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Ilustrações:
Ricardo Machado
Como um cruzado
no queixo
Pablo
Rocca
Professor da Universidad de la República
(Montevideo)
Sem nostalgia,
desconforme, utópico, reformador radical, coerente com o projeto
moderno, Roberto Arlt chegou aos tempos em que as utopias estão
em julgamento, ao futuro pós-moderno que homenageia os cem anos
de seu nascimento.
Se diz de
mim que escre vo mal - declara al- guém na efervescente Buenos
Aires de 1931. É possível. De
qualquer forma, não teria dificuldade em citar muitas pessoas
que escrevem bem e que são lidos unicamente pelos certinhos de
sua família. Depois de outras provocações do mesmo tipo, conclui:
“O futuro é nosso, por arrogância de trabalho. Criaremos nossa
literatura, não conversando continuamente de literatura, ao contrário;
escrevendo em orgulhosa solidão livros que tenham a violência
de um cruzado no queixo”. Talvez poucos textos como este mostrem
o gênio e a figura do argentino Robert Alt(1900-1942),filho de
pai alemão e mãe austríaca, criado em bairros populares onde não
passou de uma educação formal básica. E onde, desde muito cedo,
exerceu incontáveis e modestos trabalhos, até conseguir viver
do jornalismo e da literatura ao mesmo tempo em que acalentava
outra singular vocação paralela e, em grande medida, complementar:
a de inventor.
Para converter-se
em escritor, essa vocação que vê surgir na infância, Beatriz Sarlo
tem observado que “Arlt usou tudo que foi possível juntar nesse
seu aprendizado custoso: o folhetim, as traduções espanholas dos
autores russos, a novela sentimental(....) entravam nesse processo
de antropofagia e deformação, de aperfeiçoamento e de paródia
que é a escrita arltiana, mas que tem também outros conhecimentos,
os conhecimentos técnicos aprendidos e exercidos pelos setores
populares; os conhecimentos marginais que circulam no underground
espiritista,ocultista, mesmerista, hipnótico, da grande cidade”.
Embora na
literatura de Arlt não exista uma “representação realista” da
sociedade do seu tempo, é na sua própria escrita que o entorno
marginal urbano se transforma num autêntico laboratório criativo.
Nele se experimenta a mistura heteróclita de materiais estéticos
de diversas feições, aos que se absorvem de maneira caótica e
original. Trata-se dos ensinamentos da vanguarda(em particular
do expressionismo), da reeducação paródica da literatura sentimental,
da literatura popular de aventuras, da crônica policial, de alguns
recursos do fantástico.

Talvez todos
estes elementos se mostrem com maior riqueza e capacidade de sedução
em suas novelas, mas nos contos argentinos que reuniu em O Corcundinha
(1933) e em outros espalhados em revistas, pode-se perceber a
mistura criativa que o diferencia dos modelos publicados na narrativa
rio-platense da sua época. Está longe da representação nostálgica
do mundo rural já assumida desde uma perspectiva naturalista (como
nas novelas de Manuel Gálvez ou de Carlos Reyles), já sob novas
estratégias formais (como na novela Dom Segundo Sombra, de Ricardo
Guiraldes); talvez esteja mais próximo dos poucos na floresta
que representou Horacio Quiroga em seus contos de Os Desterrados;
nada o aproxima da literatura regional de inspiração metafísica
que se registra nos contos de Francisco Espinola, em Raça Cega.
Os três exemplos antes citados nos remetem a livros aparecidos
em 1926, o mesmo ano do Juguete Rabioso. Arlt também se afasta
das ficcões da beirada portenha, como aparece nos primeiros contos
de Jorge Luis Borges (Homen da esquina cor de rosa) e do realismo
proletário de um Elias Castelnuovo ou um Leónidas Barletta; as
ficcões de Arlt, por último, não têm conexões num sentido forte
com a literatura antirealista dos argentinos Macedonio Fernandez
e Santiago Davobe ou do uruguaio Felisberto Hernandez.
