|
As empresas
de papel
O professor
Luiz Gonzaga Belluzzo, da UnB, não deixa dúvidas ao comparar a
valorização dos ativos financeiros na era da globalização com
o correspondente lastro que eles deveriam ter em forma de produção:
há uma notável inflação no valor virtual, de papel, das empresas
que se negociam nas bolsas de valores mundo afora. Uma inflação
invisível. Bem, mas e daí? Daí que inflação é inflação, como bem
sabem os brasileiros, e seja qual for a sua origem (alta generalizada
nos preços dos bens de consumo ou dos ativos financeiros), o fato
é que só uma parte da sociedade é quem paga a conta. Valorizar
demais qualquer produto gera crises de desvalorização constantes,
em que todo mundo que não soube se proteger acaba ficando mais
pobre.
É a isso que
estamos assistindo impassíveis, enquanto os detentores do capital
perdem e ganham montanhas de dinheiro num simples pregão de bolsa.
Dar às empresas um valor que elas não têm cria uma falsa ilusão
de riqueza, de prosperidade. É comum famílias americanas tomarem
dinheiro emprestado aos bancos para investir em ações dessas companhias
turbinadas, aumentando os riscos de colapso do sistema em épocas
de pressões de baixa nos preços.
É mais ou
menos assim: há um produto que todo mundo quer comprar, seja qual
for o preço do momento. Então, tomamos dinheiro emprestado, compramos
uma quantidade suficiente para pagar a dívida e gerar lucro e
saímos a vender. Só que muita gente teve a mesma idéia, não há
tantos compradores assim e a expectativa de preço alto, em um
determinado momento, não se concretiza. Aqueles do fim da fila
acabam não realizando lucros, acabam não honrando suas dívidas
e o sistema todo pode ir à breca. É como aquelas correntes milagrosas
que voltam e meia nos oferecem: os do início da fila sempre se
dão bem.
Esse jogo
ocorre tanto entre pessoas físicas e empresas quanto entre países.
E esse é o nosso caso. Quando as empresas de ponta da economia
norte-americana perdem fôlego, os investidores retiram suas posições
e adotam como lema a cautela. Imediatamente o movimento é repetido
aqui, com as oscilações de baixa nos preços e a conseqüente desvalorização
das empresas. Só que as companhias americanas têm muito mais lastro
produtivo que as nossas. Encarar um jogo desse tamanho é imitar
o super-homem no que ele tem de fantasioso. Não dá.
Mas não é
só. Para multiplicar sua valorização, as empresas têm também de
fazer o mundo inteiro acreditar no seu poder de mercado ou, como
diz Belluzzo, “na força de suas armas de concorrência”. Isso,
obviamente, riscando do mapa as concorrentes mais frágeis, adotando
práticas de monopólio, aumentando o poder de fogo. Não foi exatamente
o que fez a Microsoft até ser barrada pela Justiça americana?
Mais uma vez
o economista da UnB não deixa dúvidas ao comparar um modo de gestão
empresarial tradicional com outro contemporâneo: “A natureza intrinsecamente
especulativa da gestão empresarial, nessa modalidade de capitalismo
moderno, traduz-se pela importância crescente das práticas destinadas
a ampliar ficticiamente o valor do capital existente, tornando
necessária a constituição de um enorme aparato financeiro”. Esse
é o mundo em que vivemos, chamado carinhosamente de globalizado.

O Editor
|