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Um jogo com
soma zero
Ricardo
Schaefer*

*Economista,
coordenador de Assuntos Internacionais da Sedai e membro da Attac/RS
A instabilidade
recente das bolsas de valores mundiais mostra o quão velha é a
denominada nova economia, e não é somente porque a base ideológica
desta nova economia é o velho e clássico liberalismo. Precisamos
entender o momento atual como fazendo parte de um processo que
se desenrola há algum tempo. Desde a revolução industrial, o mundo
assiste a um processo conjunto de acelerado progresso técnico,
contínuo e irregular crescimento econômico e crescente globalização.
Esta se caracteriza por uma divisão mundial do trabalho cada vez
mais elaborada e complexa e pela ascensão de uma rede de fluxos
e intercâmbios ligando partes da economia mundial ao sistema global.
Os determinantes deste processo podem ser agrupados em três conjuntos
de fatores: tecnológicos, institucionais e sistêmicos
O progresso
técnico consolidou-se no casamento entre a técnica e a ciência,
reforçando a relação entre ciência e produção. Denominamos este
casamento de tecnociência, situando-a na base material e ideológica
na qual se fundem o discurso e a prática da globalização. Isto
ocorre porque o atual Sistema Técnico, nascido de uma revolução
tecnológica na informática e nas telecomunicações (Telemática),
as chamadas técnicas da informação, permitiu uma extraordinária
redução dos custos operacionais e dos custos de transação em escala
global. As operações produtivas e financeiras tornaram-se significativamente
mais baratas, ao mesmo tempo que se reduziram os custos de coleta
de informações e de monitoramento dos mercados de capitais e de
controle das operações produtivas espalhadas pelo mundo. Além
disso, uma nova indústria foi montada, a indústria da informática.
Esta inundou o mercado com os computadores pessoais e os softwares,
que massificaram o seu uso. Soma-se a isso o fato de que a Internet,
hoje, a partir da possibilidade de aumento da capacidade de transmissão
de dados (a denominada banda larga), torna-se um veículo de comunicação
que pretende oferecer conjuntamente o que hoje é entregue de forma
separada: televisão, telefonia e dados. É a chamada convergência
tecnológica, razão da extrema valorização dos “novos canais de
televisão”: AOL, UOL, Amazon, Yahoo, Starmedia, Terra, controlados
por grandes grupos, em sua maioria internacionais.
O fator institucional
e político está vinculado à ascensão das idéias liberais ao longo
da década de 80 (Thatcher/Grã-Bretanha e Reagan/EUA) cujo resultado
foi uma onda de desregulamentação do sistema econômico em escala
global (inicialmente, desregulamentação cambial e financeira).
Por fim, os fatores de ordem sistêmica e estrutural dizem respeito
às dificuldades de expansão da esfera produtivo-real das economias
capitalistas maduras (insuficiência de demanda agregada - mercado).
Neste sentido, a globalização econômica é vista como parte do
movimento de acumulação em escala global no qual os países desenvolvidos
colocam pressões crescentes no acesso aos mercados internacionais
de bens e serviços, como uma estratégia de saída para a crise
doméstica de acumulação.
O resultado
deste processo é a ascensão de uma unidade econômica global onde
tudo se mundializa: a produção, o produto, o dinheiro, o crédito,
a dívida, o consumo, a política e a cultura. Podemos afirmar que
a economia global é uma economia que funciona como uma unidade
em tempo real, tendo como espaço o planeta, selecionando, neste,
pontos específicos e elementos conectando-os ao interior do sistema
ou desconectando-os. É a emergência de uma realidade econômica
mundial na qual as grandes organizações são os grandes atores
da vida internacional. Assim, o setor produtivo é constituído
por uma rede de interdependências ampliadas pela constituição
de comunidades político-econômicas e mercados comuns. Observa-se,
assim, que a estrutura da oferta mundial é marcada pelo oligopólio,
onde um pequeno grupo de empresas controla a quase totalidade
da produção mundial. Exemplificando, 70% da oferta mundial de
hardware(computadores, telefones celulares etc.) e 82% da oferta
de automóveis é controlada, cada uma, por apenas dez empresas.
