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Coração
de crente
Nei Lisboa*
Ele mal passou
pela terceira rodada, até o dia em que escrevo, mas um
coração de crente não tem espaço para dúvidas ou duplas faltas.
E, sim, eu fui convertido, tenho os olhos marejados de fé, a inabalável
fé dos que conhecem a Verdade. No caso, a verdade de que o Guga
há de ser novamente campeão, há de nos redimir como o mais carismático
e sensacional primeiro tenista do ranking em todos os tempos.
Não estou exagerando.
Não estou
arriscando um palpite. Ok, você já conhece os resultados e está
rolando de rir porque ele tomou três a zero de um marroquino chamado
Chutek Furadok? Não importa. Eu não disse que seria em Roland
Garros. Nem disse que seria neste ano. Pode ser em 2002, pode
ser ao som das trombetas do Juízo Final. Mas está escrito. Eu
sei, eu vi. Desde agora, mesmo os mais céticos podem gozar a simples
possibilidade, a mera ameaça de que um simpático e assumido mané,
com estilo de jogo tão solto e empolgante, chegue ao topo em um
esporte tradicionalmente empertigado como o tênis. E bota ameaça
nisso. Desde o início do ano, o Guga está jogando demais. Quem
acompanhou os torneios de Monte Carlo e de Roma, o tanto que as
tevês deixaram, sabe do que eu estou falando: aces fantásticos,
passadas e contrapés arrasadores, forehands, backhands, porradas-hands
e deixadinhas de arrepiar. Confiança e superação à prova de qualquer
cansaço, de cara feia e da torcida feminina do Rafter. Técnica,
garra, humildade, fairplay e, como se não bastasse, uma comovente
homenagem ao Falcão em italiano de luxuoso sotaque caipira. Dou
prazo até 2005. Se eu estiver errado, bem, então é a justiça divina
que precisa de uma CPI.
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Já que enveredei
pelo esporte da previsão do esporte, posso anunciar também (a
goleada sobre o Juventude você já viu) que um ciclone intertropical
alcançará o Maracanã nos minutos finais de Botafogo x Palmeiras,
impedindo o Euler e o Paulo Nunes de perpretarem a manjada falcatrua
da Parmalat. Com isso, Inter 4x0 Botafogo na decisão da Copa do
Brasil passará para a história do futebol e da Teologia como a
“final do milagre”. Todos os gols do Christian, nessa ordem: de
pé direito, pé esquerdo, de cabeça e o último de boca e respeito,
mandando a bola entrar, ao que ela obedecerá ligeirinho com medo
de atiçar a ira dos deuses. A partir daí, o especial de Natal
da Globo passa a se chamar “Jesus Christian: ele já está entre
nós e vai permanecer no Inter”. Mas isso já é outro delírio.
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Pra fechar
com tênis e utilidade pública: alguém precisa avisar os comentaristas
da ESPN de que o telespectador se contentaria com aulas sobre
o esporte oferecidas antes, nos intervalos e ao final de cada
jogo. Durante, a gente quer mesmo é ver o Jesus Kuerten jogar.
*Nei Lisboa
é cantor e compositor
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