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Que
realidade que nada!
Luiz Carlos
Barbosa
Equívoco
comum - além da idéia de bibliotecas desatualizadas - é dizer
que os jovens lêem pouco porque a literatura não têm a ver com
a realidade deles. A questão é falsa. Não é o grau de conexão
entre a literatura e a realidade que estimula a leitura. Ao contrário,
é a surpresa, a apreensão do real pela perspectiva não prosaica.
Além disso, a realidade em literatura, necessariamente, é mediada
pela escritura, pela abundância de imagens e pelo amplo repertório
de elementos humanos - aliás, critérios de qualidade e universalidade.
Se não for assim, nem é literatura. Feitas estas considerações,
aos fatos.
Nem
tudo está perdido
Na mesma tarde
em que recebia “Uivo, Kaddish e outros poemas”, do beat Allen
Ginsberg, um rapaz de uns 20 e poucos anos saia da Livraria Aurora
folheando o livro. Poesia inconformada na mão de jovem é sempre
alento. Ainda mais nestes tempos em que a cultura da contracultura
virou chatice: coisa de velhos melancólicos. É de supor que o
paradigma de que uma polpuda conta bancária dá mais liberdade
do que pôr o pé na estrada ainda não venceu completamente. Está
certo que a produção da geração beat foi totalmente incorporada
à indústria cultural e a rebeldia virou grife de mercado. Mas
o relançamento da L & PM - revisado e atualizado pelo mesmo tradutor
da edição que a editora fez em 1984, Cláudio Willer - é perfeito
para cativar novos leitores. Willer comenta e anota a obra, oferecendo
ao público um conjunto de referências para entender não só as
matrizes temáticas e estéticas da criação de Ginsberg, mas o contexto
histórico que permitiu a gestação da geração beat e de seus protagonistas,
como William Burroughs e Jack Kerouac. No mínimo, a rapaziada
de hoje fica sabendo que nem sempre o mundo foi feito de certezas
tolas. E os sessentões ou quarentões que pegaram carona nas estradas
poeirentas e se embriagaram nas calçadas molhadas se dão conta
que nem tudo está perdido.
Positivismo
no pampa
Já está em
segunda edição o mais recente trabalho do professor e historiador
Décio Freitas. Também pudera. “O homem que inventou a ditaduta
no Brasil” é texto histórico para ler com o prazer de romance.
O aspecto metalíngüístico da obra talvez tenha sido inspirado
pelo Umberto Eco de “O nome da Rosa”. A estrutura narrativa empregada
se baseia nos diários de um tal jornalista norte-americano A.
Bierce. Ele esteve pelos pampas cobrindo uma das mais sangrentas
guerras civis do Brasil que, entre 1893 e 1895, opôs os republicanos
positivistas de Júlio de Castilhos e os federalistas de Gaspar
Silveira Martins. Décio Freitas suspeita ser o mesmo Ambroise
Bierce, o escritor e jornalista nascido em Ohio que cobriu a guerra
civil nos Estados Unidos e desapareceu depois de se incorporar
às brigadas de Pancho Villa, na guerra civil espanhola, inspirando
o romance “Gringo Viejo” de Carlos Fuentes. A combinação de literatura
e história em “O homem...” tem um resultado excelente para ambas
e se constitui em mais uma revisão crítica da historiografia oficial,
que desmitifica os ídolos e a própria isenção dos historiadores.
Esta reflexão sobre o positivismo no pampa demonstra que a doutrina
de Comte empregada na política rio-grandense fez escola no país.
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