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Algumas observações
assustadoras
Ana
Tomazi* e Paulo Canteiro**
| Agência
Estado |
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| Saldo
das comemorações na Bahia: Violência e
cerco |
As comemorações
dos 500 anos do Brasil se transformaram em violência contra manifestantes
que queriam protestar em Porto Seguro. Os excessos policiais foram
vistos no mundo todo, manchando ainda mais uma festa que já iniciou
errada. Dois professores relatam aqui o cerco a que foram submetidos
depois de uma viagem de 56 horas e muita expectativa
Nós, meros
mortais, viajamos a Porto Seguro com alguns objetivos em nossa
mente. Uma viagem rodoviária longa e cansativa, mas necessária
para alcançarmos nossos objetivos. Foram 56 horas de expectativas
para fazer nosso protesto contra um evento, segundo a nossa ótica,
vergonhoso. Uma mentira, já que foram milhões de reais gastos
para uma festa enquanto o povo se esconde nas vielas do esquecimento
e da miséria.
Ao chegar,
porém, começamos a vivenciar alguns momentos impares, como a ostentação
do poder, a violência dos direitos dos cidadão e o mau uso do
poder público, estes exemplos de nossas observações assustadoras.
A imponência por parte do governo e o receio de um confronto armado
forçou-o a uma posição única na repressão à manifestação, legitimamente
convocada por parte dos movimentos sociais e entidades de classe
do país.
A manchete
de um jornal de circulação na Bahia foi taxativa: “Um clima de
guerra no Sul da Bahia”. Esse clima foi produzido pelas ações
imperativas da polícia desde a chegada dos manifestantes nas proximidades
de Porto Seguro, como a de um fiscal do DNER que nos preveniu
sobre o que nos aguardava na cidade: entre os perigos tradicionais
das grandes comemorações, havia um contigente de 12 mil policiais
para nossa “proteção”. As professoras Solange Pinheiro e Ieda
Barros Rodrigues, por exemplo, passaram maus momentos na barreira
antes de chegar à cidade: foram constrangidas ao terem revistadas
suas malas, além de passarem 36 horas sem alimento e água. As
pessoas do grupo que as acompanhava também ficaram sem banho depois
de uma viagem de 56 horas.
Nós, que ficamos
em Porto Seguro, não pudemos usar camisetas da CUT nem adesivos
ou botons que identificassem a opção política, sob pena de sermos
agredidos ou “conduzidos” ao coronel. Nossos colegas em Cabrália
passaram pelas bombas de gás e pelo terror e medo de balas perdidas.
Havia crianças, índios, mas não importava quem eles estavam reprimindo
a mando do senhor FHC. Havia também fragatas de guerra, helicópteros,
armas pesadas e soldados sem identificação, mostrando realmente
o propósito pelo qual estavam ali.
Durante três
dias vivenciamos uma volta ao passado da ditadura militar, da
posição imperialista do poder e do poder que corrompe a essência
do ser humano. Nossos objetivos foram alcançados? Sim, já que
mostramos ao mundo o fiasco produzido pelo próprio governo nas
comemorações dos 500 anos do Descobrimento do Brasil. Mostramos
que, apesar da repressão, o povo gritou, soltou suas palavras
de descontentamento, vaiou o show oficial – montado para as autoridades
– desde o seu início. Mostramos, também, como eles tentaram abafar
– com a Polícia de Choque – as vaias e os gritos de um povo sofrido
que não agüenta mais o caos imposto pelos governantes desse imenso
país chamado Brasil.
*Diretora
do Sinpro/RS **Presidente do CPF (Centro dos Professores e Funcionários
da Escola Mesquita/POA)
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