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Brasil, 200
anos
Barbosa
Lessa
Depois
de um tempão sem aparecer por lá, agora em abril fui a Jaguarão,
a Cida Histórica, como convidado da prefeitura para participar
da solenidade comemorativa do Brasil 500 Anos. Deu-me as boas-vindas
o próprio prefeito, Vitor Hugo, pilchado à moda gaúcha como é
de seu costume. Abracei velhos amigos, como o professor Eduardo
e o professor Cléo. Fiz novos amigos, como o historiador Emygdio.
Passei horas agradabilíssimas naquela cidade que se situa dentre
as mais belas do Brasil, pela arquitetura histórica, e dentre
as mais nobres, pela fidalguia de sua gente. Lindo, lindo!
As solenidades
propriamente ditas propriamente dita ocorreu no suntuoso Teatro
Esperança e desdobrou-se, depois, informalmente, na sede do Instituto
Histórico e Geográfico de Jaguarão. Os discursos se referiam empolgantemente
à chegada das naus portuguesas a Porto Seguro, em abril de 1500,
mas nenhum dos oradores teve a coragem de lembrar que, naquela
época, a futura Jaguarão – e o Rio Grande do Sul como um todo
– não pertenciam à comunidade lusitana. Por determinação do Tratado
de Tordesilhas, inspirado pelo papa Alxandre VI, da enseada catarinense
de Laguna para o Sul já éramos, todos, castelhanos.
Tal situação
histórica se manteve até meados do século 17, quando o papa Inocêncio
XI decidiu desmembrar do gigantesco Bispado da bahia um novo Bispado,
o do Rio de Janeiro, e achou justo que a nova jurisdição episcopal
se estendesse até a “fronteira natural” do rio da Prata. Isto
deu base para que, em 1680, fosse erquida bem à frente da povoação
espanhola de Buenos Aires, em território hoje uruguaio, não uma
capela subordinada ao Bispado mas uma fortaleza subordinada ao
governador do Rio de Janeiro: Colônia de Sacramento. O maior pomo-de-discórdia
da América do Sul.
Jesuítas
do Paraguai atravessam o rio Uruguai, fundam as sete cidades das
Missões e trazem suas estâncias e ervais até a beirada da Lagoa
dos Patos. É modestíssima, porém, a penetração portuguesa, limitando-se
a alguns pontos isolados do litoral, tais como a fortaleza do
Rio Grande e o porto de Viamão (Porto Alegre). A Terra de Ninguém.
Um chamariz para gente sem eira nem beira, ladrões de gado, contrabandistas,
gaudérios. Os próprios reis de Espanha e Portugal tornam-se os
maiores interessados em definir até onde vão, mesmo, os territórios
de cada um deles. 1750: Tratado de Madri, teoricamente entregando
para o trono de Lisboa toda a extensão das Missões. Na prática,
a guerra dos guaranis negando-se a entregá-la e a fundação do
forte de Rio Pardo como ponto principal da defesa lusitana. O
Tratado de El Pardo revoga o de Madri e faz tudo voltar ao que
era antes.
Em 1763 o
governador de Buenos Aires, D. Pedro de Caballos, conquista a
fortaleza de Rio Grande e enxota o comandente coronel Madureira
para o porto de Viamão. 1777: Tratado de Santo Ildefonso, reafirmou
a soberania espanhola nas Missões. Pouco tempo depois, o vice-rei
do Prata, D. Pedro Melo, manda o governador militar de Montevidéu
avançar no rumo do Brasil, daí resultando a fundação das trincheiras
de Cerro largo e o início do povoamento às margens do rio Jaguarão.
Este o panorama
até 1801, quando na Europa estoura nova guerra envolvendo Portugal
contra a coligação Espanha/França. Imediata repercussão em Porto
Alegre, onde o governador Veiga Cabral decide-se a formar exércitos
para uma guerra de verdade nestas bandas do Sul. Que resultou
na definitiva anexação das Missões e de Jaguarão ao território
brasileiro.
Brasil 200
Anos foi a comemoração imaginada, meio por brincadeira e meio
às deveras, agora para o ano que vem, em Jaguarão. Vale a pena
levar adiante.
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