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Uma competência
mobiliza saberes
Em resumo,
é mais fecundo descrever e organizar a diversidade das
competências do que debater para estabelecer uma distinção
entre habilidades e competências. Decidir se temperar um
prato, apresentar condolências, reler um texto ou organizar
uma festa são habilidades ou competências teria sentido
se isso remetesse a funcionamentos mentais muito diferentes. Mas
não acontece dessa maneira. Concreta ou abstrata, comum
ou especializada, de acesso fácil ou difícil, uma
competência permite afrontar regular adequadamente. Uma
família de tarefas de situações, apelando
para noções, conhecimentos, informações,
procedimentos, métodos, técnicas ou ainda as outras
competências, mais específicas. Le Boterf (1994)
compara a competência a um "saber mobilizar".
"Possuir capacidades não significa ser competente.
Pode-se conhecer técnicas ou regras de gestão contábil
e não saber aplicá-las no momento oportuno. Pode-se
conhecer o direito comercial e redigir contratos mal escritos.
Todos os dias a experiência mostra que as pessoas que possuem
conhecimentos ou capacidades não sabem mobilizá-los
de modo pertinente e no momento oportuno, em uma situação
de trabalho. A atualização da quilo que se sabe
em um contexto singular (marcado por relações de
trabalho, por uma cultura institucional, por eventualidades, imposições
temporais, recursos...) é reveladora da passagem "a
competência. Esta realiza-se na ação".
(Le Boterf, 1994, p 16)
Se a competência
manifesta-se na ação, não é inventada
na hora: se faltam os recursos a mobilizar, não há
competência; se os recursos estão presentes, mas
não são mobilizados em tempo útil e conscientemente,
então, na prática, é como se eles não
existissem.
Freqüentemente
evoca-se a transferência de conhecimento, para ressaltar
que não se opera muito bem: determinado estudante. Que
dominava uma teoria na prova, revela-se incapaz de utilizá-la
na prática, porque jamais foi trinado para fazê-lo.
Hoje em dia sabe-se que a transferência de conhecimentos
não é automática, adquire-se por meio do
exercício e de uma prática reflexiva, em situações
que possibilitam mobiliza saberes, transpô-los, combiná-los,
inventar uma estratégia original a partir de recursos que
não a contêm e não a ditam.
A mobilização exerce-se em situações
complexas, que obrigam a estabelecer o problema antes de resolvê-lo,
a determinar os conhecimentos pertinentes, a reorganizá-los
em função da situação, a extrapolar
ou preencher as lacunas. Entre conhecer a noção
de juros e compreender a evolução da taxa hipotecária
, há uma grande diferença. Os exercícios
escolares clássicos permitem a consolidação
das noções de algoritmos de cálculo. Eles
não trabalham a transferência. Para ir nesse sentido,
seria necessário colocar-se em situações
complexas como obgrigações, hipotecas, empréstimo,
leasing. Não adianta colocar estas palavras nos dados de
um problema matemático para que essas noções
sejam compreendidas, ainda menos para que a mobilização
dos conhecimentos seja exercida. Entre saber o que é um
vírus e proteger-se conscientemente das doenças
virais, a diferença é menor. Do mesmo modo que entre
conhecer as leis da física e construir uma barca, fazer
um modelo reduzido voar, isolar uma casa ou instalar corretamente
um interruptor.
A transferência é igualmente falha quando se trata
de enfrentar situações em que importa compreender
a problemática de um voto (por exemplo, sobre a engenharia
genética, a questão nuclear, o déficit orçamentário
ou as normas de poluição), ou de uma decisão
financeira ou jurídica, por exemplo, em matéria
de naturalização, regime matrimonial, fiscalização,
poupança, herança, aumento do aluguel, acesso à
propriedade, etc.)
Às vezes faltam os conhecimentos básicos, principalmente
no campo da economia. Freqüentemente, as noções
fundamentais foram estudadas na escola, fora de qualquer contexto.
Permanecem então "letras mortas", tais como capitais
imobilizados por não se saber investir neles conscientemente
- e não por recusa aos saberes - que convém desenvolver
competências a partir da escola, ou seja, relacionar constantemente
os saberes e sua operacionalização em situações
complexas. Isso vale tanto pra as cada disciplina como para sua
inter-relação.
Ora, isso não é evidente. A escolaridade funciona
baseada numa espécie de divisão de trabalho: à
escola cabe fornecer os recursos (saberes e habilidades básicos),
à vida ou às habilitações profissionais
cabe desenvolver competências. Essa divisão do trabalho
repousa sobre uma ficção. A maioria dos conhecimentos
acumulados na escola permanece inútil na vida cotidiana,
não porque careça de pertinência, mas porque
os alunos não treinaram para utilizá-los em situações
concretas.
A escola sempre almejou que seus ensinamentos fossem úteis,
mas freqüentemente acontece-lhe de perder de vista essa ambição
global, de se deixar levar por uma lógica de dição
de saberes, levantando a hipótese otimista que elas acabarão
por servir a alguma coisa. Desenvolver competências desde
a escola não é uma moda nova, mas um retorno às
origens, às razões de ser da instituição
escolar.
Que competências
privilegiar
continua >>
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