|

Começar
de novo

Fotos:
René Cabrales |
por
CÉSAR FRAGA
Rosa
María Torres, equatoriana e residente na Argentina,
é pedagoga, lingüista e jornalista da área
da educação. Já trabalhou em vários
países, dentro e fora da América Latina, foi
assessora da Unicef em Nova York, diretora pedagógica
da Campanha de alfabetização Monsenhor Leonidas
Proaño (no Equador 1988/1990) e de programas para
a América Latina e Caribe da Fundação
Kellogg (1996/1998), além de pesquisadora internacional
do Instituto Internacional de Planejamento Educacional
IIPE da Unesco, em Buenos Aires até o ano
|
passado. Atualmente é pesquisadora independente do
Instituto Fronesis e acaba de publicar Itinerários
pela Educação Latino-Americana Caderno
de Viagem.
Ela também é autora de outras duas obras publicadas
no Brasil: Inclusão Um Guia para Educadores
e Educação para Todos Uma Tarefa por
Fazer. |
Extra Classe
- Como surgiu a idéia de fazer um livro de relatos de viagens,
justamente ligadas ao tema educação?
Torres - Viajar faz parte do meu trabalho. Escrever também.
O livro é uma síntese dessas duas coisas. São
quase três décadas de viagens uma vez que comecei
a viajar pela América Latina no início dos anos
setenta, mas a maioria dos relatos publicados são praticamente
todos da década de 90.
Acabei conhecendo muitas experiências brasileiras em educação.
O Brasil é particularmente criativo e propenso a grandes
inovações, porém são inovações
muito efêmeras. Mudam as idéias, mudam as pessoas.
Tudo muda o tempo todo. Os métodos, as doutrinas são
substituídas muito rapidamente, muitas vezes antes mesmo
de serem assimiladas para poderem dar algum resultado.
EC
- Essas mudanças constantes acabam sendo um aspecto negativo,
pois muitos projetos acabam não tendo continuidade. O que
a senhora pensa disso?
Torres - O problema não é a inovação
em si, mas a inovação pela inovação.
Quando as mudanças não se convertem em sistemas.
No Brasil há um eterno recomeçar e muitas idéias
maravilhosas se perdem nesse processo. Isso significa também
que muito tempo, dinheiro e esforços acabam se esvaindo
sem que se veja resultados significativos.
EC-
Existe muita diferença entre as propostas pedagógicas
e políticas educacionais no papel e o que se vê nas
escolas de verdade?
Torres - Isso existe em todo lugar, mas no Terceiro Mundo
é mais grave. O papel mente, mas não necessariamente
porque queira mentir. Os papéis em geral são propostas,
desejos. Assim como as inovações de que falamos
antes, elas também são desejos. É como o
discurso dos políticos, muito distante da prática.
Aprendi a não confiar em papéis, pois a distância
entre eles e a realidade é muito grande. O contrário
também ocorre. Às vezes um papel é complexo,
árido e tecnocrático e a realidade é muito
mais rica e nos surpreende positivamente.
EC
- Que tipo de paralelo podemos estabelecer entre a realidade educacional
brasileira e dos demais países que a senhora visitou?
Torres - Conheço bastante o Brasil pois o tenho visitado
bastante, além de ler muito a respeito. Sempre gostei daqui.
É um país com muita vontade de aprender e isso é
um passo extremamente importante. Eu creio que o Brasil tem um
sistema educativo muito complexo e difícil. A problemática
da educação brasileira é árdua, pois
é um país de grandes contradições
e disparidades sociais. É claro que nenhum país
oferece uniformidade, mas o Brasil é um país de
contrastes muito acentuados. Por exemplo, no Brasil podemos encontrar
escolas com qualidade de Primeiro Mundo, fantásticas, e,
por outro lado, escolas que poderiam ser comparadas às
encontradas às mais miseráveis regiões africanas.
Convivem, em uma mesma realidade, instituições de
ponta comparáveis às que tenho visitado nos Estados
Unidos e Europa, obviamente privadas e caras, com as do ensino
público bastante irregular, principalmente nas regiões
mais pobres do norte e nordeste, onde muitas vezes os professores
sequer possuem formação para tanto. Isso sem falar
muitas vezes em prédios caindo aos pedaços.