Outro problema
propõem as história que reuniu no volume o Criador de Gorilas
(1941). Com elas, Arlt dá um repentino giro, pois passa da modernizada
Buenos Aires, com seus seres extravagantes e sua linguagem peculiar,
para as “primitivas” atmosferas da África muçulmana. Sobre esses
relatos têm se dividido as opinoes críticas: Júlio Cortázar, por
exemplo, propõe que neste livro “se chega ao paradoxo de uma escrita
praticamente livre de defeitos formais, mas ao serviço de medíocres
contos exóticos, nascidos de um tardio e deslumbrado conhecimento
de outras regiões do mundo, e que, a não ser por uma ou outro
passagem, não tem a atmosfera que é o estilo profundo da sua melhor
obra”. Ao contrário, na sua econômica introdução dos contos completos,
Ricardo Piglia afirma que estos contos africanos são um dos pontos
mais altos da literatura argentina.
Piglia não
desenvolve a sua entusiasmada opinião, enquanto que
Cotázar nos adverte que com esta série de contos se coloca a questão
dos “defeitos formais”. Porque além das imperícias lingüísticas
ou de composição que Arlt comete, motivado pela sua insuficiente
formação acadêmica, os textos em que tinha se proposto reproduzir
alguns aspectos do clima e da fala portenha obrigaram a estabelecer
uma ruptura radical que “contaminou” positivamente a sintaxe de
sua narração. Este corte se deve ao emprego de termos coloquias,
que incorporou a seu discurso com audácia e completa naturalidade,
mas também por causa da crua violência das situações representadas
e o exercício de uma ironia que não se amedronta perante situações
de extrema crueldade que aparecem com freqüência nos contos O
Corcundinha, Ester Primavera ou As Feras.
Situado em
espaço alheio às tensões de sua Buenos Aires, os contos africanos
de Arlt questionam a fundo o realismo de costume. Muda de ambiente,
de personagens, conseqüentemente é obrigado a se desfazer das
mudanças populares da fala portenha. Então se coloca mais uma
vez à prova, já que aceita o desafio maior de inventar histórias
remotas a seu meio e formação afim de sondar a natureza humana
a partir de suas obsessões fundamentais: o poder e a violência.
Alguns contos desta série africana, como Exército de Artilharia
e Lembra-te de Azerbaijan, mostran a luta pela imposição egoísta,
o desejo de acumular riquezas a qualquer preço, a vingança e a
morte. Em suma, se a cidade cosmopolita, que a passos apressados
se incorpora ao capitalismo moderno, acolhe e reproduz situações
deste tipo, a sociedade de relações econômicas quase medievais
não fica de fora do processo. Neste sentido, teria que revisar
a oposição entre cidade e natureza que Sarlo identifica na obra
anterior a Viagem pelo Norte da África. Porque este mundo que
se encontra num estado mais próximo à natureza também concorda
com a brutalidade e o crime, a ousadia e a loucura, muito mais
ainda quando é infiltrado pelo mau cheiro do dinheiro.
No
começo de “As Feras”, o narrador-protagonista confessa a um interlocutor
imaginário: “Difícil é explicar-te como fui afundando-me dia após
dia”. Cabe ao leitor encontrar o fio dessas trevas na condição
humana tão pródiga em possibilidades de mesquinharia, conforme
opina uma personagem feminina do conto A Mola Secreta. É verdade
que as propostas de este argentino são, na verdade, similares
e diferentes àquelas que desde uma ótica cristã tinham ensaiado
Andreiev y Dostoievski ou as que, na mesma época, estava criando
o endemoniado Celine. Percorrer a obra de Arlt, este contemporâneo
nosso que nasceu faz um século exato, significa uma espécie de
“viagem ao coração da noite humana”, uma experiência fundamental,
porém, tanto mais dolorosa quanto um cruzado no queixo.
* Professor
da Universidad de la República (Montevideo).
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