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Habitantes
de Babel
Política
e poética da diferença
Jorge Larrosa e Carlos Skliar
tempo
Presente se apresenta a nós de forma incompreensível
e, ao mesmo tempo, como aquilo sobre o qual somos obrigados a
pensar. Existem formas (teoricamente) diferentes para definir
a natureza deste tempo: um tom elegíaco no qual pensamos
sobre o que fomos e já não somos, um tom épico
em que ressoaria a conquista daquilo que seremos, mas que ainda
não conseguimos ser, um tom clássico de ordem e
estabilidade em que poderemos nos refugiar satisfeitos a partir
daquilo que somos ou acreditamos ser.
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Porém
o tempo Presente é sobretudo um tempo de desorientação
cultural, um tom caótico, confuso, desordenado; uma dissonância
de descontinuidades, de fragmentos, de fracassos e silêncios.
O deslocamento massivo de populações, a violência
racial, os enfrentamentos no interior das cidades, o caráter
plural, mestiço e, ao mesmo tempo, crescentemente segmentado
das comunidades, a progressiva destruição e burocratização
dos espaços de convívio, a proliferação
das trocas e as comunicações, a afirmação
das diferenças em um mundo cada vez mais globalizado produzem
a destruição de todos aqueles projetos arrogantes
da modernidade com os quais o homem ocidental tem desejado construir
um mundo organizado a sua imagem e semelhança, na medida
do seu saber, do seu poder e da sua vontade, por meio de sua expansão
racionalizadora, civilizadora e colonizadora.
Ao redor deste tipo de nova Babel, colocam-se em jogo as questões
da unidade e da pluralidade, da dispersão e da mistura,
da ruína e da destruição, das fronteiras
e da ausência de fronteiras, da territorialização
e da desterritorialização, do nômade e do
sedentário, do exílio e do desenraizamento.
Contudo, a atualidade do mito babélico não
está na sua capacidade de expressar algo universal da condição
humana, ou na sua especial adequação às características
peculiares de nosso presente, mas, sim, no modo como o traduzimos,
ou seja, no modo como o colocamos novamente em nosso imaginário
e o transformamos numa espécie de dispositivo metafórico
para dar sentido a nossa experiência. Babel fala de unanimidade,
de totalidade e de mesmidade: de uma cidade, de uma torre, de
um nome e de uma língua, que são para todos os mesmos.
Fala também do fim da unanimidade, da totalidade e da mesmidade:
da dispersão dos homens, da destruição da
torre, da perda do nome, da confusão da língua e
do aparecimento de outros homens, de outras torres, de outros
nomes e de outras línguas.A dominante interpretação
do relato em termos de culpa, castigo e expiação
tem apresentado a condição babélica como
uma catástrofe que teríamos de superar. Daí
vem a antiga tendência de pensar antibabelicamente a política,
a sociedade, a cultura, a ética, a linguagem ou a própria
condição humana. Lamentavelmente moramos em Babel,
assim como lamentavelmente fomos expulsos do Paraíso e,
se nossa tarefa já não é reconquistar o Paraíso,
é, sem dúvida, refazer a Unidade ou, pelo menos,
administrar a Diversidade, ainda que do ponto de vista do lucro
do Capital e da ordem do Estado.
Circula hoje um certo antibabelismo, um pensamento segundo o qual
Babel é o sintoma de alguma das nossas doenças.
Por isso ter-se-ia que compor e recompor uma e outra vez a pluralidade
humana, ter-se-ia que aceitar e celebrar as diferenças,
mas, com certeza, representando-as, desativando-as, ordenando-as,
fazendo-as produtivas, transformando-as em problemas bem definidos
ou em mercadorias bem rentáveis; ter-se-ia que produzir
e canalizar os fluxos e os intercâmbios, porém de
forma ordenada, vigiada e produtiva. Seria necessário convocar
toda a diversidade possível, permitir todas as comunicações,
mas,é claro, calando, dosando, criando novos significados
e harmonizando as vozes dissonantes, governando os silêncios
lacerantes e regularizando os movimentos.
