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Doutor
Fausto segundo o criador
por César Fraga

Em 1949, Thomas Mann
dissecou sua própria obra |
Exatamente
um ano e meio depois de publicar uma de suas obras mais
conhecidas, Doutor Fausto, Thomas Mann, aos 74 anos de idade,
resolveu escrever, em 1949, passo a passo a gênese
deste que foi seu grande livro da velhice. Trata-se de A
gênese do Doutor Fausto Romance sobre um romance
(editora Mandarim, 184 páginas). Nele, o escritor
reconstitui com fôlego, o seu próprio processo
de elaboração.
Em princípio,
Mann partiu das anotações de seu diário
íntimo, que depois de devidamente estruturado, transformou-se
em um romance dentro de outro romance, como diz o subtítulo
do livro, um relato pessoal e confessional do homem-autor-da-obra.
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Mas o que
o motivaria a querer esmiuçar em detalhes a história
do seu próprio livro como quem investiga algo misterioso?
É que Mann, ao escrever sobre Doutor Fausto, experimentava
técnicas novas de narrativa, sobrepondo planos temporais,
ficção e realidade. Com isso pegava emprestado o
trágico destino de Nietzsche, a música de Schöenberg
e dramas de Shakespeare. O próprio Adorno, o filósofo,
segundo Mann, teve participação fundamental na elaboração
de Doutor Fausto. Revela também muito conteúdo autobiográfico,
mencionando o suicídio das irmãs e seu deslumbramento
pelo neto, Frido. Mas não pense que se trata apenas de
uma decifração do que foi o trabalho original. A
gênese do Doutor Fausto remonta o método, as pesquisas,
as leituras, a forma de raciocinar a obra. Para isso, o escritor
acaba tendo de repassar séculos de referências literárias
e filosóficas, além de comentar obras de seus contemporâneos,
Stendhal e Hauptmann. Não bastasse, a gênese ainda
apresenta uma paisagem literária do que era aquele período
de final de segunda guerra e início da guerra fria. Não
podemos esquecer que Mann havia sido expulso pelos nazistas, assim
pôde circular nos meios diplomáticos, norte-americanos
e pela atmosfera glamourosa de Hollywood , onde viveu conflitos
ideológicos com seus conterrâneos exilados. Assim,
o texto afiado revive esses debates com Brecht, Arthur Rubinstein
e Charles Chaplin.
O escritor
alemão Thomas Mann, nascido na cidade Lübeck, em 1875,
autor do clássico Doutor Fausto, recebeu o Nobel de Literatura
em 1929. No auge do nazismo, foi morar nos Estados Unidos, onde
assumiu a cátedra da Princeton University. Faleceu em Zurique,
na Suiça, em 1955.
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