EC
- Que tipo de coisas a senhora viu?
Torres - Existe um encontro de educadoras comunitárias
em Pernambuco. Lá os relatos são dramáticos.
As tarefas de algumas professoras vão desde tirar os piolhos
das crianças e dar banho até as tarefas escolares
propriamente ditas. Cada professora, por exemplo, leva um saquinho
de açúcar para doar aos alunos. Nesta mesma reunião
fui convidada também a visitar outras realidades nos bairros
a fim de visitar as escolas. Foi então que me defrontei
com uma tal qualidade humana e uma noção muito clara
do que é realmente pedagogia e o que é eqüidade,
enfim, senso comunitário. Esta é a escola real.
Tenho aprendido das duas coisas. Este país tem, como dizia
anteriormente, uma enorme criatividade. Aqui no Brasil as pessoas
estão continuamente inventando, reinventando e descobrindo
novas coisas. Há milhares de coisas. É impressionante
o quanto existe de gente neste país com capacidade de inovar.
Isso me parece muito positivo. Outra impressão é
de que se trata de uma característica do povo brasileiro.
EC
- A senhora poderia nos dar exemplos concretos de projetos brasileiros
que não tiveram continuidade?
Torres - Muitas coisas. Algumas delas estão relatadas
no meu livro. Mas existem muitas idéias que também
tiveram continuidade. Agora estou me lembrando de uma experiência
patrocinada pela Unicef, em São Paulo. Se fez um projeto
e, dois anos depois, simplesmente, não haviam deixado rastro
ou vestígio de que tivesses existido. Em Recife, por exemplo,
se construiu um escola maravilhosa e só depois de tudo
pronto o poder público se deu conta de ter inaugurado um
prédio sem professores. Não havia dinheiro para
pagar os salários. Não funcionou por pelo menos
três anos. Ou seja, não houve a coordenação
necessária entre os diversos níveis das administrações
municipal, estadual e federal.
EC
Pelo que tem visto em suas viagens, quais são os
maiores pecados e virtudes dos professores?
Torres - Eu acredito que esta mesma criatividade que os brasileiros
têm é ao mesmo tempo uma fortaleza e sua principal
fraqueza, por exemplo. Essa forma volúvel de encarar qualquer
novidade acaba fazendo com que o Brasil compre fácil idéias
vindas de fora. Os brasileiros, em geral, fascinam-se facilmente
e estão sempre atrás de uma novidade. Custa manter
uma rotina e consolidar um processo. Percebo que os professores
estão muito ávidos apenas pelo que é novidade.
Em outros países esta característica seria tida
como boa, pois são muito conservadores. É o caso
do meu próprio país, o Equador. Lá os professores
simplesmente não têm esta vocação para
a mudança, o que no caso deles seria bom. Seria fantástico
um pouquinho de contaminação deste espírito
inovador brasileiro no Equador. Já no Brasil, os professores
estão dispostos continuamente a mudar. Isso faz com que
exista muita fragilidade na sua prática, pois se passa
de uma moda à outra muito rapidamente.
EC
- O construtivismo seria um exemplo?
Torres - Sim, com o perdão do trocadilho, o processo
do construtivismo foi bastante destrutivo. Chegou uma onda avassaladora
de construtuivismo sem que as pessoas diretamente envolvidas tivesses
se apropriado do conhecimento profundo do que significa essa teoria.
EC
- Isso é uma crítica ao construtivismo ou à
forma como ele foi difundido no Brasil?
Torres - Um pouco de ambos. Coisas complexas foram mal transmitidas
de maneira simples. O que deveria ter sido feito, seria a reconstrução
desta teoria de forma que permitisse sua compreensão, sem
distorções. Mas o que houve foi a conversão
desta teoria em uma receita. E, aqui no Brasil, tenho ouvido as
coisas mais espantosas relacionadas ao construtivismo com uma
distorção brutal, uma simplificação
grosseira. É preciso ter muita responsabilidade com o que
se fala publicamente no Brasil a respeito de educação.
