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Um mistério
próximo do fim
Francisco
Salzano

Professor do Departamento de Genética,
Instituto de Biociências, da UFRGS
A notícia
recente, feita pelo norte-americano Craig Veuter da Companhia
Celera (associada à Perkin Elmer) e situada em Rockville (Maryland,
Estados Unidos), de que havia sido finalizado o seqüenciamento
completo do material genético de um indivíduo causou sensação
em todo o mundo. E não é para menos, pois estamos agora mais perto
do esclarecimento de como funciona a nossa herança biológica.
Por que que
quando um casal de nossa espécie - após as clássicas fases do
namoro, noivado e casamento (é verdade que algumas vezes este
processo é simplificado) - gera uma criança ela vai se parecer
com ambos e não, digamos, com um tomate? Tudo depende, em última
análise, de uma substância cuja sigla tornou-se agora de conhecimento
comum, o DNA (ou “desoxiribonucleic acid”, ácido desoxirribonucleico).
É ela que transmite a informação genética de uma geração a outra,
através de um processo complexo que envolve também outra substância,
denominada RNA (“ribonucleic acid” ou ácidoribonucleico), e a
proteína que constitui o nosso corpo. Nada menos do que 3 bilhões
de nucleotídios (as unidades que compõem a cadeia em dupla hélice
do DNA) existem no nosso genoma (o conjunto do material genético).
Por aí pode-se imaginar a enormidade do feito acima anunciado:
estabelecer, tintim por tintim, como se arranjam essas 3 bilhões
de unidades no DNA da espécie humana.
Para se ter
uma idéia da rapidez com que estão ocorrendo os desenvolvimentos
na área da genética, basta dizer-se que há apenas 60 anos havia
dúvidas se o material genético era realmente o DNA. De lá para
cá o progresso foi estonteante. Com relação especificamente ao
Projeto do Genoma Humano, ele foi iniciado oficialmente nos Estados
Unidos em 1991, após cinco anos de debates e planejamento. A meta
era finaliza-lo em 2005. Em 1998 já havia sido gasto US$ 1 bilhão
nas pesquisas, quando foi anunciada a criação da Celera, que por
US$ 200 milhões comprometia-se a realizar o seqüenciamento em
três anos.
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"O
seqüenciamento do DNA é apenas o primeiro passo para o esclarecimento
definitivo do funcionamento de nossa complexa herança biológica"
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O resultado aí
está. Isto não significa que tudo esteja resolvido. Ainda falta
estabelecer a montagem definitiva das seqüências, ou seja, organizar
os 3 bilhões de nucleotídeos, e este é apenas o primeiro passo,
embora gigantesco. A partir daí é necessário identificar-se as unidades
de funcionamento, que vão determinar, através do caminho DNA, RNA,
proteína, o nosso destino biológico. O trabalho não será trivial,
porque para que os genes funcionem são necessários requisitos básicos
de interação ao nível das células (as partes componentes de nosso
organismo), os quais ainda são muito pouco conhecidos.
Como foi possível
chegar-se a este resultado tão rapidamente? Isto foi possível
por uma feliz combinação de técnicas biológico-moleculares com
a ciência da informação, com computadores. Um dos desenvolvimentos
mais sensacionais foi o dos biochips, ou chips de DNA, que permitem
a análise simultânea (monitorada por robôs também especialmente
desenvolvidos) de mil a 10 mil genes (as unidades de funcionamento
do DNA).
O seqüenciamento
completo de nosso genoma já foi precedido pelo de outros organismos
mais simples, como bactérias, e recentemente da mosca das frutas,
a Drosophila, organismo fundamental, desde o início do século
20, para os estudos da hereditariedade.
No Brasil,
cientistas da Fapesp montaram a estrutura que possibilitou, no
início deste ano, o seqüenciamento completo do DNA de uma praga
de citros, a bactéria Xylella fastidiosa. Esse seqüenciamento
constituiu-se no primeiro genoma concluído fora do eixo Estados
Unidos-Europa-Japão.
*professor
do Departamento de Genética, Instituto de Biociências, da Ufrgs
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