. Fora isso, já fabricou móveis
por encomenda, em madeira e outros "bicos". Tudo porque
não faz questão de vender suas obras, devido ao
apego que tem por elas. No momento, coordena uma ONG voltada para
a difusão das artes em geral promoção da
consciência ecológica, a Ballaena Australis (ongballaena@zipmail.com.br),
com sede no próprio museu. Já com a autorização
Federal para permanecer no local, estuda uma maneira de os visitantes
do museu poderem contribuir financeiramente para a preservação
do espaço.
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