Um sintoma do fim das utopias históricas é a palavra
liberdade; essa palavra, em que o pensamento ilustrado
via nada mais e nada menos que os telos da história
da humanidade, tem sido praticante abandonada pelo discurso político
e conseqüentemente pelo discurso pedagógico. Agora,
as palavras dúbias, cada uma delas com sua parte de verdade
e sua parte de manipulação, são democracia,
comunidade, coesão, diálogo e outras palavras relacionadas
como diversidade, tolerância, pluralidade, inclusão,
reconhecimento, respeito. E são essas as palavras que nos
soam falsas quando são ouvidas no meio de muitos dos discursos
dominantes no campo político, educativo, cultural, ético,
estético ou inclusive empresarial. São palavras
cada vez mais ocas e esvaziadas e que significam, ao mesmo tempo,
tudo e nada: marcas, lugares comuns, rótulos de consumo,
mercadorias que estão bem cotadas no mercado em alta da
boa consciência; palavras que mascaram a obsessiva afirmação
das leis e a excessiva ignorância dos sentidos; palavras
que permitem nos escondermos detrás de nós mesmos
e, ao mesmo tempo, representam uma mímica de alteridade
que nos poupa da presença inquietante de tudo aquilo que
deve ter um nome e um lugar para ser incluído, excluído,
comunicado e, novamente, ignorado; palavras para ensurdecer os
ouvidos e fazer-nos insensíveis às diferenças,
para continuar sendo nós mesmos, com a mesma roupagem ,
a mesma arrogância, a mesma violência, o mesmo medo
a nos abandonar, a nos sentir, perceber-nos ou sermos outro/s
e em trânsito.
Parece que o problema agora não é a dominação
e a impressão de que os homens não devem apreender
a viver livres, mas, sim, a viver juntos e a comunicar-se ordenadamente.
Tem-se a impressão de que será necessário
exorcizar os perigos de Babel e voltar a reunir os homens, não
mais ao redor de uma cidade, de uma torre, de um nome e de uma
língua, mas, sim, a partir da diversidade bem ordenada,
bem comunicada de diferentes cidades, diversas torres, diferentes
nomes, diferentes línguas.Tem-se a impressão de
que o que importa é seguir administrando as diferenças,
identificando-as a fim de intentar a integração
de todos num mundo de forma inofensiva.Tem-se a impressão
de que o importante é continuar administrando e governando
as fronteiras, os atalhos na própria fronteira entre o
sim e o não, o ser e o não ser, o possuir e o não
possuir, o saber e o não saber, entre o mesmo e o diferente.
Assim, temos que problematizar as retóricas da diversidade
que perpassam os discursos educativos e culturais contemporâneos
os quais não fazem outra coisa senão garantir a
boa consciência das práticas institucionais e criar
a ilusão de que estão produzindo transformações
significativas.
É preciso problematizar esse discurso que corre o perigo
de transformar-se em um pensamento da falta de memória,
da conciliação com o passado, em um pensamento frágil,
light, leviano, que não chama ao questionamento e que tenta
eliminar todo mal-estar; um pensamento que não deixa sinais,
desapaixonado, descomprometido, desprovido de toda negatividade,
que subestima o confronto por ser ineficiente. É necessário
problematizar também as diversas maneiras de representação
dos outros cujo efeito fundamentalmente é capturar, desativar
e governar a potência desestabilizadora da diferença.
É importante denunciar, por exemplo, essas operações
de traduções em inúmeros mecanismos de manipulação
dos textos dos outros, na medida em que se procede à usurpação
de vozes da diversidade em que são transformadas, primeiro
em vozes parecidas, mas não idênticas, e assimiladas
depois a nossas formas já conhecidas de dizer e nomear.
Trata-se de tradução como uma forma de eterno retorno
à própria língua, como se não fosse
possível escapar da gramática da língua que
o tradutor incorpora para ler toda estrangeiridade.
Hannah Arendt escreveu que a condição humana da
pluralidade decorre do fato de que são os homens,
e não o Homem, os que moram na terra e habitam o mundo.
A condição humana da pluralidade, podemos acrescentar,
decorre do fato de que há muitos homens, muitas histórias,
muitas maneiras de racionalidade, muitas línguas, e, com
toda certeza, muitos mundos e muitas realidades. Isso é
óbvio, embora não seja demais lembrá-lo e
prevenir, de passagem, contra toda esta série de palavras
genéricas e maiúsculas que nos escapam sem querer,
quase constantemente, e também para desconfiar de todos
aqueles que querem colocar-nos na sua realidade com a pretensão
de ser essa a única realidade, em seu mundo com a pretensão
de ser o único mundo, na sua linguagem com a pretensão
de ser essa a única linguagem, na sua razão com
a pretensão de ser essa a única razão, na
sua história com a pretensão de ser essa a única
história ou em sua humanidade com a pretensão de
ser essa a única humanidade.
