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Sem
bandeiras
"Imaginem
um jovem que sobe num pára-lama e, com um gesto, e antes
da palavra, faz a unanimidade. A frase descreve o líder
estudantil Vladimir Palmeira, que subia em caixotes para falar
à multidão de 100 mil estudantes, no centro do Rio
de Janeiro, em junho de 1968. O autor é Nelson Rodrigues,
cronista e dramaturgo que apoiava os governos militares, mas se
rendia ao encanto da figura do rapaz que desafiava de peito aberto
os generais. Palmeira (ex-presidente da União Nacional
dos Estudantes) não era um herói de capa e espada
ele representava um movimento de massa que, durante as
duas décadas de regime militar, era um dos raros canais
de expressão de lutas e reivindicações da
sociedade civil.
Paulo César Teixeira
oje,
aos 57 anos, economista aposentado, Palmeira se declara marxista
independente e se mantém afastado de disputas eleitorais,
após ter sua candidatura ao governo estadual do Rio de
Janeiro vetada pela direção nacional do PT, em 1998,
em nome da aliança feita com o PDT na época. O Movimento
Estudantil, que liderou há 35 anos, parece tão deslocado
quanto o velho líder. Tanto nas universidades públicas
quanto nas particulares, não encontra bandeiras que possam
mobilizar a juventude. Nas instituições federais,
não tem voz para exigir democracia e participação
da comunidade acadêmica na elaboração e no
manejo do orçamento. Nas escolas privadas, não acha
forças para reagir ao aumento abusivo das mensalidades.
Pior: grande parte das entidades está em poder de lideranças
coniventes com as reitorias, das quais recebem afagos e apoio
para se perpetuarem no poder.
As razões para o esvaziamento do ME estão relacionadas,
paradoxalmente, ao retorno da democracia política, pela
qual tanto lutou nas décadas de 60 e 70. Com o fim do regime
militar, em 1985, a sociedade civil recuperou seus canais de expressão
apropriados partidos, sindicatos, entidades comunitárias
etc. e os estudantes perderam o inimigo comum que os mantinha
coesos e mobilizados. É preciso entender que o ME
é um movimento social sem dinâmica interna, que age
sempre em resposta a uma situação externa,
afirma Renato de Oliveira, ex-presidente do DCE da UFRGS, atual
secretário estadual de Ciência e Tecnologia. Em 1977,
Oliveira comandou a primeira passeata realizada no país
após 1969, em meio a bombas de gás lacrimogêneo
detonadas pelo pelotão de choque da Brigada Militar.
| Sérgio
Amaral/AE |
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"Caras
pintadas" foi o canto do cisne
Um dos atuais coordenadores do DCE da Unisinos comandado
por petistas e anarquistas , Erick da Silva, admite que,
após as manifestações dos caras-pintadas,
no início dos anos 90, exigindo o impeachment do presidente
Fernando Collor, o movimento entrou numa longa fase de acomodação.
A maior parte das entidades está em poder de pessoas
mal-intencionadas, que não têm interesse em realizar
eleições transparentes. Muita gente vê o movimento
como um trampolim para a carreira política. Em alguns
casos, a atividade partidária e a militância no ME
se misturam sem constrangimento. Estudante de Direito da Urcamp
de Bagé, Bob Machado acumulou até o mês passado
os cargos de presidente do DCE e vereador pelo PTB. Embora tenha
feito até greve de fome durante cinco dias, em 1999, para
reivindicar a ampliação do crédito educativo,
ele mostra-se conformado com o marasmo dentro das universidades.
A tendência hoje é de um movimento não
politizado. Está difícil mobilizar o pessoal,
diz Machado, que passou a presidência do DCE para Carlos
Augusto de Souza, também do PTB.
Na realidade, não foi apenas a realidade política
do país que mudou. A perspectiva profissional dos jovens
também se transformou radicalmente, o que não foi
devidamente assimilado pelas lideranças estudantis. O
ME é formado por jovens que combinam duas características
disponibilidade política e ideológica associada
a uma grande expectativa em relação à sua
inserção no mercado de trabalho, diz Renato
Oliveira. Atualmente, a preocupação com a formação
e o aperfeiçoamento profissional é muito mais intensa
e precoce, o que diminui a disponibilidade para a militância.
A esquerda não incorporou esta nova realidade. Fala
para um público que, a rigor, não existe mais. Os
movimentos progressistas ainda não entenderam o que está
acontecendo dentro das universidades, observa ele.
Uma das características do ME atual é abrigar coligações
que não primam pela coerência ideológica.
A própria diretoria da UNE, que completa 65 anos em agosto,
consegue conciliar correntes de siglas antagônicas, como
PC do B, PTB e até PFL. O presidente do DCE da Ulbra, Sílvio
Luciano Ribeiro que acaba de ser reeleito, com 5080 votos
contra 953 não se mostra surpreso. Para ele, o ME
é tão contraditório quanto o próprio
espectro partidário do país. Quem poderia
imaginar que o PT estaria cogitando coligar-se com o PL na eleição
presidencial? Ou que PPS e PFL concorreriam juntos no Estado?
Ou ainda que PDT e PTB partissem para uma fusão?
Essa matéria continua:
- Boa arrecadação
e pouca combatividade
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