Língua solta contra a norma que exclui

O escritor Marcos Bagno solta definitivamente o verbo para defender a língua viva e verdadeiramente falada no Brasil.
Para ele, muitas vezes o português culto serve para esconder preconceitos e acaba por tornar-se um instrumento de exclusão.
Em seu mais recente trabalho de não-ficção, intitulado Dramática da Língua Portuguesa, recorre a um profundo estudo do idioma para justificar suas teses.
Em debate está o domínio da lígua como expressão plena da democracia. Esse domínio é o exercício inequívoco da cidadania. Por isso, a idéia de superioridade linguística é tão perversa quanto a idéia de superioridade da raça, da cultura, do sexo e da religião.

Jéferson Assumção

A língua culta está impregnada é de perversidade, de dominação, pois quer queira, quer não, ela é mecanismo de poder. Após abordar o tema em “Língua de Eulália” e “Preconceito lingüístico - o que é, como se faz”, o mineiro Marcos Bagno, 40, vem com tudo em “Dramática da língua portuguesa” (Editora Loyola). Mestre em Língüística e doutor em Língua Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), poeta, contista e tradutor, Bagno reside em São Paulo, de onde dispara seus petardos contra os “cultores da língua”. Na linha de tiro estão, entre outros, os alvos preferidos Pasquale Cipro Neto, Josué Machado, Eduardo Martins, Arnaldo Niskier e outros “arrivistas”, autores de gramáticas, algumas consagradas e em uso nas escolas. Esses, “embora tentem mostrar a ignorância dos outros, na verdade depõem contra si mesmos, ao deixar patente a própria ignorância da realidade dos fatos que tentam abordar sem o devido preparo científico”.

Puro preconceito lingüístico, diz Bagno, é afirmar por exemplo, que o “brasileiro não sabe Português” ou que “Português é muito difícil”. “Tudo por causa da confusão que se faz entre língua e gramática normativa (que não é a língua, mas só uma descrição parcial dela)”, explica o autor. A professora Maria Marta Pereira Scherre, da UFRJ/UnB, apóia: “É fácil dominar e se deixar dominar por meio de línguas ou dialetos de prestígio. E isso tem de ser discutido! Tem de ser publicamente debatido! Tem de ser continuamente denunciado! É exatamente este papel cidadão que o cidadão Marcos Bagno tem exercido com maestria nos últimos anos”. Por isso, o tom mais político do livro de Bagno: “É uma denúncia de como a linguagem pode servir como instrumento de exclusão social, de como a escola conservadora e a mídia hoje em dia estão contribuindo para o aprofundamento do fosso que existe entre os que supostamente ‘não sabem português’ e aqueles que acham que ‘sabem português’ “.

O livro aponta, ainda, alternativas para um ensino de língua menos excludente. Bagno também não dá tréguas a projetos de defesa da língua nacional, como o do deputado Aldo Rebelo (PCdoB), que tramita na Câmara e prevê restrições ao uso de estrangeirismos no Brasil. “O projeto é um amontoado de bobagens, além de ser de uma inutilidade gritante!” Como disse recentemente o professor Carlos Alberto Faraco num artigo na Folha de S. Paulo, a justificativa do projeto do deputado é uma das mais impressionantes coleções de asneiras jamais escritas sobre língua na história do Brasil”, diz. Acompanhe a entrevista com Bagno concedida ao Extra Classe.

EC - Em que medida o idioma oficial brasileiro corresponde ao português falado nas ruas do Brasil?

Marcos Bagno - Antes de tudo, é preciso saber o que se entende por “idioma oficial brasileiro”. Pessoalmente, não sei exatamente como definir essa entidade lingüística. O que podemos dizer é que o padrão de língua que ainda se ensina na escola e que é veiculado pelas gramáticas normativas e pelos livros didáticos deixa de incluir, por puro preconceito, muitos aspectos que já caracterizam a língua falada pelos brasileiros, inclusive pelos brasileiros cultos. (Uso aqui a expressão “brasileiros cultos” segundo o critério adotado pela sociolingüística brasileira: cidadãos e cidadãs nascidos e criados em ambiente urbano e com escolaridade superior completa. Não deve ser confundida com a noção comum de “pessoa culta”).

