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O pensador
da Cibercultura
Nize
Pellanda
*Doutorada
em Ciência da Educação. Professorea da Unisc.
Presidente da R.E.D.E -Ong do Novo Mundo do Trabalho.
O
mês de maio é marcado por um evento significativo para o debate
filosófico sobre as questões que envolvem cibercultura e o futuro
do pensamento na era da internet. O que acontece é o duplo lançamento
do livro Ciberespaço: um Hipertexto com Pierre Lévy. O próprio
Lévy, que é um dos autores e também objeto da obra estará presente
tanto no lançamento que ocorrerá na Universidade de Santa Cruz
do Sul, onde realizará uma palestra sobre o tema, no dia 25, como
em Porto Alegre, no dia 26 na Livraria Siciliano do Moinhos Shopping.
A publicação é da Editora 34 e será distribuída no estado pela
Artes e Ofícios. Os textos da obra Ciberespaço: um Hipertexto
com Pierre Lévy foram organizados pela professora do departamento
de Educação da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc), Nize
Maria Campos Pellanda, e pelo professor de Jornalismo On Line
da PUC-RS, Eduardo Campos Pellanda, contando com escritos inéditos
de Lévy e de outros 16 autores. Temas como o próprio saber, a
construção de um novo ciberespaço, a autocriação, o cotidiano
em sala de aula, a periferia oprimida, a produção de novos dispositivos
estão presentes na obra. Leia a seguir artigo inédito de Nize
Pellanda sobre a obra de Pierre Lévy.
Cada cultura
tem uma zona oculta, um subjacente tal como acontece com os seres
humanos com a presença de um inconsciente. É, de certa forma,
aproveitando-se deste espaço subjacente, que os dominadores se
apropriam para dominar. A partir da Revolução Industrial, mas
principalmente nos seus desdobramentos no século 19 com a intensificação
da exploração humana no capitalismo, é que a necessidade de desvelamento
destes subterrâneos e das grandes linhas de força que configuram
uma época começam a emergir. Foram os “grandes mestres da suspeita”
- Marx, Nietzsche e Freud - que começaram um exercício sistemático
de leitura deste oculto. Marx pensou um inconsciente de revolução
industrial, de desprezo brutal pelos direitos humanos e como isto
se dava no ocultamento. Nietzsche pensou uma sociedade hedonista
e cínica do “fin de siècle” a partir de Viena. Freud, de certa
forma, seguiu na esteira de Nietzsche e descobriu o inconsciente.
Hoje existe
uma espécie de insconsciente tecno-informacional no sentido em
que as profundas transformações do mundo do trabalho, da vida
cotidiana, dos modos como nos comunicamos, como pensamos, como
agimos como pessoas tem a ver com a cibercultura porque aí estão
implicados funcionamentos cognitivos. Temos que estar muito atentos
para que este espaço, o ciberespaço, não seja apropriado de maneira
ainda mais sutil e brutal por uma classe que representa o capital,
como vem acontecendo nestas últimas décadas com a sociedade, mas
que seja, isso sim, apropriado de forma emancipatória pelos trabalhadores.
Pois bem, alguns estudiosos pensaram este inconsciente info-comunicacional:
seus riscos e potencialidades humanas. Entre eles G.Deleuze, F.
Guattari, Pierre Lévy. O que eles fizeram foi desvendar as formas
mais sutis e perversas do capitalismo hoje e mostrar o potencial
de liberação que tem a virtualidade. Eles vêem na cibercultura
possibilidades para aberturas de ser, para abertura de novos mundos.
O que eles trazem à tona para discussão é a grande questão paradigmática:
determinismo ou construção, opressão ou emancipação.
Neste sentido,
podemos refletir um pouco sobre o fato de que não há tecnologia
em si mesma. Tem havido no pensamento da modernidade uma tendência
a naturalizar as coisas. As tecnologias são produtos de relações
sociais, são constructos culturais e não algo natural. O novo
paradigma científico tem a ver com relações, com processo, com
ações e não com substância. Ou seja, podemos nos despedir da epistemologia
aristotélica do mundo como lugar das coisas para dar lugar ao
mundo como lugar das realizações e relações humanas, ou o mundo
das potências.
Pierre Lévy
em seu livro “Tecnologias da Inteligência” (1) fala da evolução
da história da cultura em termos de três grandes fases: a oralidade,
a escrita e a informática. Na oralidade pensa-se pelas situações
com o auxílio da memória e da imagem e, na escrita, por categorias.
Na informática, pensamos por configurações e por simulações o
que, sem dúvida, potencializa muitíssimo nosso pensamento e nosso
ser. Conhecer, ser e fazer são dimensões inseparáveis nos seres
humanos. Cada uma dessas fases tem um alcance profundo na configuração
da sociedade e das subjetividades porque, como nos ensinam as
ciências cognitivas, há uma articulação profunda entre as formas
de apreensão do real e tecnologias intelectuais. Neste sentido,
as tecnologias da inteligência predominantes na era da informática
são aquelas advindas da microeletrônica. Por isso, o computador
não pode simplesmente ser reduzido a uma máquina ou a informática
ser pensada apenas como a “Ciência dos Computadores”. A nova cultura
- a cibercultura - com as tecnologias que ela traz como dispositivos,
tem um alcance muito profundo na construção da sociedade e dos
sujeitos devido às formas de relação dos seres humanos com estes
dispositivos. Estas transformações constituem-se em verdadeiras
mutações antropológicas porque passamos a pensar, a construir
conhecimento e a nos relacionar de outras maneiras.
