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Melhor
olhar de frente
Na
Roma antiga, só votavam os romanos; no capitalismo
global moderno, só votam os americanos, os
brasileiros não votam.
George Soros, FSP, 8 de junho de 2002 |
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José
Luis Fiori *
az
pouco mais de um mês que Robert Cooper conselheiro
político internacional de Tony Blair explicou,
através da imprensa inglesa e brasileira, o funcionamento
do novo imperialismo anglo-americano, que se globalizou na década
de 1990, e que ele chamou de imperialismo voluntário
da economia global, ensinando ao mesmo tempo que, neste
novo imperialismo, os países que quiserem se beneficiar
devem se abrir e aceitar a interferência das organizações
internacionais e dos estados estrangeiros. Agora, nesta
última semana, foi George Soros quem completou a lição,
ensinando aos que querem se beneficiar do imperialismo
voluntário que também devem abrir mão
do direito a eleições livres, porque ficaram inúteis.
Só serão legítimas se derem a vitória
aos candidatos oficiais e que contem com a bênção
dos agentes financeiros nacionais e internacionais.
Com
esta entrevista e com a ajuda consciente ou inconsciente de
um de seus ex-funcionários que trabalha transitoriamente
no Banco Central, George Soros já interveio no processo
eleitoral brasileiro. Mas isto não deve impedir que se
olhe de frente para o que ele disse, reconhecendo e discutindo
seu grão de verdade, como primeiro passo indispensável
de uma resposta política e econômica eficaz. E
o que ele disse foi que, no mundo das finanças globalizadas
e desreguladas, os países, que não têm moeda
forte e dependem do investimento externo para a rolagem diária
de suas dívidas privadas e públicas, não
podem discutir, nem muito menos alterar as políticas
impostas pelos credores. No caso brasileiro, a adoção
do modelo liberal gerou nos anos 90 um passivo externo de 400
bilhões de dólares, e agora requer 1 bilhão
de dólares semanais de financiamento internacional, só
para girar as dívidas e sobreviver. Para simplificar
o argumento de Soros, os donos deste bilhão de dólares
é que seriam o verdadeiro colégio eleitoral que
elegerá o próximo presidente brasileiro.
Nada disso, entretanto, é novo ou surpreendente. Basta
consultar os textos e documentos centrais do Banco Mundial e
de vários outros organismos internacionais, para ver
que esse foi um ponto absolutamente consensual entre os formuladores
iniciais do que se chamou, na época, de Consenso de Washington.
Quando seus mentores discutiam a badalada questão da
governabiliadade, sempre a condicionaram à manutenção
do que chamavam de enabling economic environment, um ambiente
em que as incertezas fossem radicalmente eliminadas com a supressão
da possibilidade de mudança nas regras e instituições
econômicas. Em 1993, o próprio John Williamson
já dizia explicitamente no seu artigo A democracia
e o Washington Consensus , que uma condição
indispensável à sobrevivência das novas
democracias latino-americanas seria que todos os atores políticos
de cada país estivessem de acordo sobre o que fosse cientificamente
uma boa ou correta política econômica
, de maneira a eliminar a discussão dos temas econômicos
dos debates eleitorais, tornando indiferente qual partido viesse
a governar. Edgard Boeninger, do Banco Mundial, chegou a propor,
em 1992, um trabalho massivo de educação
econômica das elites políticas da América
Latina, para que elas aprendessem que só havia um único
caminho possível, capaz de assegurar aos investidores
que a democracia não lhes traria nenhum prejuízo.
Essa lição foi repetida tantas vezes, e foi tão
bem aprendida, que todos os governos que adotaram o modelo neoliberal
providenciaram, imediatamente, a mudança de suas Constituições
e a aprovação do direito à reeleição.
E todos foram devidamente reeleitos, para evitar o caos.
Mas se é assim, o que foi que George Soros disse de novo?
Nada, ele não agregou nada de novo ao que já se
sabia. Mas se quisesse, poderia ter dito muitas coisas novas,
porque, além de investidor, ele foi um observador atento
e privilegiado de tudo o que ocorreu, na década de 1990.
E por isso ele sabe, como todos nós, que sua profecia
auto-cumprida, nunca aconteceu na América Latina.
Pelo contrário, as duas únicas eleições
de candidatos de esquerda, no Chile e na Venezuela, não
provocaram nenhum tipo de caos. Em segundo lugar, faltou a Soros
dizer que a eleição e reeleição
dos homens de confiança dos investidores e aplicadores
não impediu o caos, basta lembrar que todas as crises
financeiros de 1990, na Argentina; 1994, no México; 1999,
no Brasil; 2001, na Argentina e agora em 2002, de novo no Brasil,
ocorreram sob o mando de governos fiéis aos interesses
do mercado e incondicionais na defesa das políticas
recomendadas pelos seus credores. Em terceiro lugar e
esse foi seu pior esquecimento Soros não disse
que, depois de dez anos de reeleições e de obediência
ao que ele chama de modelo econômico hegemônico,
ficou absolutamente claro que o próprio modelo não
funciona, e nem muito menos atende às necessidades dos
latino-americanos. A década liberal de 1990 foi para
a América Latina e para o Brasil uma década de
crescimento econômico absolutamente insuficiente e medíocre
e de estagnação social, como disse com todas as
letras o Sr. Enrique Iglesias o eterno otimista e Presidente
do Banco Interamericano de Desenvolvimento ao declarar,
no final de 2001, que a América Latina atravessa
um dos períodos mais difíceis de sua história.