No setor de material de saúde a situação é extrema: quase 100%
da oferta é controlada por apenas sete empresas.
Paralelamente
a esta incrível concentração industrial, equivalente à do início
do século 20, outro fator, também com 100 anos de idade, é a profunda
desregulamentação das atividades financeiras ocorrida a partir
dos anos 80. O plano Brady, de reescalonamento da dívida externa
dos países subdesenvolvidos, tinha como contrapartida a abertura
dos mercados financeiros nacionais: de câmbio, títulos públicos,
ações, etc. Dois processos se desenrolam, então, a partir dos
anos 80: um de desregulamentação das atividades financeiras e
outro de desregulamentação do mercado de trabalho, com a supressão
da legislação trabalhista. A Argentina está passando por este
processo atualmente com a chamada Reforma Laboral que o presidente
Fernando de La Rua está implementando e que foi aprovada pelo
congresso argentino no dia 26 de abril.
A
crise atual é uma crise de percepção. É a crise de percebermos
a moeda e o trabalho como mercadorias. Não podemos tratar o trabalho
como mercadoria por uma razão simples e óbvia: ocorre que a substância
desta mercadoria é um ser humano com direitos fundamentais à vida.
A moeda é uma ficção criada pela humanidade e que deveria servir
para intermediar as trocas e melhorar o processo de alocação de
recursos, apoiando um desenvolvimento econômico sustentável. O
que ocorre é que a moeda, e aqui estamos falando de moeda na sua
forma atual, dinheiro e valores mobiliários (títulos públicos
e privados, também chamada quase-moeda), tem sido encarada como
comércio e este tem sido explorado como atividade transnacional
e como objeto de competição mundial entre as grandes transnacionais,
que buscam aproveitar suas vantagens comparativas. Assim, a moeda
e seu “negócio”, as finanças, são encaradas como uma indústria
que precisa dar lucro. Esta visão acarreta dois problemas insustentáveis:
um de ordem macroeconômica e outro de ordem ético-social. O que
acontece é que pelas características deste “negócio”, os lucros
obtidos advém de transferências, que provêm da esfera produtiva,
onde são criados o valor e os rendimentos fundamentais (salários
e lucro). Os capitais que se valorizam na esfera financeira nasceram,
e continuam nascendo, no setor produtivo. O capital nasce sob
a forma de lucro (lucros não reinvestidos na produção e não consumidos
e aquela parcela paga como juros por empréstimo), salários e rendimento
de pequenos agricultores e artesãos, os quais sofreram algum tipo
de retenção por via fiscal e, por isso, não foram para o consumo,
e aquela parcela paga como juros da forma atual e legitimada de
agiotagem dos Créditos Diretos ao Consumidor(CDC). Por fim, principalmente
nos EUA e agora vindo vorazmente para o Brasil, os fundos privados
de aposentadoria que gerenciam fundos advindos de salários diferidos.
A esfera financeira,
assim, alimenta-se da riqueza criada pelo trabalho, pela esfera
real da economia, que se traduz em ciclos de produção, distribuição
e consumo, ela mesma não cria nada. Forma-se uma ciranda, um jogo
no qual a soma é zero. O que alguém ganha dentro do circuito fechado
do sistema financeiro, outro perde. E este processo de transferência
de riqueza, o “efeito-riqueza”, faz com que cada vez mais uns
poucos, que vivem de renda (rentistas), vivam à custa de muitos.
Como o valor de qualquer ação na bolsa de valores depende da expectativa
de lucros futuros e como este depende de uma expectativa de consumo
futuro, a lógica atual dos mercados financeiros e da concentração
produtiva leva a crises sucessivas, crises de realização, ou seja,
de falta de demanda efetiva.
*economista,
coordenador de Assuntos Internacionais da Sedai e membro da Attac/RS
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