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A lista das águas
Heraldo
de Campos *
Entramos
neste ano de 2001 e a palavra mais ouvida foi a lista. A tal da
lista que foi obtida na violação do painel eletrônico
do Senado e detonou o processo de cassação política
de parlamentares cujo desfecho ainda está por vir. Será
que faltou ética a essas excelências?
Segundo os
verbetes de algumas enciclopédias, a ética pode
ser definida como a ciência da moral ou da série
de princípios morais pelos quais o indivíduo deve
guiar sua conduta no ofício ou profissão que exerce.
As concepções
éticas da humanidade têm variado de acordo com as
diferentes formas de evolução social. Segundo Aristóteles,
virtudes éticas são aquelas que se desenvolvem na
esfera da vida prática e que se destinam à consecução
de um fim, tal como justiça, valor, amizade e por aí
vai.
Ao contrário
do que muitos imaginam, os recursos hídricos, sejam superficiais
ou subterrâneos, não pertencem ao proprietário
da terra onde estão localizados. De maneira muito simplificada,
esse líquido, vital e fundamental em todos os dias, pertence
à nação brasileira.
Pela proximidade
com as populações assentadas em seus territórios,
cabe aos estados e municípios o controle e gerenciamento
das águas. O poder público é, assim, o principal
agente balizador nas decisões sobre o seu uso mais adequado.
Para uma captação de água ser feita, via
uma tomada direta de um rio ou através de um poço,
deve ser solicitada uma licença ao órgão
ambiental responsável.
Em que pese
a verdadeira macarronada de leis e códigos
que um usuário tem que conhecer para a tramitação
de uma concessão e a fiscalização notoriamente
deficiente neste setor, todo o processo só será
bem conduzido se os valores éticos prevalecerem.
A desenfreada extração de água para solucionar
a demanda imediatista, sem critério técnico e político
algum, está a cada dia mais exposta à sociedade.
Os meios de comunicação têm exercido um papel
importante nesse sentido e podem ser uma linha auxiliar na reorientação
de obras e serviços vinculados ao saneamento básico.
Neste aspecto,
a partir de um cadastramento de campo e de pesquisa junto aos
setores envolvidos, a um custo relativamente baixo, pode ser diagnosticada
a vocação hídrica de uma determinada bacia
e a sua inerente fragilidade. É o tipo de procedimento
de praxe, desenvolvido em várias partes do mundo, que produz
excelente resultado.
Por outro
lado, como se fosse um retrato 3X4 do que vem acontecendo no Brasil
em outras áreas, grupos oportunistas que atuam com desenvoltura
e cabalam administrativamente elementos oficiais na obtenção
de vantagens escusas em cima do nosso precioso líquido,
uma hora acabam se entregando. E, como a mentira tem perna curta,
essa entrega pode vir na forma de uma lista. A lista
das águas.
Portanto,
diante dessa possibilidade, é imperativa a participação
de representantes dos movimentos sociais nos fóruns de
discussão dos Comitês de Gerenciamento de Bacia Hidrográfica,
como um passo decisivo na busca de uma política mais justa
de uso das águas.
Pelas razões
expostas acima, para finalizar, reproduzo neste espaço
um pensamento de Millôr Fernandes em conversa com Carlos
Henrique Porto, nos idos de 1965. Nesta conversa, muito apropriada
para os dias de hoje, Millôr disse: Nem todos têm
a capacidade e os meios de construir na medida que gostariam.
Mas todos, sem exceção, podem evitar os males sociais
dos realizadores sem escrúpulos, dos empreiteiros ambiciosos,
dos que destroem tudo por onde passam no afã do lucro,
numa política de cupidez e terra arrasada. Você pode
não realizar seus sonhos, mas deve fazer de tudo para que
os outros não realizem seus pesadelos.
* Geólogo,
Doutor em Ciências e Professor Titular da Unisinos. heraldo@euler.unisinos.br
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