|

O
lumpesinato da água
Não
é mais possível separar processos ambientais daqueles
provocados pelo homem. O homem é parte integrante do sistema
Terra. O procedimento que deve levar à compreensão
da realidade ambiental de uma região deve começar
pela reflexão sobre o que concretamente existe na comunidade
em que se está inserido. Essa reflexão é
fundamental para a participação e atuação
social na preservação do meio ambiente e passo decisivo
para a desaceleração de atividades antrópicas
que predispõem o aumento do desequilíbrio natural.
Heraldo Campos *
a
sociologia marxista, o lumpesinato é a camada social carente
de consciência política, constituída pelos
operários que vivem na miséria extrema e por indivíduos
direta ou indiretamente desvinculados da produção
social e que se dedicam a atividades marginais, como por exemplo,
o roubo e a prostituição.
Esse verbete do Aurélio, muito apropriado para os dias
de hoje, representa uma dura realidade para quem vive à
margem da sociedade, não experimentando a cidadania, dado
seu baixo nível de instrução ou seu orçamento
bastante limitado. Assim, não se pode falar em exclusão
social sem considerar a distribuição de renda da
população e seu acesso aos serviços públicos
básicos.
A sociedade tem que se organizar, tem que lutar, porque senão
os governos não ouvem. No campo, a organização
mais relevante foi a do Movimento dos Sem Terra (MST) que surgiu
em 1984, no Rio Grande do Sul, e que, desde então, luta
por uma distribuição mais igualitária das
terras e pelo fim do latifúndio improdutivo, que há
muitos anos predomina no Brasil. Porém, chega ao século
XXI sem ter ainda conquistado, em sua plenitude, esse direito.
O professor Milton Santos dizia que o processo autoritário
da globalização excluía a democracia e nos
levaria ao globalitarismo, representando o fim da crítica
e da autocrítica.
E é na esteira de uma globalização da economia
e suas múltiplas conseqüências que os serviços
de águas estatais vão sendo gradualmente privatizados.
A água é um direito da população.
O governo tem que garantir que nenhum cidadão fique à
margem desse bem público. Ela deve ser fraternalmente compartilhada
e não utilizada como uma mercadoria de guerra, como ocorre
em regiões do Oriente Médio onde o controle de sua
distribuição e utilização é
historicamente cenário permanente de tensões e conflitos.
A criação da ALCA (Área de Livre Comércio
das Américas) faz parte da estratégia norte-americana,
com objetivos políticos, econômicos e militares de
longa duração, para limitar a ação
dos governos nas suas políticas internas e facilitar o
acesso das multinacionais aos serviços públicos.
Para os mais de 300 milhões de pobres e miseráveis
latino-americanos, a ALCA significa o reforço da mesma
política de empobrecimento que já dura há
séculos.
Dez anos depois da Conferência das Nações
Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (mais conhecida como
Eco 92) realizada no Rio de Janeiro, representantes dos cinco
continentes vão se reunir na chamada Cúpula Rio+10,
na África do Sul, entre 26 de agosto e 4 de setembro deste
ano. Neste momento de desafios às instituições
governamentais, no que se refere ao saneamento básico,
um dos programas de ação da Agenda 21 para melhorar
a saúde do planeta, não temos nada a comemorar.
A situação piorou.
Segundo dados da Organização Mundial de Saúde
(OMS), mais de 5 milhões de seres humanos morrem todo ano
pela falta de água potável para beber ou através
de alguma doença provocada pela veiculação
hídrica. Hoje mais de 3 bilhões de pessoas em países
subdesenvolvidos não têm saneamento básico,
num processo intimamente ligado à questão da pobreza
e da miséria, gerando a categoria do lumpensinato da água.
E, como foi dito por um índio mexicano, já
estão privatizando a água, agora só faltam
privatizar as nuvens!
*
Geólogo, Doutor em Ciências, Pós-Doutor em
Hidrogeologia.
Professor Titular da Unisinos.
Autor do Mapa Hidrogeológico do Aqüífero Guarani,
Editora Unisinos, 2000.
e-mail heraldo@euler.unisinos.br
home-page pessoal http://www.exatec.unisinos.br/~heraldo/
|