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Lucrécia
e Beatriz
Barbosa
Lessa
Depois
de um período de digressão versando sobre conceitos
da Sociedade e Cultura, volto hoje à temática que
me foi inicialmente proposta: Imagens do Passado. E faço-o
recuando três séculos, chegando a um tempo em que
ainda não havia o Rio Grande do Sul. Havia apenas esparsas
tribos de carijós pescando à beira-mar ,
guaranis plantando mandioca e milho e minuanos
caçando bois espraiados das estâncias dos jesuítas
das Missões. Pelo oceano não podiam arribar navios
ibéricos, por causa da saída da Lagoa dos Patos
ainda atulhada de areias movediças e com fama de barra
diabólica. Marcos históricos daquela época
foram o Tratado de Saragoça tentando definir limites
entre as possessões de Espanha e Portugal , e a criação
do Bispado do Rio de Janeiro e em território hoje
uruguaio, defronte à cidadela hispânica de Buenos
Aires a fundação da lusitana Colônia
do Sacramento.
Então,
obedecendo a ordens da Corte de Lisboa, o governador da Capitania
de São Paulo estabeleceu no desabitado litoral catarinense,
uma aldeia que valeria como posto avançado na desejada
conquista das terras do Sul: Santo Antônio dos Anjos de
Laguna. De São Vicente, Paranaguá, Guaratinguetá
e outras vilas da Capitania descem para ali os primeiros povoadores,
logo acrescidos de emigrados da Madeira e outras ilhas lusitanas.
Homens e mulheres atirados ao isolamento de um verdadeiro fim-de-mundo,
mas com a chama da esperança a lhes animar o coração..
Dentre
tais pioneiros, uma senhora de Guaratinguetá, pertencente
à linhagem dos Lemes paulistas: Dona Lucrécia Leme
Barbosa. Casada com o madeirense Jerônimo de Ornellas e
mãe de três pequerruchas: Fabiana, Rita e Antônia.
Em Laguna, ela dá à luz uma quarta menina: Maria.
E vê chegar, para lhe fazer valiosa companhia, sua irmã
mais moça, Dona Beatriz, há pouco tempo casada com
o jovem português Dionísio Mendes e, por enquanto,
ainda sem cria nenhuma.
De
Laguna parte uma temerária expedição, da
qual faz parte Dionísio, e consegue abrir uma primeira
rota sob o comando de João de Magalhães
até a Colônia de Sacramento. Ele volta contando maravilhas
acerca das verdes planícies, sem fim, que seus olhos haviam
contemplado durante a longa jornada.
Mas
o interesse do Rei vai além desse mero palmilhar de desertos:
ele quer ver gente estanciando, estacionando, plantando casa,
fincando raízes, criando famílias e riquezas. Quem
efetivamente comprovar ter tomado posse da terra, povoando-a,
então receberá por recompensa o respectivo título
de propriedade ou carta de sesmaria.
Então
Jerônimo de Ornellas, mais o concunhdo Dionísio Mendes
e um companheiro de nome Sebastião Chaves, partem para
o Sul, com suas famílias, e terminam assentando casa e
fazenda à bonita beira do Guaíba. Um acidente geográfico
ficou para sempre lembrando o nome do marido de Beatriz: Ponta
do Dionísio. E o ancoradouro que por ali se fez foi inicialmente
chamado de Porto do Dornelles corruptela de DOrnellas
até ser denominado Porto de Viamão e, por
fim, Porto Alegre.
Nenhum
topônimo, porém, para recordar Lucrécia ou
Beatriz. Admiráveis mães, admiráveis esposas,
admiráveis donas-de-casa. Heroínas da solidão.
Guardiãs da indefinida fronteira. Daí a pouco, inabaláveis
companheiras das filhas e netas na expansão do território
lusitano e na formação do Continente do Rio Grande.
Na próxima crônica vamos acompanhar seus passos e
logo entenderemos porque mereceriam ser lembradas e louvadas como
estampas da Coragem, da Perseverança e do Amor.
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