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Brasil, 14
mil anos
Barbosa
Lessa
Moro no meio
do mato, no interior de Camaquã, e é crescente o número de pessoas
que aqui aparecem com a desculpa de me fazer uma visita mas, na
verdade, tentando comprovar se é mesmo possível um civilizado
viver longe dos maravilhosos agitos da modernidade urbana. Outros
visitantes têm objetivo diverso. O professor Henrique Fensterseifer
chegou com alguns colegas geólogos e botânicos da Unisinos e simplesmente
pediu para ficar por dois ou três dias farejando a natureza. A
moçada da casa do Poeta Camaqüense costuma aparecer em busca de
inspiração para novos poemas. E recebo a todos com naturalidade.
Mas, há duas
semanas, fiquei sem saber o que fazer com um desconhecido, o senhor
Jecupé. Morenão, aparentando seus 35 anos, desembaraçado e bem
falante. Reside na cidade de São Paulo, onde esteve trabalhando
como consultor de costumes na equipe da novela A Muralha. Mas
pouco pára na capital paulista. Começou pronunciando conferência
na Universidade de Oxford, Inglaterra, em 1996, e na Universidade
de Stanford, Estados Unidos, em 1997, e de lá para cá, sob patrocínio
da Fundação Odebrecht, tem percorrido infatigavelmente o Brasil
numa empolgante jornada de resgate e valorização da cultura indígena.
Lançado pela Editora Fundação Peirópolis, SP, já está em 2a edição
seu A Terra dos Mil Povos – história indígena brasileira contada
por um índio. Sim, ele é índio puro, da etnia Txucarramae. Seu
nome completo: Kaka Werá Jecupé.
Ele não pôde
se demorar no meu sítio, pois já tinha horário determinado para
sua conferência no Teatro Coliseu, na cidade, e em seguida teria
de retornar a São Paulo, para terminar a produção de um vídeo
sobre as expectativas dos jovens índios em relação ao futuro do
Brasil: A Carta do Caminho. Lá se foi ele, deixando-me trancada
na garganta a pergunta que desde o começo eu queria lhe fazer:
se conhecia, ao menos de nome, o senhor Nordwall.
Adam Nordwall,
pertencente à tribo norte-americana dos Chippewa, em 1973 vivia
nas imediações de São Francisco e já vinha tonto
com o assédio de
catequistas e outros porta-vozes da “verdadeira civilização”,
inconformados com sua convicção de amar a natureza como um bem
maior da humanidade. Nordwall também resistia à idéia de que em
1492 Cristóvão Colombo houvesse “descoberto” a América, ignorando
civilizações locais com milhares de anos e teimando em considerar
índios como uns pobres animais selvagens. Então, em setembro de
1973 – num passado relativamente recente – tomou um avião em São
Francisco e, com cocar de índio e o que mais pudesse caracterizá-lo
como autêntico americano, foi desembarcar em Roma. Para a imprensa,
que acorreu ao aeroporto semi-escandalizada, declarou: “Vim descobrir
a Europa, para que vocês passem a respeitar o que nossos ancestrais
nos legaram com tanta nobreza”.
Pois o que
eu queria dizer ao senhor Kaka Werá Jecupé é que ele não canse
sua beleza com um mundo de eventinhos sem maior repercussão e
que, com patrocínio da Odebrecht e de empresas para as quais já
produziu workshops, como a Sadia e a Xerox, vá direto descobrir
Portugal, numa retribuição à homenagem a Porto Seguro pelos 500
anos. Se gritar, em Lisboa, que temos no mínimo 14 mil anos de
respeitável resistência – comprovados pelos mais abalizados arqueólogos,
o mundo inteiro ouvirá e vai baixar a bola. Mas que planeje tudo
direitinho. Inclusive com um desfile de modas onde possa lançar,
para este verão europeu que está se aproximando, algo mais sensacional
que o top-less: o tetenandí, corpo pelado.
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