EC - De que forma a língua culta exclui aqueles que não falam o português oficial?

Bagno - A língua culta não exclui ninguém, porque a língua culta é só uma abstração. Quem exclui são os que acham que falam uma variedade lingüística superior, assim considerada somente porque ocupam os lugares de prestígio e destaque na sociedade. Na verdade, o preconceito lingüístico é somente um disfarce para o exercício de outros preconceitos, sobretudo o preconceito contra os mais pobres, e uma justificativa para perpetuar a gigantesca injustiça social que existe no Brasil e que é simplesmente a maior do mundo.

EC - Por que o nome “Dramática da Língua Portuguesa”?

Bagno - O livro se chama “Dramática da Língua Portuguesa” exatamente porque existe um abismo entre o que o senso comum chama de “língua portuguesa” e aquilo que realmente é a língua falada no Brasil, com sua multiplicidade de variedades, inclusive escritas. Vigora no nosso imaginário um conceito idealizado de língua, que em grande medida é o português culto de Portugal, de preferência o literário, e que se choca contra a realidade lingüística do nosso país. Como temos um espírito colonizado muito forte, e uma auto-estima cultural muito baixa, acreditamos que nossa língua, o português do Brasil, é uma língua “estropiada”, “defeituosa”, etc., e que só os portugueses falam bem a língua, que, afinal, é “deles”... Esse é o drama, porque é um total absurdo, do ponto de vista científico. Infelizmente, essas concepções distorcidas estão em plena moda, hoje em dia, com programas de televisão e rádio, colunas de jornal e revista, e outros investimentos da mídia e multimídia, preparados por pessoas totalmente desvinculadas do campo científico e pedagógico sério, que tentam perpetuar noções de “certo” e de “errado” absolutamente anacrônicas e retrógradas.

EC - Seu trabalho pretende romper, de alguma forma, com esta atual estrutura, apontar caminhos para superá-la? Que caminhos seriam?

Bagno - Minha proposta é a de que as aulas de língua se tornem momentos privilegiados para a pesquisa lingüística. Em vez de se guiar pelos livros didáticos, com suas respostas prontas e concepções distorcidas, o professor e seus alunos se debruçariam sobre material de língua viva autêntica, falada e escrita, para nele detectar as verdadeiras regras gramaticais em vigor na língua de hoje. Em seguida, poderiam contrastar essas regras verdadeiras com as prescritas pela tradição gramatical. Eu fiz isso no meu livro e verifiquei que os falantes cultos brasileiros, em sua grande maioria, não seguem as regras gramaticais tradicionais, usando, no lugar delas, outras construções sintáticas que, no entanto, ainda são consideradas “erros”. (E veja que são pessoas com escolaridade superior completa, que passaram no mínimo 15 anos em instituições escolares, em contato freqüente com a norma-padrão). Para isso, o professor de língua tem de ter maior autonomia, tem de dar a si mesmo maior autonomia de trabalho, para se livrar das pressões do mercado editorial e até mesmo das instâncias oficiais de ensino, que tentam impor programas e progressões que muitas vezes não se adaptam ao ritmo da sala de aula nem ao público com que o professor tem de lidar. O professor de língua tem de se tornar um pesquisador e um orientador de pesquisas, além de ser também um produtor de material didático, e não um simples consumidor de material e de concepções didáticas pré-fabricadas.

EC - Esta “norma padrão” então traz prejuízos para os brasileiros e para a língua falada em geral, no Brasil?

Bagno - A norma-padrão tradicional não traz nenhum prejuízo para os brasileiros em geral. Ao contrário: é bom que seja ensinada e conhecida pelos alunos. Ela só é prejudicial quando se torna instrumento de discriminação e de exclusão social, como infelizmente tem acontecido na história educacional do Brasil.

Os brasileiros cultos quando falam e escrevem servem-se de uma linguagem viva, dinâmica, prática, perfeitamente adaptada aos fins a que se destina. O contato com a literatura, clássica ou contemporânea, é sempre enriquecedor do ponto de vista cultural, mas não se deve usar a literatura como parâmetro para medir a língua de ninguém. O objetivo da escola é formar bons usuários da língua e bons conhecedores dos recursos expressivos e comunicativos que ela oferece, e não formar escritores nem professores de português.

 

 

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