|
Baixar
juros para recuperar o Brasil
Henrique
Fontana*
A situação
é grave. Estamos na fase em que a euforia do mercado financeiro
globalizado está sendo tragada pelas constantes crises financeiras
e onde o capital busca modalidades de aplicação mais seguras.
O governo brasileiro divulgou com empenho a falsa notícia de que
a crise não atingiria o Brasil, que tinha uma moeda “forte” e
uma economia “estabilizada”.
Quando eclodiu
a crise mexicana, em 1994, os governantes diziam que o problema
seria contornado em um ano. No entanto, o México, que seguiu fielmente
as orientações do FMI (Fundo Monetário Internacional), quebrou.
Em agosto de 1997 veio a crise asiática, com efeitos ainda mais
devastadores. Menos de um ano depois, a economia russa ia à bancarrota.
Portanto,
a realidade contrapõe o discursos sofista dos porta-vozes do governo.
Existe um componente cíclico na dinâmica da globalização financeira
- as crises se sucedem e vão-se tornando cada vez mais intensas
e difíceis de contornar. A liberalização do mercado financeiro
é um foco gerador de incertezas capazes de abalar as economias
de países periféricos.
E o Brasil,
que adotou o receituário neoliberal, tornando-se dependente desta
lógica, está agora no olho do furacão, sofrendo todas as conseqüências
de uma política equivocada e suicida.
O real foi
concebido a partir de três mecanismos explosivos para qualquer
economia: a manutenção de uma taxa de câmbio sobrevalorizada artificialmente,
a abertura desenfreada ao comércio internacional e a fixação de
taxas de juros estratosféricas. Através desse tripé, o governo
queria conter a elevação dos preços, a demanda interna e atrair
capital externo para financiar os rombos que certamente viriam.
A balança
comercial brasileira, que tinha um superávit de US$ 10 bilhões
em 1994, passou a um déficit de US$ 5,3 bilhões em 1998. O estoque
da dívida interna, que era de R$ 61 bilhões, já passa de R$ 320
bilhões e o presidente Fernando Henrique Cardoso, eterno otimista,
dizia que tudo estava sob controle (pelo menos até sua reeleição).
Os gastos do setor público com juros e correção sobre dívida,
antes estimados em 7,3% do Produto Interno Bruto (PIB), deverão
chegar a 13,44% segundo estimativas do Departamento Econômico
do Banco Central (BC). É outro recorde que levanta dúvidas sobre
a capacidade do país em honrar suas obrigações a curto prazo.
Diante disso,
não é difícil entender porque a agência de avaliação de riscos
Moody's rebaixou o Brasil para uma classificação igual à do Paraguai,
Nicarágua e Venezuela e porque os investidores estrangeiros estão
resgatando suas aplicações no Brasil: não há confiança de que
a economia brasileira consiga ir muito longe com indicadores econômicos
tão deteriorados.
O trágico
é que o governo adota medidas que aprofundam a submissão e dependência
brasileira ao capital especulativo - aumenta as taxas de juros
para níveis lunares esperando com isso atrair esse capital. Dessa
forma, fica mantida a velha e conhecida tática de ampliar artificialmente
os ganhos da especulação às custas de maior desemprego. O governo
aplicou sua política econômica como se fosse o remédio para todos
os males, mas apenas levou a uma crise ainda mais grave. Agora,
tenta nos convencer que para sairmos dela é pre-ciso dobrar a
dose do mesmo remédio.
Retornamos
à nossa triste posição de campeões mundiais da usura, praticando
uma taxa de juros real de 23% ao ano. É uma patamar que não pode
se sustentar em médio prazo, sob pena de completa destruição do
setor produtivo nacional. O que faz crescer sem parar o nosso
déficit público é a elevação irracional da taxa de juros, que
só beneficia os capitais especulativos. Cada 1% que sobe na taxa
de juros significa mais R$ 2 bilhões de gastos anuais para o Brasil
e menos recursos para políticas sociais.
Para alterar
esse processo econômico perverso, não há outra alternativa a não
ser romper com a lógica deste modelo econômico, tão incentivado
pelo FMI.
*Henrique
Fontana é médico e deputado federal pelo PT gaúcho
|