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As contas
simples
Luis
Fernando Verissimo
A
diferença entre simplismo e simplicidade é que o
simplismo despreza os detalhes que o desmentiriam e a simplicidade
dispensa os detalhes que a esconderiam. Seria um simplismo dizer
que essa crise de energia é a antiapoteose escuridão,
gemidos e caras feias em vez de luzes, música e vedetes
coxudas de um governo e de um modelo falidos, que não
têm mais nada a fazer senão saírem de cena
sob vaias e repolhos. Há detalhes atenuantes. Grande parte
da culpa por esta situação é mesmo da meteorologia.
Não choveu o suficiente no dia das últimas eleições
presidenciais, o que poderia ter desencorajado muita gente de
ir votar no Éfe Agá e evitado sua reeleição,
com efeitos imediatos na nossa política energética.
Não caiu um raio admonitório em Brasília
no dia em que decidiram que a equipe e o modelo econômico
continuariam, e continuaríamos presos ao grid
de prioridades do FMI até o último toco de vela.
Uma ventania não varreu de cima de nenhuma mesa ministerial
os planos para o setor elétrico, que consistiam em dar
para investidores estrangeiros tudo que já havia de rentável
e confiar os novos investimentos necessários ao seu altruísmo
e espírito público. E os meteorologistas também
não cooperam. Nenhum anunciou muita chuva, nenhum sugeriu
sequer um pequeno alívio da estiagem para ajudar o governo.
Não estou convencido nem da inocência da Patrícia
Poeta e o tempo hoje nesta questão, que obviamente não
se deve só à incompetência oficial.
Mas se devemos
evitar simplismos injustos, não há como não
condenar o governo com contas simples. Com o elementar dois mais
dois ou, no caso, zero mais zero do dinheiro não
aplicado, da medida não tomada, da emergência conhecida
mas desdenhada, da imprevidência criminosa camuflada de
austeridade ou atribuída ao acaso ou, como fez o
Éfe Agá, espantosamente, a ministros do PFL, o que
daria no mesmo. A maior carência do sistema elétrico
hoje em colapso é na distribuição da energia.
O dado que condena este governo e este modelo além de qualquer
atenuante ou compreensão é o da distribuição
de renda, que piorou em oito anos. Quer dizer: a crise também
tem a simplicidade didática das metáforas.
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