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E o puslo ainda pulso

A hepatite pode matar. E se pega como Aids

Exclusividade de populações pobres

Pesquisa revela negligência

Vida melhor depois da vacina

Uma pontada e a doença

Meri Therezinha Lima de Azevedo tem 35 anos. Mãe de um menino de 9, mora em Porto Alegre e trabalha como empregada doméstica. Em outubro do ano passado, Meri foi vítima de uma “pontada de pneumonia”, não procurou médico porque não podia faltar ao serviço e foi se virando com xaropes caseiros. Mas a tosse não passava. Uma noite, em um acesso mais forte, ela expeliu sangue. Estava tuberculosa, mas não estava sozinha: só no Rio Grande do Sul, segundo dados oficiais, houve 5.154 novos casos da doença que aterrorizou as populações no início do século.

Só então Meri procurou ajuda, mas o drama estava apenas começando. Ela tentou atendimento duas vezes em um posto de saúde próximo à sua casa e não conseguiu ficha. Depois, na terceira vez, quando já estava desistindo de esperar, mais um acesso a fez tossir sangue novamente. Só aí Meri foi atendida. O diagnóstico oficial não deu outra: tuberculose. “Senti muito medo”, relata. Dois anos antes ela havia cuidado de um irmão com a mesma doença e sabia dos perigos porque iria passar. O medo tinha lá suas razões. Além de doentes e fragilizados fisicamente, Meri e outros portadores de tuberculose ainda têm de lidar com a reação das pessoas próximas a elas. Nesse caso, significa enfrentar, além da doença, o pânico, o preconceito e a indiferença dos outros. Ou seja, trabalho dobrado. Em janeiro deste ano, três meses depois dos primeiros sintomas, Meri recebeu uma caderneta de controle onde estão registrados os medicamentos fornecidos e o modo de uso. Está lá marcado: ela deve ir à Unidade Sanitária todo dia 24 para consultar com um especialista e fazer os exames de acompanhamento evolutivo. Nesse período, só houve melhora. Uma gastrite chegou a incomodar, por causa da medicação, mas já não é mais problema. Foi tratada no mesmo local, ganhando também os remédios.

Meri não tem dúvida. “As pessoas devem procurar recurso porque vale a pena. Demora, é verdade, mas vale a pena”. Ela continua trabalhando no mesmo local e está quase curada. “Estou super bem disposta. É bom vocês falarem nisso porque alerta as pessoas”, sorri.

A tuberculose é uma doença democrática, mas o círculo vicioso da vida sócio-econômica dos países do terceiro mundo deixa a população de baixa renda vulnerável, já que a transmissão ocorre pelo ar. Portanto, ambientes com pouca ventilação e muita gente são o protótipo do habitat do bacilo.

“O bacilo pode permanecer vivo em locais escuros e úmidos durante semanas”, ensina a coordenadora da divisão de Políticas de Controle da Tuberculose da SMS de Porto Alegre, Elaine Black Ceccon. Vale lembrar: o diagnóstico é fácil e depois de 15 dias de uso dos medicamentos o paciente não é mais transmissor. Merecem atenção especial aqueles que têm contato direto e prolongado com portadores de tuberculose pulmonar (o bacilo pode se alojar em qualquer órgão do corpo, mas a única tuberculose contagiosa é a pulmonar), principalmente os que moram na mesma casa. Se houver entre eles uma criança que não tenha recebido a vacina BCG, ela deve ser encaminhada imediatamente ao Setor de Tuberculose (ou Tisiologia) de uma unidade de saúde.

A vacina BCG em recém nascidos é fundamental, pois ela fornece proteção durante a infância e previne a meningite tuberculosa. “Ela até pode contrair a tuberculose, mas terá mais força para lutar”, insiste Elaine. Ela faz um apelo: “o tratamento é gratuito e não é necessário encaminhamento. Se sentir os sintomas, basta ir direto a uma unidade sanitária”.

César Espina, assessor técnico da divisão de Pneumologia Sanitária da Secretaria estadual de Saúde, garante que na maioria dos 467 municípios do estado há pelo menos uma unidade sanitária em condições de realizar o tratamento para tuberculose. Dificuldades só nas localidades com menos de 10 mil habitantes.

É bom ficar atento. Em 1998, 18% daqueles 5 mil casos não finalizaram o tratamento contra a tuberculose. Ou seja, continuam como transmissores potenciais da doença. Os principais sintomas são tosse e expectoração por mais de três semanas, perda de apetite, emagrecimento, dor no peito, suores noturnos, cansaço fácil e febre geralmente à tarde. O melhor tratamento é o sol, que destrói os bacilos em poucas horas.

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