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AS
DIREÇÕES DAS ESCOLAS QUEREM A
HORA-ATIVIDADE
*Cecília Farias Bujes
A
Hora-Atividade, trabalho desenvolvido pelo professor, tem sido,
no último período, o assunto mais falado nas escolas,
especialmente, na sala de professores. Não raro às
segundas-feiras, quando os professores relatam a quantidade de
horas que passaram no final de semana planejando, corrigindo trabalhos,
anotando observações para os alunos, registrando
a avaliação e preparando novas atividades para a
semana. Todo esse trabalho é esperado pelas direções
das escolas, que pretendem que o acompanhamento da aprendizagem
pelos alunos seja o mais próximo possível. Então,
as direções querem a Hora-Atividade.
A Lei 9394/96 - LDBEN- dando maior autonomia às escolas,
permitiu alterações na carga horária dos
componentes curriculares e, em alguns casos, a eliminação
de alguns, o acréscimo de outros. A implementação
dos planos de estudo tem sido uma novidade e, para atender às
alterações que surgem, os professores precisam planejar
novamente o seu trabalho. Além disso, muitas vezes os coordenadores
pedagógicos "oferecem" bibliografia para que
os professores leiam em casa, a fim de participarem de debates
nas reuniões pedagógicas. Mais uma tarefa do professor
que se sente comprometido com a sua atividade e quer atender às
expectativas da escola. As direções, então,
querem a Hora-Atividade.
O professor precisa deixar os problemas em casa, mas leva os da
escola para casa. Para não ser considerado "inapto",
procura resolver todos os incidentes de disciplina em sala de
aula. Quando a situação fica realmente insustentável,
encaminha o aluno para o serviço de orientação
que, normalmente, faz o atendimento no horário em que eles
estão em aula . Porém, a solução para
os problemas acaba contando com a participação ativa
do professor, já que é ele quem, de fato, convive
com os alunos. Precisa, então, o professor pensar, buscar
subsídios para enfrentar situações para as
quais, muitas vezes, jamais foi preparado. As direções
querem, então, a Hora-Atividade.
Todo o acompanhamento do aluno, no que diz respeito à avaliação,
é registrado sistematicamente pelo professor. Ao final
de um bimestre ou trimestre, ele preenche as listagens com os
conceitos e faltas dos alunos para serem entregues à secretaria.
Novamente um trabalho que é feito extraclasse, o que nos
leva a entender que as direções querem a Hora-Atividade.
E o professor? Concorda com tudo isto. Sente-se responsável
por todo o processo ensino-aprendizagem e todas as atividades
que a ele são inerentes. Desenvolve um trabalho qualificado,
implementa projetos especiais, oferece ao aluno aquela aula diferenciada,
tudo planejado com interesse e dedicação. E não
o faz somente porque é uma exigência da escola, mas
porque sente-se envolvido com o projeto de educação
que pode transformar a sociedade.
Mas esse persistente trabalho precisa ser remunerado. Se as direções
sabem que ele existe e têm interesse em que seja qualificado
e se é uma realidade imposta pela especificidade da função,
a Hora-Atividade precisa concretamente ser reconhecida e paga
pela escola. Essa antiga e tão renovada luta precisa deixar
de ser uma bandeira somente dos professores. As direções
precisam se engajar, deixando de investir tanto em prédios,
fachadas, ginásios de esportes e começar a investir
no professor.
E os pais dos alunos que, muitas vezes, privilegiam o pagamento
da mensalidade escolar em detrimento de outros gastos? Precisam
também participar desse projeto, pois, com certeza, esperam
que o professor do seu filho seja o mais preparado possível
.
Precisamos, pois, professores, direções e pais viabilizar
a remuneração da Hora-Atividade, sob pena de o professor
viver exclusivamente para o trabalho e deixar de viver experiências
pessoais que, com certeza, fazem diferença, experiências
que o torne verdadeiramente cidadão. Ou ouviremos mais
freqüentemente histórias como a do professor que era
convidado pelo filho a participar do campeonato de pipas. "Mas
como, se o final de semana é o tempo que tenho para preparar
a semana de aulas, corrigir, planejar?". O convite veio de
novo no outro ano e no outro, ainda no outro e a resposta era
a mesma. Até que um dia, num momento de (in)consciência
resolveu: "Hoje eu vou!". Chamou o filho, mas ele já
havia saído. Afinal, era incomum "meninos" soltarem
pipas na faculdade!
* Professora,
diretora do Sinpro/RS
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