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Um
dedinho de amor (II)
Elisa
Lucinda
Eu
tinha era uma filha da puta de uma saúde que teimava em
não me largar. Todo mundo lá em casa pegava gripe
forte, porque ainda não existia dengue, pegava hepatite
tipo analfabeta, porque ainda não havia classificação,
caxumba, catapora e infecções sucessivas de garganta.
E eu, boinha da silva! Me encostava em todos, me oferecia para
cuidar; pequenina ainda, queria respirar o ar contaminado do sangue
irmão. E nada. Ela mesmo dizia: essa não precisa
de mim. E eu precisava.
Então passei a perseguir acidentes naturais, árvores
altas, bombas proibidas em São João, altas velocidades
em carrinhos de rolimã, mãos perto demais das fogueiras,
mas nenhum galho fraco era meu cúmplice, nenhuma bomba,
amiga minha, explodira, nenhuma ladeira era minha companheira,
nenhuma chama minha irmã.
Um dia, tinha só cinco, fui na gráfica do meu pai.
Pensei, vou machucar um pedacinho do meu dedo, vai doer, vai ter
sangue, curativo, lágrimas de minha desejada mãe,
alguma febre, choro meu, colo, colo, colo e só depois,
muito depois, conserto. Só que a máquina era lâmina
e minha matemática, pouca. Calculei mal. Pus o mindinho
na guilhotina e fechei os olhos pensando nos olhos de minha adorada
mãe que ainda não havia experimentado acolhedores
sobre mim. Eu era a última, a menorzinha, a despedida da
prole, carregava a impressão de ter nascido e ouvido um
adeus ao mesmo tempo. A máquina decepara meu dedo. Deixara
apenas uma falange-cotoco primeira, uma base de dedo. Foi rápido.
Sangue, muito mais sangue do que eu previa. Torpor. Meu pai desesperado
trazido amparado pelos empregados eu não vi. Vi só
minha mãe morrendo de dor pelo dedinho meu que perdi e
que em mim não doía e nem fazia falta.
- Minha filha, minha filhinha adorada, minha preferida, minha
garotinha amada, mamãe tá aqui, tá doendo?
Responde, tá doendo? E, eu mentindo: muito mamãe,
muito. Mas, não doía nada. Se doía, o amor
de minha mãe vindo assim em lufadas inéditas sobre
mim que era um machucado só, estancava qualquer dor. Se
confessasse, poderia perdê-la de novo. Então perdi
um dedinho, um mísero dedinho pra ganhar uma mãe.
Fui crescendo feliz com mimo por aquela mãozinha manca.
Na escola, no primeiro dia de aula, me divertia em enfiar essa
falange vitoriosa no nariz para que a professora de estréia
pensasse que havia todo o dedo dentro dele. Ela repreendia: o
quê é isso Cristina? Tira o dedo do nariz! Que coisa
feia, menina feia que você é. Vai se machucar assim.
Então, eu tirava a falange mínima, quebrando a ilusão
ótica no nariz da mestra. E ela: ô, desculpa querida,
me perdoa, a titia não sabia...
E olhava com olhos de se olhar com pena sobre os aleijados e muito
arrependimento daquela gafe. Eu gostava da cena. Repeti isso por
todo primeiro grau, a cada primeiro dia de aula. Era uma beleza.
Nunca mais perdi minha mãe. Nunca mais fiquei boa do dedo
e nem ruim dele. Nunca quis ele de volta. Quem quis ele era a
minha mãe. Por muito tempo, fiquei dando meus pedaços
para ser amada. Agora não.
Minha mãe ainda quer meu dedo de volta. Eu não quero
mais nada. Tenho mãe. Dar um dedinho por uma mãe
é muito pouco. Antes de mim ela não tinha um dedinho
de consideração por ninguém dos filhos. Agora
tem.
elisalucinda@radnet.com.br
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