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De volta para
o futuro
Depois
de A Era dos Extremos, o Novo Século. O historiador marxista Eric
Hobsbawn já se volta para o futuro prescrutando o que nos espera
diante da hegemonia das políticas globalizantes, do enfraquecimento
dos estados nacionais, do ressurgimentos dos conflitos étnicos.
E não como profeta ou oráculo, mas como cientista que tem o dever
de expandir seus conhecimentos ao limite da previsibilidade. Hobsbawn,
nesse sentido, não tem medo de expor o profundo conhecimento que
tem de política, economia e sociedade, dos movimentos humanos.
Entrevistado
pelo jornalista italiano Antonio Polito, Hobsbawn discorre com
a mesma naturalidade tanto sobre guerra quanto sobre ecologia.
Sobre a guerra, a certeza de que persistirão os conflitos regionais
adicionados de tecnologia, o que permitirá uma destruição muito
mais precisa e seletiva. O historiador salienta dois aspectos
– um positivo e outro nem tanto – nessa conclusão: o primeiro
deles é que se resgata, historicamente, uma característica praticamente
desaparecida neste século de separar populações civis de alvos
militares.; mas, por outro lado, instiga a que os donos do poder
– de posse desta habilidade – fiquem tentados a resolver questões
geopolíticas apenas com bombardeios. É essa a dimensão da análise
de Hobsbawn: crítica, lúcida, sem maniqueísmos. Sobre meio ambiente,
ele destaca, por exemplo, o risco de que uma superpopulação venha
a esgotar – em menos de 50 anos – recursos naturais não-renováveis,
ou, pelo menos, de difícil renovação, como a água. E diz, não
sem certa perplexidade: “Nem mesmo em sonho seria possível prever
que iríamos acabar com os peixes do mar do Norte. No entanto,
foi isso que ocorreu. Atualmente, somos capazes de tornar inabitável
o mundo, devido aos venenos, à poluição ou ao modo pelo qual a
indústria modifica a atmosfera”.
A entrevista
toda corre por conta de temas atualíssimos, entre eles o declínio
do Ocidente, a esquerda no mundo, a aldeia global em que nos transformamos.
Polito, o entrevistador, mostra-se seguro e bem informado, tanto
sobre a obra de Hobsbawn quanto sobre o mundo em que vivemos.
Especialmente
no que tange ao desinteresse crescente das massas pela democracia,
que preocupa seriamente o historiador. Hobsbawn observa que, cada
vez mais, a mobilização das massas é substituída por uma individuação
operada com sucesso pelos meios de comunicação. “Eles (os meios)
estabelecem um relacionamento direto com cada pessoa, domicílio
por domicílio”, diz. Hobsbawn se mostra cético com relação ao
futuro da democracia representativa, quando é cada vez mais fácil
votar sem sair de casa ao apertar um botão do controle remoto
do aparelho de TV.
Enfim, Hobsbawn
permite que uma conversa com um jornalista se transforme num belo
ensaio de reflexão ao falar tão livremente sobre assuntos que,
em boa parte, ainda estamos vivenciando. E o octagenário marxista
internacionalista (nasceu no Egito, foi criado na Alemanha, estudou
na Áustria e se radicou na Inglaterra) encerra com uma provocação
bem a seu estilo: perguntado sobre o que simbolizaria o século
21, Hobsbawn não hesita: uma mulher com seus filhos. E justifica:
“A experiência de uma mãe reflete o que aconteceu com grande parte
da humanidade no século 20”. É isso.
Livro: O Novo
Século
Autor:
Eric Hobsbawn, com Antonio Polito.
Tradução
de Allan Cameron e Claudio Marcondes
Editora:
Companhia das Letras, 196 páginas
Preço
médio: R$ 24
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