Uma situação muito delicada e que pode levar a
um desvio, porque o seu crescimento econômico, na década
de 1990, foi decepcionante, com a agravante de que a concentração
de renda aumentou, e hoje, 170 milhões de latino-americanos
vivem com menos de U$2 por dia. Além de tudo isso,
depois do fim da era Clinton/Camdessus, com a desaceleração
econômica mundial de 2001 e o rigor da Administração
Bush, foi ficando cada vez mais claro uma última lição
dos 90. É que, além do enabling economic environment,
existia uma outra condição para o sucesso do modelo,
que nunca havia sido mencionada pelos seus criadores, gestores
e defensores. É que ele só poderia ter chance
de sucesso, se os Estados Unidos concedessem a alguns países
do Continente o estatuto privilegiado e informal das colônias
brancas ou dominios ingleses do século XIX, como
foi o caso do Canadá, da Austrália e da Nova Zelândia.
A pobre Argentina percebeu e apostou nesta hipótese,
sem compreender as regras e formas do novo imperialismo
voluntário da economia global. Foi rejeitada e
afundou na catástrofe, e é por isso que se diz,
com razão, que o modelo Malan coloca o Brasil
na linha de tiro da Argentina.
Como se pode ver, quando George Soros falou sobre as eleições
brasileiras, esqueceu completamente suas análises e livros
publicados sobre as engrenagens financeiras e suas críticas
à forma de funcionamento atual do capitalismo global.
Raciocinou como um investidor, ou especulador, pensando nos
seus interesses de curto prazo e deixou de lado o Soros que
se quer um pensador crítico do sistema capitalista. Se
falasse seu lado de crítico do sistema financeiro internacional,
teria que ter analisado e discutido todos os ensinamentos da
década de 1990, e, como já fez em outras ocasiões,
teria reconhecido a fragilidade e insustentabilidade, não
das eleições, mas do próprio modelo
econômico hegemônico a que ele se refere sempre
com tanta ironia. Além disso, se seu objetivo fosse construtivo,
teria que ter enfrentado e discutido as disjuntivas de um povo
que não quer repetir a tragédia Argentina, mas,
ao mesmo tempo, quer se desfazer do modelo Malan,
porque este é o verdadeiro desafio, de longo prazo, que
está posto para o próximo governo brasileiro.
Evitar a catástrofe Argentina, desfazendo-se da política
do Sr Malan, entretanto, não é uma tarefa trivial.
E aqui não adiantam bravatas, nem tapar o sol com a peneira,
muito menos anúncios apressados e subservientes de medidas
destinadas a tranqüilizar o mercado, como fez
sucessivas vezes, sem nenhum sucesso, o ex-presidente argentino
De la Rua. Pesa nesta direção a cegueira própria
dos economistas que acreditam na existência de soluções
puramente macroeconômicas para resolver um quebra-cabeças
desta complexidade. Na verdade, só uma grande mobilização
política e econômica e um pacto social costurados
em torno de um projeto nacional conseguirão enfrentar
simultaneamente a armadilha descrita por Soros e o quebra-cabeças
de longo prazo da mudança dessa política que já
destruiu quase toda a América Latina.
De uma ou outra forma, todos os candidatos presidenciais têm
demonstrado consciência dessa dificuldade e o desejo de
enfrentar o desafio, mesmo no caso do candidato oficial, que
deve ter a inteligência suficiente para perceber que o
pitode Soros foi dirigido a ele, muito mais do que
ao Lula. Mas há que olhar a situação de
frente, porque o que Soros disse é uma descrição
do desejo dos mercados e não um fato ou comportamento
inevitável, mesmo no curto prazo. Nesse sentido, a antecipação
da crise, nestas últimas semanas, teve um papel pedagógico,
porque permitiu relembrar 1998 e enfrentar coletivamente a discussão
do problema, em vez de sair correndo assustado atrás
de um novo anjo salvador. E este é o verdadeiro motivo
da convergência programáticaque tem
tomado tantas e tantas páginas de jornal, como se fosse
uma grande traição da esquerda, ou das oposições,
quando na verdade não foi a oposição que
ficou mais liberal. Pelo contrário, foi o discurso e
as críticas da oposição, nestes oito anos,
que ganharam e ganharam antes mesmo das eleições.
Hoje é comum ler nos jornais e revistas
artigos de intelectuais e discursos de políticos que
foram governistas e que repetem agora o que a oposição
vinha dizendo há muitos anos. Neste sentido, já
houve um plebiscito, e o governo perdeu, e é por isso
que esta disputa eleitoral parece pouco competitiva. É
porque ela já se transformou num processo complicado
e simultâneo de construção de um pacto social
sem precedentes na nossa história. Um pacto e uma mobilização
nacional que acumulem as forças necessárias para
virar a página neoliberal e abrir um novo
caminho para o Brasil.
* Cientista
Político
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