Bush não tem pressa

Paulo César Teixeira

É bem verdade que, há quatro meses, o presidente dos EUA, George W. Bush, jogou um balde de água fria na ALCA, ao estabelecer tarifas extras de 8% a 30% para o aço. Limitou a cota de importação do produto a 5,4 milhões de toneladas, ao mesmo tempo em que ampliou a Farm Bill – conjunto de subsídios agrícolas que, num prazo de dez anos, alcançará a cifra de US$ 190 bilhões. Um exemplo é a fixação de cotas de 150 mil toneladas/ano para o açúcar do Brasil, cuja produção de cana de açúcar é de 15 milhões de toneladas. “Quanto ao álcool, o subsídio dos EUA é de US$ 0,54 por galão (3,8 litros), o que inviabiliza nossas exportações, embora tenhamos os custos de produção mais baixos do mundo”, lamenta o presidente da União da Agroindústria Canavieira de São Paulo (Unica), Eduardo de Carvalho.

De acordo com The Washington Post, Bush está de olho na eleição de novembro para o Congresso – tem maioria pífia na Câmara e minoria no Senado. Quer afagar os eleitores do interior, como os produtores de laranja e de açúcar obtido a partir de beterraba ou milho, na Flórida. No Brasil, há quem pregue represálias nada convencionais. “Imagine propor aos brasileiros que parem de ir a Orlando e dêem preferência à Disneylandia de Los Angeles. Podemos oferecer descontos em vôos para a Califórnia. O eleitor da Flórida será forçado a concluir que cobrar tarifa de 50% da laranja brasileira não é um bom negócio”, sugere Sérgio Harfeld, presidente do conselho da Dixie-Toga e coordenador do Grupo de Trabalho da ALCA na Câmara Americana de Comércio (Ancham).

Bush enfureceu até velhos aliados. “Os EUA temem a concorrência da agricultura brasileira, que, nos últimos dez anos, aumentou em 73% a área plantada”, afirma Luís Hafers, ex-presidente da Sociedade Rural Brasileira, com fazendas no Paraná e no oeste da Bahia. Para ele, a atitude de Bush é a versão anglo-saxônica do “é dando que se recebe”, que conhecemos tão bem na política brasileira. De fato, parece insensato adotar medidas protecionistas às vésperas de sentar na mesa para negociar uma área de livre comércio. Na anedota, o sujeito coloca um bode na sala. Quando o pessoal reclama do mau cheiro, ele retira o bode e sente-se desobrigado a fazer outras concessões. “Sou o arquétipo do conservador, mas não sou burro. Fui criado pela Guerra Fria, tenho 66 anos. Os Estados Unidos representam para a minha geração os ideais de democracia e igualdade de oportunidades. Me sinto traído”, reclama Hafers.



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