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Estatísticas
e Estatísticas
Cássio
Calvete*
Como
é notório, um dos maiores problemas do Brasil na atualidade é
o desemprego. Desemprego este causado em grande parte pela política
econômica adotada pelo governo federal, que visa principalmente
o combate à inflação. As elevadas taxas de juros e demais políticas
recessivas trazem como conseqüências as taxas de desemprego.
No
Brasil são divulgadas mensalmente duas estatísticas referentes
ao mercado de trabalho. A Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED)
realizada pelo Dieese (em conjunto com o Seade) e a Pesquisa Mensal
de Emprego (PME) do IBGE. Como pode-se perceber nas tabelas 1
e 2, a PED registra taxas duas vezes maiores que a PME.
Pela
metodologia utilizada pelo Dieese para medir a taxa de desemprego,
ela atingiu índices recordes no mês de março deste ano. Neste
contexto de taxas recordes de desemprego é importante descrever
o verdadeiro significado implícito na adoção de uma determinada
metodologia para medição do desemprego. No quadro 1 podem-se ver
as diferenças metodológicas existentes entre as duas pesquisas
(ao lado).
Apesar
do grande número de diferenças existentes entre as duas pesquisas,
é importante destacar que a diferença responsável pelo enorme
distanciamento entre as taxas de desemprego divulgadas pelas instituições
é derivada principalmente da própria definição de desemprego que
é utilizada. Enquanto para a PED o desemprego total divulgado
é o somatório do desemprego aberto, do desemprego oculto por trabalho
precário e do desemprego oculto por desalento, para a PME a taxa
de desemprego divulgada refere-se apenas ao desemprego aberto.
A
questão relevante a ser discutida é: será possível desconsiderar
o desemprego oculto, visto que é praticamente impossível para
grande parte dos desempregados ficar apenas procurando emprego
sem intercalarem isso com a realização de algum “bico” para garantir
a sobrevivência?
A
adoção de uma pesquisa como referência para descrever a situação
do mercado de trabalho de um país revela a postura política e
ideológica de quem a faz. Apesar de aparentar apenas uma escolha
por determinado método, a opção de um ou outro índice determina
as estratégias e políticas de combate ao desemprego.
O
governo federal utiliza como referência da situação do mercado
de trabalho a pesquisa do IBGE (PME) que revela um número de desempregados
na faixa de 8% da PEA. Desta forma, assume-se implicitamente que
o problema do desemprego no Brasil não é tão grave e pode ser
combatido com ações restritas ao mercado de trabalho. Isto explica
por que nos últimos anos as políticas de emprego se restringiram
a ações diretas sobre o mercado de trabalho: flexibilização, qualificação
e intermediação da mão-de-obra. Políticas passivas de emprego,
que pressupõem que há vagas disponíveis; apenas os trabalhadores
ainda não as acharam ou não têm qualificação para ocupá-las.
Em
contraste, aquelas pessoas que fazem análise econômica tendo como
referência as taxas de desemprego da PED conseguem perceber que
a solução do problema do desemprego não pode ficar restrita a
ações apenas sobre o mercado de trabalho. A taxa próxima de 20%
revela que o desemprego tem contornos estruturais e deve ser combatido
com políticas de maior alcance, atacando não só os problemas conjunturais.
O combate ao desemprego deve valer-se de políticas macroeconômicas
visando o crescimento; de políticas sociais que, por se efetivarem
com prestação de serviço (saúde, educação, segurança etc), são
excelentes fontes de geração de postos de trabalho; reforma agrária
para evitar o êxodo rural e criar novas oportunidades nas pequenas
cidades do interior; e com distribuição de renda, para integrar
novas famílias ao mercado consumidor.
Urge
que o governo federal modifique sua política recessiva e dependente
do capital especulativo internacional. Só com medidas que privilegiem
o setor produtivo nacional é que será possível reverter o quadro
de desemprego.
|
Tabela
1 - Taxas de desemprego para o 1º semestre de 1998
|
|
bb
|
Janeiro
|
Fevereiro
|
Março
|
|
bb
|
PED
|
PME
|
PED
|
PME
|
PED
|
PME
|
|
Porto
Alegre
|
13,0
|
5,9
|
13,7
|
6,9
|
14,5
|
7,9
|
|
São
Paulo
|
16,6
|
8,5
|
17,2
|
8,8
|
18,1
|
8,9
|
|
Tabela
2 - Taxas de desemprego para o 1º semestre de 1999
|
|
bb
|
Janeiro
|
Fevereiro
|
Março
|
|
bb
|
PED
|
PME
|
PED
|
PME
|
PED
|
PME
|
|
Porto
Alegre
|
17,2
|
5,7
|
17,2
|
7,4
|
18,6
|
8,1
|
|
São
Paulo
|
17,8
|
9,2
|
18,7
|
8,4
|
19,9
|
8,9
|
|
Quadro
1 - Principais diferenças entre a PED e PME
|
| Situação
do Indivíduo |
Classificação
PED |
Classificação
PME |
|
Não
Trabalhou e Procurou trabalho na semana
|
Desemprego
abreto |
Desemprego
abreto |
| Sem
trabalho e procura na semana, mas com procura de trabalho
nos últimos 30 dias |
Desemprego
abreto |
Inativo |
| Sem
trabalho na semana sem procura nos últimos 30 dias,
mas com procura nos últimos 12 meses |
Desemprego
oculto pelo desalento |
Inativo |
| Com
procura de trabalho combinada à realização
de trabalho irregular nos últimos 30 dias |
Desemprego
oculto pelo trabalho precário |
Ocupado,
se trabalhou na semana ou inativo, se não trabalhou
na semana |
| Sem
procura de trabalho nos últimos 30 dias, com procura
nos últimos 12 meses e realização simultânea
de trabalho irregular, inclusive nos últimos 30 dias |
Desemprego
oculto pelo trabalho precário |
Ocupado,
se trabalhou na semana ou inativo, se não trabalhou
na semana |
| Com
trabalho exercido em caráter exepcional nos últimos
30 dias e sem procura de trabalho |
Inativo
com trabalho exepcional |
Ocupado,
se trabalhou na semana ou inativo, se não trabalhou
na semana |
| Com
trabalho não remunerado de ajuda a negócios
de parentes na semana e sem procura de trabalho |
Ocupado |
Ocupado,
se trabalhou 15 horas ou mais na semana, e inativo, se a jornada
foi inferior |
| Com
trabalho não remunerado em organizações
beneficientes na semana e sem procura de trabalho |
Inativo |
Ocupado |
| Não
trabalhou na semana porque está "encostado no
caixa" há mais de 15 dias |
Inativo |
Ocupado |
| Crianças
de 10 a 14 anos |
Inativas,
ocupadas ou desempregadas segundo exercício e/ou procura
de trabalho |
Excluídas
da PIA |
*
Cássio Calvete é economista do Dieese
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