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Polêmica
Crime que
compensa
Marcelo
Magalhães
Diretamente
associadas ao poder e com as facilidades tecnológicas, quadrilhas
aumentam suas atividades no estado e deixam preocupadas as autoridades
encarregadas da segurança pública. Impaciência da sociedade com
as máfias faz CPI virar palco de disputas políticas.
Um
número, dos tantos números estatísticos produzidos durante a CPI
do Crime Organizado na Assembléia Legislativa, é a melhor forma
de demonstrar a permanência das quadrilhas e máfias no mundo de
hoje: o disque-denúncia, telefone instalado pela comissão para
receber informações anônimas da sociedade, registrou mais de 900
chamadas em menos de três meses de funcionamento. Fazendo as contas,
são mais de dez ligações com denúncias por dia, incluindo aí sábados,
domingos e feriados. O crime organizado, expresso em esquemas
que apenas começam a ser investigados, arraigou-se de tal forma
que é difícil combatê-lo por métodos tradicionais. Os criminosos
descobriram na tecnologia um aliado de peso.
E a sensação
é de que a CPI – instalada no início de março com o objetivo de
desvendar as conexões gaúchas do narcotráfico – transbordou para
fatos e histórias bem complexas, como a recente formação de quadrilhas
especializadas em roubos virtuais. Esses grupos são exemplos de
como atuam os criminosos em plena globalização: os ladrões atuam
em todo o país, efetuando saques nas contas correntes via internet,
e pelo menos dois suspeitos foram detidos no Rio Grande do Sul.
O procurador
de Justiça que coordena a força-tarefa de 68 pessoas, empenhada
na investigação de atividades criminosas no estado, Mauro Renner,
não tem dúvida de que funcionários de bancos estão agindo em conjunto
com a quadrilha. “Pelo menos oito pessoas deverão ser denunciadas
por esta prática”, adianta Renner.
A sociedade
com autoridades e pessoas influentes é a barra de sustentação
das quadrilhas no mundo moderno. O secretário José Paulo Bisol,
da Justiça e Segurança, evita comentar dados recolhidos pela CPI,
mas não esconde que o crime organizado só pode existir com a participaçãodo
Estado, ou seja, com o suporte de especialistas e autoridades
de cada área, sejam eles policiais, juízes, parlamentares ou simples
bancários. “Não há crime organizado no mundo sem isso”, diz Bisol.
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Presidente
da CPI, deputado Paulo Pimenta (PT): pressões políticas
Foto: René Cabrales
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Na
área do narcotráfico, o requinte das quadrilhas é ainda maior.
Elas utilizam pequenos aviões para descarregar cocaína em solo
gaúcho. Regiões de fronteira e o litoral Sul são as preferidas
pelos traficantes, que se comunicam por rádios comprados em qualquer
casa que comercialize produtos de
telecomunicações
no estado e
têm entreseus sócios – segundo uma testemunha já ouvida pela CPI
– delegados da Polícia Civil. “O Rio Grande do Sul faz parte de
uma rota internacional do tráfico de drogas, tendo inclusive a
colaboração de autoridades”, revela o comandante da força-tarefa.
O estado recebe mais de uma tonelada de cocaína por mês.
A droga, antes
de chegar ao Brasil, passa pela Bolívia e Paraguai e entra no
país pelo Mato Grosso. A denúncia que mais impressionou os integrantes
da CPI foi a do comerciante Pedro Luís Ferreira de Aguiar. Ele
acusou policiais e delegados da Delegacia Especializada em Furtos,
Roubos, Entorpecentara comprar cocaína. A procedência
da droga, segundo Aguiar, era a Bolívia.
Também foram
encaminhadas mais de 60 denúncias, até agora, referentes a roubos
de cargas e caminhões. A mais grave refere-se a uma quadrilha
que atua na serra gaúcha. Pelo menos duas testemunhas confirmaram
aos deputados que vários agricultores foram vítimas da compra
de caminhões roubados. “São quadrilhas que deixaram de assaltar
bancos para roubar cargas”, afirma o deputado Francisco Appio
(PPB), relator da CPI. Alguns caminhoneiros desapareceram após
descobrirem o golpe. A CPI também apurou a existência, no estado,
de 400 veículos de carga com placas falsas, clonadas ou inexistentes.
O assessor técnico do Detran, André Luis Pinto, prometeu que o
órgão vai abrir inquérito para investigar as irregularidades.
Mas depois
de dois meses e 15 dias de trabalho, mais de 40 depoimentos e
seis pessoas presas, os deputados oposicionistas da CPI do Crime
Organizado entraram em choque com a ala governista da comissão.
A polêmica é mais política que qualquer outra coisa: o relator
da CPI sugeriu uma nova dinâmica nas sessões para acabar com depoimentos
repetitivos de traficantes e informantes da polícia, que estariam
desviando a investigação do narcotráfico, roubo de cargas e lavagem
de dinheiro para a atuação das polícias civil e militar no estado.
O alvo das
queixas é a secretaria estadual de Justiça e Segurança. “Lamento
que, nas últimas semanas, as investigações tenham ficado circunscritas
apenas à polícia, desprezando outras denúncias graves que recebemos”,
afirma Appio. Das seis pessoas presas até agora como resultado
das investigações, quatro são policiais e estão detidos devido
ao envolvimento explícito com o tráfico de drogas.
O presidente
da CPI, Paulo Pimenta (PT), discorda da tese de perseguição à
polícia civil. “Não podemos abdicar de investigações só para não
prejudicar policiais”, rebate o deputado. O parlamentar justifica
que é normal a prisão de um policial ganhar mais destaque do que
a de um traficante por ser um fato inusitado. Apesar das críticas,
Pimenta garante que o trabalho da comissão não sairá prejudicado
no estado. Para acirrar os ânimos, o chefe de polícia do Rio Grande
do Sul, delegado José Antônio Araújo, declarou que alguns deputados
têm ligações com banqueiros do jogo do bicho. O próprio delegado
tratou de enviar uma carta à presidência da Assembléia desmentindo
a frase.
Os mais de
cem depoimentos colhidos até agora foram obtidos graças à lei
de Proteção às Vítimas e Testemunhas. “Não se combate o crime
organizado sem lei de proteção” , diz o procurador de Justiça
Mauro Renner. O coordenador da força-tarefa salienta que a lei
ainda é tímida, já que protege mais as vítimas do crime do que
as pessoas que decidem testemunhar. “É preciso adequá-la, mas
é evidente que, sem esta medida, o nosso trabalho ficaria muito
prejudicado”.
Com tantas
informações para checar, os integrantes da CPI decidiram prorrogar
os trabalhos - que encerram no início de junho – por mais 60 dias.
Com a modernização do crime, os deputados terão ainda muito o
que descobrir. “É necessário unirmos forças no Rio Grande do Sul
para combater a criminalidade. Por isso, mesmo após o encerramento
da comissão, a força-tarefa vai continuar atuando”, anuncia o
procurador de Justiça do estado. A sociedade gaúcha agradece.
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