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A Ford
queria a fábrica de graça
O
secretário estadual do Desenvolvimento e Assuntos Internacionais,
Zeca Moraes, conheceu o céu e o inferno nas recentes negociações
que empreendeu com as duas montadoras que têm contratos de instalação
assinados com o estado. No caso da GM, adaptou o acordo às possibilidades
do governo e saiu-se vitorioso. No caso da Ford, levou a culpa
de ter expurgado um investimento de R$ 1 bilhão que, segundo alguns
cálculos otimistas, poderia gerar 200 mil empregos no Rio Grande.
Nesta entrevista, Zeca acusa a Ford de intransigente, desdenha
das insinuações de que estava habilitado a negociar apenas com
camelôs e faz uma revelação: o custo da montadora com a renegociação
seria de apenas 10% do valor total do investimento. A seguir,
os principais trechos da conversa do secretário com o Extra Classe
Flávio
Ilha
Extra Classe
- Secretário, por que a Ford deixou o Rio Grande do Sul?
Zeca Moraes
- Devido à mudança na conjuntura econômica para as montadoras.
Há alguns anos, quando se iniciou o processo de corrida dessas
fábricas para se instalarem no Brasil, havia uma avaliação de
que no ano 2000 seriam comercializados no país algo como 3,5 milhões
a 4 milhões de veículos. Só que houve uma reversão brusca nessas
expectativas. Elas devem comercializar no máximo 1,2 milhão de
carros no ano que vem. Isso, evidentemente, alterou a estratégia
das empresas. Aquelas que estão com as fábricas prontas têm de
entrar imediatamente no mercado, mas a fábrica que não está nem
no alicerce pode perfeitamente retardar o seu processo de implantação
e buscar melhores condições. Foi o que a Ford fez.
EC - O
senhor quer dizer, com isso, que a empresa não saiu pela razão
alegada, ou seja, pela quebra no contrato, mas pela conjunt ura
econômica desfavorável?
ZM -
Sim, porque renegociar o contrato a Ford já havia renegociado
com o governo anterior. O contrato inicial previa que a empresa
buscaria R$ 700 milhões necessários ao investimento junto ao BNDES
(Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e que o
governo do estado pagaria a diferença dos juros que passassem
de 6% ao ano. A mudança da conjuntura econômica naquele período
(setembro de 1998, durante a crise russa) levou o governo do estado
a concluir que não podia manter a equalização porque os juros
haviam disparado e que, portanto, o contrato se tornaria demasiadamente
oneroso. Isso na avaliação do governo anterior. E, em função disso,
houve uma nova negociação em que o governo passou a emprestar
R$ 210 milhões de capital de giro e à Ford coube buscar o restante
(cerca de R$ 500 milhões) no BNDES sem a equalização dos juros.
Portanto, não havia na verdade porque não renegociar. É hábito.
E isso já havia sido feito uma vez.
EC - Isso
então foi usado como álibi para a Ford desistir de um investimento
que não era mais interessante do ponto de vista econômico?
ZM -
Na minha avaliação, a Ford só construirá uma nova fábrica no Brasil,
na conjuntura atual, se ganhá-la de presente do poder público.
EC - Como
o senhor reage às acusações de ser um mau negociador? De estar
acostumado, na prefeitura de Porto Alegre (onde foi secretário
da Indústria e Comércio) a tratar com camelôs?
ZM -
Reajo com tranqüilidade porque essas críticas seriam feitas a
qualquer pessoa que estivesse no papel que eu desempenhei no episódio.
Além de ser uma crítica preconceituosa, porque não há demérito
nenhum em negociar com camelôs. Como secretário durante quase
dez anos em Porto Alegre, negociei sim com ambulantes - que, aliás,
são uma escola muito interessante - mas também com comerciantes
estabelecidos, com os permissionários do Mercado Público, com
os empreendedores de shopping centers, com a Coca-cola. Estou
tranqüilo porque tenho clareza de que, nas críticas que me foram
feitas, havia a intenção apenas de enfraquecer a posição do governo
na negociação. Quanto mais enfraquecida estivesse a bancada do
governo, mais vantagens as empresas poderiam auferir no processo.
EC
- O que deu errado nas negociações com a Ford?
ZM -
Nada. Não houve negociação. No primeiro encontro com a Ford, o
negociador designado (Waldemar Mussi, diretor-jurídico da companhia)
já chegou dizendo que não estava autorizado e não tinha delegação
para conversar. Isso na primeira reunião. Ele estava autorizado
única e exclusivamente a escutar o que tínhamos a colocar. E a
cada proposta que apresentávamos não se instituía um diálogo em
relação ao contrato. Muito diferente da GM, em que havia apresentação
de propostas e argumentação e onde se preservou, de lado a lado,
o que foi considerado mais importante. Com a Ford não se estabeleceu
um efetivo processo de negociação. Ela foi intransigente ao exigir
a manutenção integral do contrato. EC - O que o governo ofereceu
de concreto à Ford? ZM - A proposta final, que até agora não recebeu
manifestação formal por parte da companhia, não contestava os
incentivos fiscais concedidos e propunha que o estado buscasse
junto ao governo federal e à prefeitura de Guaíba os recursos
(cerca de R$ 100 milhões) para viabilizar determinadas obras que
estavam sob responsabilidade estadual. Propomos até um financiamento
à prefeitura de Guaíba para viabilizar as obras, que seria pago
somente a partir do retorno obtido na arrecadação do município.
Tudo para viabilizar o investimento. O estado mantinha outros
R$ 70 milhões em recursos e mais R$ 85 milhões em obras, o que
dá R$ 255 milhões. Com mais R$ 75 milhões das obras no porto de
Rio Grande, o custo da Ford seria de R$ 110 milhões, que além
disso poderiam ser colocados no financiamento do BNDES. Isso é
10% do investimento total. As condições para um acordo estavam
dadas.
EC - Então,
por que o acordo não saiu?
ZM -
A Ford ganhou tempo e está procurando buscar condições ainda mais
vantajosas que o Rio Grande do Sul ofereceu. Se ganhar a fábrica
de graça, se instala. EC - O senhor tem ojeriza a empresários?
ZM (rindo) - Tenho relações pessoais com um conjunto bem razoável
de empresários. O que se tentou, nesse episódio, foi estigmatizar
os negociadores do governo, fossem eles quem fossem. Tenho tido
vários contatos muito produtivos com empresários. É que uma parte
do setor produtivo, na verdade, não reconhece esse governo como
seu, de empresários. O tratamento, no nosso ponto de vista, está
sendo respeitoso. Mantém o mesmo espaço de consideração que ao
conjunto da sociedade e isso talvez cause estranheza na medida
em que muitos estavam acostumados a governos seus, constituídos
por empresários ou por seus representantes, pessoas vinculadas
fundamentalmente ao interesse empresarial. Este governo tem interesse
no desenvolvimento do conjunto do estado e na melhoria da qualidade
de vida do conjunto da sua população. Isso pode significar contrair
interesses.
EC - Com
que conseqüências?
ZM -
Na realidade, nosso objetivo é uma sociedade mais justa e adequada
à população gaúcha no seu conjunto.
Continua
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