Babel é o mito da perda de algo, que, quem sabe, nunca
tivemos: uma cidade, uma língua, uma terra, uma identidade
ou um mundo. Por isso, depois de Babel, estamos exilados de nossa
pátria, de nossa língua, de nossa terra, de nosso
nome, de nosso mundo. O relato de Babel pode nomear tudo que é
estrangeiro, a própria condição humana como
estrangeira. E, com isso, pode ajudar a reformular um velho motivo,
o da existência mesma como exílio, mas agora radicalmente:
como exílio constitutivo, sem remédio. Grande parte
da nossa tradição elabora o tema da existência
como uma passagem: temos perdida a pátria, ou a cidade,
ou a língua, ou a terra ou a natureza ... e nossa tarefa
é recuperá-la. Por isso e também em relação
ao exílio, deve-se pensar Babel babelicamente, ou seja,
sem saudades e sem esperanças. A condição
babélica não é algo transitório cujo
destino seja a própria supressão. Se pensarmos assim,
não a consideramos e, o que é pior, justificamos
todas as violências feitas à própria condição
humana no que tem de plural, de dispersa, de confusa, de exilada,
de babélica em suma. Isso porque são formas de violência
todos os gigantescos movimentos de apropriação da
natureza que destroem a própria natureza (o que a natureza
tem de diverso, de estranho, de acolhedor e inóspito ao
mesmo tempo, de inalienável, de território da experiência),
os movimentos de apropriação do mundo que destroem
o mundo, os movimentos de apropriação dos espaços
públicos que destroem a comunidade humana, os movimentos
de apropriação da língua que destroem a intimidade
da língua, ou os movimentos de apropriação
da identidade que destroem a identidade.
Nossa época mostra-nos inumeráveis exílios:
alguns deles na forma de um exílio exterior dolorido -
as deportações, os deslocamentos massivos de refugiados,
de esfomeados, de expropriados, de sem pátria e perseguidos,
as diversas modalidades da exterminação; outros
sob a forma de um exílio exterior gratificante e cheio
de possibilidades - as viagens, as misturas, as comunicações,
os intercâmbios, as diferentes modalidades do cosmopolitismo,
da evasão ou da saída dos próprios limites;
outros, por último, na forma de um exílio interior
- de um desenraizamento, ou de uma marginalidade, ou de uma distância
entre nós e nossa pátria, entre nós e nossa
língua ou entre nós e nosso nome.
A afirmação das diferenças enfraquece a utopia
da igualdade? Igualdade ou diferença? A pergunta não
parece escapar do mundo das oposições (binárias)
no qual temos vivido nos últimos séculos. E, para
sair do isolamento, quem sabe seja melhor pensar em outras perguntas
que explicitem menos uma oposição e mais uma interpretação
sobre a importância da tradução entre culturas
e dentro das culturas. É possível que o conceito
de temporalidade disjuntiva, criado por Homii Bhabha,
resolva parte desta questão: as diferenças não
podem ser igualadas, nem afirmadas, nem negadas, nem toleradas
nem aceitas, pois elas existem (pré-existem,
co-existem e pós-existem) a toda pretensão de igualdade,
afirmação, negação, tolerância
ou aceitação que venha a se estabelecer sobre elas.
Igualdade e desigualdade? Diversidade ou diferença? A igualdade
é significativa e política quando se refere a um
movimento contrário à desigualdade, quando se instala
para romper a simetria das representações culturais
e a desastrosa distribuição dos recursos humanos
e materiais. Mas, quando a igualdade se estabelece como normalização,
como sistema de poder estabelecido a partir de uma perspectiva
(con)cêntrica, não podemos senão voltar a
lembrar as trágicas pressões para/de ser iguais
que a maioria de sujeitos e de comunidades sofreram durante séculos.
A diferença, como termo cultural e político
opõe-se, pelo contrário, não à
igualdade , mas, sim, à mesmidade, ao fato de somente poder
ser um mesmo, a negar que exista algo/alguém fora de nós
mesmos, a não nos reconhecermos nos outros, a não
ser, justamente, em nós mesmos.
Jorge
Larrosa é professor de Filosofia da Educação
na Universidade de Barcelona e doutor em Pedagogia. Realizou estudos
de pós-doutorado no Instituto de Educação
da Universidade de Londres e no Centro Michel Foucault da Sorbonne,
em Paris.
Carlos
Skliar é professor no Programa de Pós-graduação
em Educação da Universidade Federal do Rio Grande
do Sul. Em 2000, recebeu o prêmio como pesquisador destaque
na área da Educação e Psicologia do RS, outorgado
pela Fapergs.
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