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“Neste
ponto perigoso de virada ou de encerramento, a humanidade
poderia reapoderar-se de seu futuro”.
Pierre Lévy
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Lévy nos mostra
que as tecnologias intelectuais não surgem com a informática.
Elas sempre existiram entre os seres humanos. Trata-se de algo para
pensar com, para ajudar a pensar. Assim, os ritos antigos são tecnologias
intelectuais, a linguagem é uma tecnologia intelectual etc. Uma
instituição, uma narrativa, este texto que uso para me comunicar
com vocês, são formas de tecnologias intelectuais. A informática
não é mais um mero instrumento que nos ajuda a ver o mundo de forma
diferente, como o telescópio, por exemplo. Para Lévy, a informática
é, fundamentalmente, “um novo modo de reflexão” que muda não somente
nossa visão de mundo como a maneira como nos relacionamos com ele.
Estamos vivendo
intensamente a cibercultura e precisamos pensá-la profundamente
para não somente não nos deixarmos, mais uma vez, sermos levados
pelos acontecimentos mas tomarmos o timão do barco em nossas mão
e criar o mundo que desejamos. Ainda está bem presente entre nós
a guinada conservadora que atacou o mundo após os anos 70 quando
surgiu o neoliberalismo. Nesta ocasião, surge uma nova direita
que reestruturou a economia, o Estado e a sociedade sem a participação
da sociedade civil de modo a aprofundar o controle sobre os trabalhadores.
Foi aí então que a microeletrônica concebida como uma outra intenção
foi apropriada pelo grande capital para poupar mão-de-obra. Instala-se
o desemprego estrutural e os trabalhadores ficam desarmados. Mas
a informática tem um potencial emancipatório muito grande que
as classes populares não puderam apropriar naquela ocasião. Inicia-se,
então, neste período um processo de declínio da democracia. Aliás,
diga-se de passagem, cibernética é um termo de origem grega que
significa pilotagem de barcos. Este foi justamente o sentido que
N. Wiener, o pai da cibernética, se apropriou para entender o
funcionamento da mente. E é neste sentido também que podemos pensar
em termos de emancipação. Ou seja, tomar a história de nossas
vidas e da sociedade em nossas mãos e inventá-la de acordo com
nossos projetos.
Uma questão
importante que se coloca aqui que tem inclusive uma dimensão metodológica
é a questão da nossa relação com a máquina. Não podemos ser levados
por ela mas temos, como pensa Morin (2), que exercer uma pilotagem
das máquinas. Segundo ele, trata-se da “pilotagem das máquinas”
não a “maquinização do piloto”. Precisamos saber lidar com um
saber-fluxo e com “dilúvios de informações”. Ora, isto muda completamente
não somente a nossa maneira de fazer ciência como principalmente
muda a nossa maneira de organizar nosso pensamento, com um potencial
de construção de conhecimento muito maior. Como conhecer tem a
ver com ser, nos transformamos também como subjetividades.
Uma outra
potencialidade da informática que precisa ser apropriada pelos
trabalhadores é a democracia. A internet nos traz a possibilidade
de atuarmos em rede onde cada um de nós é um “nó”. Não há centro,
a ação de cada nó, como um microcosmos dentro do cosmos pode influenciar
e reconfigurar toda a rede. Com isto, podemos subverter a tradicional
relação poder/conhecimento. Qualquer pessoa, navegando na rede,
poderia ter acesso a qualquer banco de dados no mundo. Podemos,
por exemplo, ter acesso, às políticas de uma cidade, de um estado,
de um país. Podemos acompanhar, passo a passo, a execução de um
orçamento e assim por diante. Esta é uma utopia perfeitamente
realizável. Basta que os trabalhadores organizados garantam as
condições de infra-estrutura técnica de uma sociedade como, por
exemplo, que cada centro comunitário, que cada distrito tenha
seus terminais onde os cidadãos encontrem disponibilizados os
dados da gestão pública com acesso a muitos portais. Enquanto
fazem isto, eles estão potencializando a sua própria inteligência
no processo de relação com o espaço virtual. Sobre isso nos diz
Pierre Lévy: “... uma democracia que não tivesse nada a dizer
sobre o emprego da técnica não seria de forma alguma uma democracia”.(3)
E, por falar
em rede, a Biologia está nos mostrando que a rede é o modelo da
vida. Com isto, acertaríamos um outro alvo que nos limita e nos
escraviza: o individualismo. A internet pode se transformar, com
a nossas ações afetivas, numa grande rede de solidariedade que
levaria a humanidade a um outro patamar de hominização.
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Doutora em Ciência da Educação. Professora da Unisc. Presidente
da R.E.D.E.- ONG do Novo Mundo do Trabalho Notas: (1) LÉVY, Pierre.
Tecnologias da Inteligência. São Paulo, 34, 1994. (2) MORIN, Edgar.
Ciência com Consciência. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 1996.
(3) LÉVY, Pierre. Limiares do Contemporâneo. Entrevista a Rogério
da Costa. São Paulo, Escuta, 1993.
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