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Hipocrisias
necessárias
Luis
Fernando Verissimo
Muitos admiradores
do Desailly e do Zidane podem ter votado no Le Pen sem necessariamente
se acharem incoerentes.
Meu
trajeto para a Copa será mais exótico do que o da
Seleção. Estou em Paris, irei a Sydney (me convidaram
para um festival de escritores, aceitei ligeiro antes que descobrissem
o engano) e de lá para a Coréia, onde certamente
caminharei no teto durante alguns dias até me adaptar.
Quando chegamos a Paris, a mobilização nacional
ainda não era para a Copa, era para deter o Le Pen. Tratavam
de defender a república do seu inesperado sucesso no primeiro
turno das eleições presidenciais e corrigir o cochilo
cívico que favorecera a extrema direita. Centro-direita
e esquerda se uniram para dar 80% dos votos do segundo turno a
Chirac, que nem nos seus sonhos mais megalomaníacos chegou
tão perto de se sentir um De Gaulle reconvocado para salvar
a pátria. A reação ecumênica ao avanço
do fascismo xenófobo foi um belo espetáculo de amor
a valores democráticos, mas não foi exatamente um
belo exemplo de democracia. Le Pen tinha todo o direito de reclamar
da sua demonização, que incluiu o engajamento sem
disfarce de toda a grande imprensa na vitória de Chirac.
No segundo turno cuidou-se pouco de coisas como reciprocidade,
espaço e boa vontade iguais para os dois candidatos, direito
de resposta enfim, as formalidades. Afinal, estava-se preservando
a civilização francesa. Depois da contagem dos votos,
ficou no ar um sentimento de alívio e dever cumprido, mas
também um certo embaraço. As democracias estão
sujeitas a isso: sustos profiláticos e hipocrisias passageiras.
A vitória da seleção multirracial da França
em 1998 foi vista como uma vitória também sobre
as idéias de Le Pen. Seleções como a da França,
da Inglaterra e da Holanda, principalmente, demonstravam na prática
o proveito da imigração e da mistura racial. Mas
nos quatro anos desde 1998 o problema dos imigrantes e da sua
rejeição agravou-se numa Europa em crise econômica.
Derrotou todas as atenuantes sentimentais e apelos esportivos.
Na França, muitos admiradores do Desailly e do Zidane podem
ter votado no Le Pen sem necessariamente se acharem incoerentes.
A questão da imigração e do nacionalismo
racista é cada vez mais a questão política
dominante na Europa e é contra esse fundo degradado que
se tenta preservar a nobre idéia da integração
pelo futebol. Outra hipocrisia necessária.
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