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Danação
Luís
Fernando Verissimo
Alguns
brasileiros acham que há uma maneira de ser entendidos no exterior,
mesmo não sabendo a língua. Basta falar português – bem alto e
bem explicado. Não é uma pretensão tão absurda. O poeta Ezra Pound
disse mais ou menos a mesma coisa quando garantiu que, olhando
qualquer palavra ou ideograma de um idioma desconhecido por um
tempo suficiente, acabava descobrindo seu significado. Experimentei
o método Pound com uma comprida palavra em alemão e só não tive
sucesso porque, depois de quatro meses, a família protestou: eu
precisava deixar de olhar fixo para aquele livro e ir tomar banho,
trabalhar etc. Mas eu já deduzira que a palavra tinha algo a ver
com o frio na alma que vem de olhar a bruma sobre o Reno ao entardecer
– ou então era o nome de um prato com repolho roxo.
Ideogramas
seriam mais fáceis de decifrar do que palavras. Como são representações
pictóricas do que se quer dizer e usam um universo de símbolos
reconhecíveis em qualquer cultura – sol, montanha, árvore, casa,
homem, sogra, penico –, basta ligar o símbolo à coisa e usar a
lógica que, em menos de 820 anos, você aprende chinês sozinho.
Já as palavras são traiçoeiras. Se Pound fosse um grego querendo
aprender inglês (em vez de ser um americano que sabia até grego),
não adiantaria muito se concentrar na palavra become e deduzir
seu sentido, porque “become’’ significa “tornar-se’’, mas também
significa “ficar bem’’ ou “cair bem’’, como no título da peça
de O’Neill, Morning Becomes Electra (que não quer dizer “A manhã
transforma-se em Electra’’, mas “O luto cai bem em Electra’’ ou
“Electra fica bem de pretinho’’) ou da música Moonlight Becomes
you. Enfim, não há maneira fácil de escapar da danação de Babel.
Eu estava
pensando nisso porque imaginei um americano recém-chegado ao Rio,
decidido a ser um carioca autêntico com poucas lições, soltando-se
num ensaio de escola de samba e justificando sua animação com
o grito “I’m that I’m, I’m that I’m!”, a tradução mais aproximada
possível de “Eu tô que tô!”. Minha colaboração para uma eventual
edição revista e aumentada do The Cow Went to the Swamp (ou A
vaca foi pro brejo) , do Millôr.
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