Afinal estas coisas podem acabar se tornando receitas e isso é
perigoso.
EC
- A globalização ameaça as escola pública
na América Latina?
Torres - Não sei se a globalização, como
tal, causaria este mal. Mas existem processos específicos
de cada país. E depende significativamente de quem está
à frente de qualquer projeto político. Veja por
exemplo a tendência à privatização.
Tenho dúvidas quanto à imposição externa.
Entendo que esta problemática tem peculiaridades em cada
um dos países envolvidos. Argentina e Uruguai, por exemplo:
na Argentina quase tudo foi privatizado e no Uruguai, o contrário.
O que existe é uma onda privatizadora. Afinal, educação,
antes de mais nada, é um negócio rentável.
Com as novas tecnologias dos computadores, já existem empresários
fazendo as contas de quanto vão ganhar com isso. Mas também
há o risco da qualidade precária da escola pública.
Se ela não se moderniza, não muda, será arrasada.
E aí não interessa por quem ela o será, se
por empresários, pela onda ou pela própria globalização.
EC
- Como está a escola pública na América Latina?
Torres Está atrasada. Os docentes resistem às
mudanças e muitas vezes, o que é pior, esta resistência
ocorre por razões corporativas. E, não podemos esquecer,
existem muitas forças interessadas em destruir a escola
tal como a conhecemos. Aí não se trata apenas da
escola pública estar ameaçada. O E-Learning, por
exemplo, e as técnicas de ensino à distância,
a substituição do professor pelo computador, já
estão se constituindo em uma tendência.
EC
- E a senhora, como vê estas novidades?
Torres - Vejo com fascinação e medo. Me encanta
por um lado e por outro me atemoriza. Eu própria gasto
muitas horas na internet para buscar informação
sobre as principais novidades no setor e também para troca
de experiências. Talvez a palavra de ordem do momento seja
se adaptar às mudanças. Eu já entendo diferente,
precisamos nos adiantar a estas mudanças. Os educadores
precisam dominar as novas tecnologias para poder controlá-las
ao invés de serem atropelados por elas. Os professores
e os intelectuais têm uma responsabilidade muito grande
em se antecipar a estas mudanças. É impossível
negar que a tecnologia é uma aliada da educação.
Por isso não podemos ficar na defensiva em relação
a isso.
EC
- No seu livro a senhora diz que se deveria começar do
zero. O que quer dizer com isso?
Torres - Sei que isso é impossível. O que quero
dizer com isso é que deve existir mudança. Precisamos
entender que está arraigado o conceito de melhora. Quando
falamos em melhorar alguma coisa partimos do pressuposto de que
estamos aprimorando algo que já estava bom, o que não
é o caso. Durante toda a década de 90, se falou-se
em melhoria da Educação na América Latina
e não acredito que possa ser melhorada. Deve haver mudança
e radical. Isso não se resolve com mais horas de aulas,
mais capacitação dos professores e mais textos escolares.
Tudo isso está montado sobre um modelo que já não
tem utilidade para o momento em que vivemos. Este modelo foi criado
quando sequer se sabia o que se sabe hoje sobre o processos de
ensino-aprendizagem. Se algumas pessoas mortas do século
passado saíssem de suas tumbas, descobririam que em tudo
houve mudanças substanciais menos na escola.
EC
- É a falta de educação que gera a pobreza
ou é a pobreza que gera a falta de educação?
Torres - Na verdade ocorre as duas coisas. Quando o Banco
Mundial diz que vamos melhorar a educação para aliviar
a pobreza o que acontece é que a pobreza continua a crescer.
E justamente o estado de miséria é que faz com que
a educação não mude. Existe uma pobreza estrutural
que se dá em vários níveis, desde os recursos
públicos para a educação até a população
escolar. Aí não se pode fazer nada. É a própria
inércia. Na década de 90, investiu-se muito dinheiro
para melhoria da educação e o que constatamos é
que ela piorou.
Contato: rmtorres@fibertel.com.ar
- www.fronesis.org
* Colaboraram na tradução espanhol/português
René Cabrales e Adriana Kabbas
|