|

O
trote que me tocou
Barbosa
Lessa
Em
1947 passei lindo nos exames de fim de ano no 3º clássico e, para
comemorar, fui curtir uns diazinhos de descanso na fazendola de
meus pais em Piratini. A maior curtição foi no lombo do baio Polaco.
A passo, ele parecia uma cadeira de balanço e dava até pra cochilar.
A trotezito, parecia que a gente estava dançando uma polquinha.
A trote, a polca se animava. A trote largo, virava vanerão. Mas,
entre uma troteada e outra, meu pai insistia, de um jeito bondoso
mas muito firme, para que eu continuasse estudando e garantisse
um futuro tranqüilo. Já exercendo profissionalmente o jornalismo,
eu argumentava que o esforço só se justificaria houvesse curso
superior de Comunicação, coisa inexistente àquela época. Mas,
por fim, chegamos a um ponto de concordância: Direito. Me vim
de Piratini a todo galope, para ver ainda conseguia fazer a tempo
a minha inscrição no vestibular. Deu tempo, sim. E passei!
Logo nos primeiros
dias de aula, um veterano chegou até mim e disse: “Te prepara
para o trote, bicho”. Na maior ingenuidade, achei que a turma
estava programando um passeio a cavalo pela Redenção ou outro
parque. Mas vocês já adivinharam o que é que me esperava...
Para um de
meus colegas, deram a tarefa de furar, com um alfinete, todas
as letras “o” de uma página do Correio do Povo, que naquele tempo
tinha um formato enorme. Se saltasse uma letra sem perfurar,
levava uns petelecos nas orelhas. Assistindo à coisa, achei que
ia ser simples, mas, por causa da tensão, lá pela metade da página
o calouro estava de orelhas roxas, o coitado.
E aí me apareceu
um vete rano, trazendo um copo cheio de vinho tinto e passando-o
às minhas mãos: “À tua saúde, bicho!” Eu até que apreciava bastante
um vinhozito, mas, ao provar aquele ali, senti uns embrulhos no
estômago, de tão ruim que era. Quis devolver, mas o veterano explodiu:
“Bebe até o fim, bicho!” Consegui fazê-lo. Mas já me aparecia
um outro veterano, com outro copo à mão: “Bebe à tua saúde, bicho!”
Para encurtar a história: o sinistro desfilar de copos só cessou
quando me fui ao chão em estado de coma alcoólico. Fui carregado
para um dos cantos do jardim da Faculdade. Um tal de Darcy ficou
com pena e levou-me, ainda desacordado, para uma pensão na Caldas
Júnior, de umas senhoras conhecidas dele. Só voltei a mim tarde
da noite e, de perna frouxa, fui para casa, onde o pessoal já
devia estar preocupado com meu sumiço.
Nos primeiros
anos, eu sentia uma terrível náusea só em olhar anúncio onde
aparecesse fotografia de uma garrafa de vinho. Mais tarde, encantei-
me com a hospitalidade dos Bertussi e outros amigos de Caxias
do Sul, mas que por amor de Deus não me convidasse a ir à Festa
da Uva. E cheguei ao cúmulo de, numa ida oficial ao Chile, ter
ofendido grotescamente as autoridades que me homenageavam com
o melhor vinho da terra: “No! no! no!”
Concluí a
Faculdade. Se algum dia tivesse exercido a advocacia, ainda bem.
Mas assim, sem serventia alguma, foi pura estupidez o trote que
me tocou.
* Luiz
Carlos Barbosa Lessa é jornalista, historiador, folclorista e
escritor.
|