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Cinqüenta
anos depois
Barbosa
Lessa*

É habitual
que uma turma formada pela universidade se reúna, lá um dia, para
comemorar a formatura. Mas acho raridade o que aconteceu com nossa
turminha de guris que terminou em 1944 o curso no Ginásio Gonzaga
- dos Irmãos Lassalistas, em Pelotas - e que inventou de se reencontrar
festivaente meio século depois. Trabalheira foi a do colega Scheidemandel,
residente em Porto Alegre, que realizou verdadeiro trabalho de
detetive para ir localizando Brasil afora o esconderijo dos ex-gonzagueanos.
Até que pôde noticiar, num cantinho dos jornais, o encontro dia
tal a tantas horas numa churrascaria tal, em Pelotas. Comemoração
dos 50 anos de “formatura”.
No dia marcado,
tomei o ônibus e fiquei feliz da vida. Eu ia tornar a abraçar
o Francisco Vidal, o Clair, o Cléo Severino, o Darcy, o Parobé,
toda aquela gurizada que eu nunca mais tinha visto. Que turma
unida, bah! A gente inventava de fazer um conjunto musical, e
estava feito. Ou editar um jornalzinho semanal. Ou fazer um campeonato
de futebol. Com excepcional companheirismo, era sucesso garantido.
Bons tempos,
aqueles. Os professores também colaboravam, e muito. O Irmão Agostinho,
professor de português, foi quem inventou uma pasta de gelatina
para podermos imprimir o jornal, à base de papel carbono, sem
os altos custos de uma tipografia. O Irmão Daniel, com um sorriso
nos lábios, fazia-nos suportar menos apavoradamente os problemas
da matemática. Todos eram bons amigos. Exceto o Irmão Celso que,
imbuído pelo exemplo do Mussolini lá na Itália e do Getúlio aqui
no Brasil, nos fazia comer o pão que o diabo amassou, com suas
manias de disciplina. Uma tarde, após as aulas, fez-me ficar na
“sala de castigo”escrevendo 300 vezes “não devo fazer”tal coisa,
que eu nem entendera bem por que é que estava errada. Minha mãe,
aflita, no outro dia foi ao Ginásio para saber o que é que eu
havia cometido e para indagar como podia ajudar na correção do
filho, e com a maior cara de pau o Irmão Celso disse que eu não
havia cometido nada de grave, mas sempre era bom aprender arespeitar
a autoridade. Mais tarde fiquei sabendo que ele havia abandonado
a batina, formara-se em Direito e exercia a advocacia em São Lourenço
do Sul. Com outro nome, é claro.
Cheguei à
churrascaria e me esparramei em abraços com toda a turma. Mas
eis que me deparo, ali mesmo, com o Irmão Celso. Quase abandonei
a festa e me toquei de volta para casa. Mas, embora contrafeito,
agüentei a desgradável presença. A certa altura, foi dada a palavra
a cada um, lado a lado, para que fizéssemos nossas saudações.
Até que chegou a vez do único professor presente...
- Não fui
convidado, mas li notícia no jornal. Como eu era professor, mais
velho que vocês, vocês devem achar que eu era um velho. Era, isto
sim, um rapazote. Ainda em formação. E vim aqui, hoje, somente
para pedir perdão, sinceramente, por algum mal que, inadvertidamente,
eu tenha causado. Por amor de Deus, me desculpem!
Senti lágrimas
nos olhos. E até nem faço nenhum comentário mais.
* Luiz Carlos
Barbosa Lessa é jornalista, historiador, folclorista e
escritor
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