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Meus quinhentos
anos...Mas com um corpinho....
Elisa
Lucinda
Minha mãe
queria Ana Elisa. Meu pai foi catedrático: “Você escolheu todos
os outros nomes, dessa escolho eu. Será Elisa Lucinda, o nome
de minha mãe”. E dizem mesmo que eu nasci a cara dela.
Era uma velha
negra sincretista que sabia macumbas naturais, que habitavam ela,
como uma forma de cultura, como um olhar natural sobre a natureza:
ao mesmo tempo que tapava espelhos com lençóis por respeito a
Iansã e reconhecimento do seu poder, rezava pra Santa Barbara
e São Jeronimo. Tinha terço e tambores a nega Lucinda com sua
pele muito ébano e seus olhos extremamente azuis. Com um pouco
de medo daqueles olhos, daquele absoluto contraste, eu menina
a espiava sempre. “Que foi, Elisinha?” Vó Elisa tinha um enorme
tonel de barro, do qual recolhia a água da chuva e enchia de pétalas
de rosas brancas; lavava o rosto com essa água renovada em cada
chuva. Durante toda a sua vida, todos os dias, encheu as mãos
dessa água purificada em pétalas pra banhar o lindo rosto de esfinge.
Era cosmético, era santuário, era oferenda, tudo ao mesmo tempo.
Viera na lei
do ventre livre. Agora me diz: pode ser livre o fruto de um ventre
aprisionado? À rigor não. Mas pode ser; se o desejo de liberdade
for poderoso no ventre gerador. E era!
Vovó Elisa
chamava o marido, português que viera pro Brasil, na mesma época,
no rastro do dominador, de senhor; no entanto teve muitos homens
antes dele. Ela fora vendida e comprada numa circunstância de
escravidão, mas era também ancestralmente nobre, princesa, livre.
E aqui então, insistia-se livre; só de teimosia, só de resistência.
Ano passado,
final de século 20 já, eu e meu amor sobre as pedras de Tiradentes
depois de fumarmos um cigarro diferente, me ocorreu uma viagem,
uma memória, uma herança: meu amor que estava como sempre, (mesmo
quando não está), dentro de mim e ao meu lado, refletiu sabiamente:
-Preta, como
é que seu povo aguentô? Acorrentado, tratado como se trata mal
um animal não humano, longe da língua, disperso da tribo, extirpado
da família, humilhado, covardemente dominado por uma aristocracia
nojenta? Como não pirou? Como conseguiu preservar o tesouro da
alegria em meio a essa premeditada tormenta? Isso é técnica cruel
de enlouquecimento. Me diz como é que esse povo não enlouqueceu,
não se suicidou?”
- Não sei.
Nesse momento
me veio uma memória, uma ficção absurda, absolutamente confessional.
Um arquétipo
nítido, como um take de um filme: vi meu tatarararavô com 120
anos morrendo acorrentado e dizendo, alto pra si, no seu lúcido
pensamento de condenado:
-”Mas um dia,
um dos meus será livre.”
- Eu sou uma
desses uns, meu amor, eu disse e cai em prantos.
Nesse momento
toda Tiradentes, toda calçada, toda construção de Brasil era minha.
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