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Preocupações
Sinto
um misto de revolta e inveja quando ouço alguém dizer que está
sem nada para ler. Com a cabeceira entulhada de livros que só
terminarei de ler com 217 anos, se a luz for suficientemente forte,
e já convencido de que nunca cumprirei meu modesto projeto de
vida que é saber tudo sobre tudo, me sinto ofendido com a queixa
insensata. Da próxima vez que um folgado me pedir uma sugestão
de leitura, pretendo produzir uma fita bobinada com os títulos
de mil livros que ainda não li, de A de Amis a Z de Zweig, e atirar
na sua cabeça. O tempo para ler, como a renda, deveria ser melhor
distribuído no mundo. A revolta é a mesma com as pessoas despreocupadas.
Aqueles inconscientes que, quando você pergunta como vai a vida,
respondem “Maravilha!”. Como, “Maravilha!”? Nem banqueiro brasileiro
tem o direito de dizer “Maravilha”. Se o que falta a esse contentes
inexplicáveis é preocupações, eu tenho várias para fornecer. Ninguém
diga na minha frente que está sem nada para se preocupar.
Confesso,
até, uma certa volúpia por preocupação. Faço coleção de angústia
e tenho algumas raridades. Você sabia, por exemplo, que além dos
outros incômodos que vai causar o bug do milênio, a reversão dos
relógios digitais para 00 pode provocar o disparo de foguetes
intercontinentais com ogivas nucleares, e o réveillon com fogos
de artifício definitivo da História, ou o meltdown de usinas nucleares
e a contaminação radioativa de literalmente todo o mundo? O ano
2000 vai começar no Oriente, de modo que, se o bug acionar mesmo
os foguetes, os primeiros serão disparados da China e da Rússia
em direção aos Estados Unidos, que pode achar prudente não esperar
até a meia-noite para abrir os champanhas e disparar os seus.
Existem 36 mil armas nucleares estocadas e 432 reatores nucleares
em funcionamento no planeta. A contagem regressiva para o ano
2000 pode muito bem ser uma das últimas atividades humanas sobre
a Terra até que as amebas resolvam começar tudo de novo. E faltam
220 dias para o fim do ano.
Espero sinceramente
ter tirado o seu sono, pelo menos para esta noite. E que você
tenha alguma coisa para ler.
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Estão dando
pouca importância a um trecho da conversa gravada entre o presidente
da República e o então presidente do BNDES sobre a privatização
das telefônicas cujo efeito colateral pode ser tão danoso, em
termos diplomáticos, quanto o bombardeio da embaixada da China
em Belgrado pela Otan. Refiro-me ao trecho em que André Lara Rezende
conta ao presidente que um grupo português poderia participar
do leilão no lado preferido do Governo, e que o consórcio português
até já teria um nome, Por Com Norte Nordeste.
“FHC - Sei. (Gargalhadas.)
André - (Risos.) Então, quer dizer, é aquela coisa, né? ‘O
filho que era mãe.’ (Gargalhadas.)
FHC - (Gargalhadas.)”
Consta que
o trecho é maior, e que o que os jornais não publicaram por falta
de espaço seria assim:
“André - (Gargalhadas.)
FHC - (Risos.)
André - (Gargalhadas incontroláveis.)
FHC - (Risos. Depois gargalhadas.)
André - Ai meu Deus! Ai meu Deus! (Gargalhadas.)
FHC - Eu... (Gargalhadas.) Eu... (Gargalhadas.) Eu não
agüento! (Riso convulsivo.)
André - Por Com Norte Nordeste! (Gargalhadas.)
FHC - Pára, André, pára! (Gargalhadas.)”
Portugal é
um país amigo, ao qual nos ligam laços culturais e comerciais,
e é lamentável que altas autoridades brasileiras, mesmo informalmente,
recorram a estereótipos comprovadamente injustos desta natureza,
inclusive repetindo falsidades infamantes como a que o título
do filme “Psicose” em Portugal era “O filho que era a mãe”, ou
“Titanic” se chamava “E a rapariga boiou...”. Mesmo porque o negócio
de que tratavam as duas autoridades quando fizeram as tais alusões
pejorativas foi tão confuso, ingênuo e errado - o Governo financiou
a privatização de uma empresa que agora vai comprar de volta,
estatizando-a de novo - que parece coisa de português.
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