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O
Dodói de Beto
Elisa
Lucinda
Era
ele bêbado pelas ruas do Sul cantando tango e recitando
Baudelaire.
Pagando puta em cheque na cara dos anos 50. Das coisas que eu
sei dele, fareja-se um artista. A arte é um talento, uma
destinação tão violenta, no sentido não
agressivo, mas sim no sentido espaçoso e volumoso da palavra
que sabe-se lá do ela que é capaz quando sem escoamento.
Era ele Beto bonito levantando à noite, querendo mulher,
querendo comer mulher, amar mulher e cantar e dizer poesia atrás
das portas enquanto as devorava voraz no lugar do que chamamos
insônia. Beto cantava alto e vomitava versos como quem precisa
criar uma ponte onde possam bicicletar aliviados cada soneto de
seu grito.
Toda
história que ouço se impõe em mim como mote,
como sorte de eu entender o saber de que história aquela
história está me contando. A história de
Beto me deixa imagem de um clown, de um artista cuja pulsação
tão inevitável, sucumbiu a uma ordem letal sobre
ela, cujo primeiro sintoma foi a desordem. Do Beto sinto que queria
os bois, as vacas, os cantos, os campos, a poesia e a vida. A
arte disso quando as pontes declamatórias dos tangos começaram
a falhar a sua boca, quando sumiram as pontes, a arte disso como
um Hulk lhe explodiu as cercas e bateu-lhe no dodói dos
hectares proibidos.
Doído de Beto não era um doído só
dele, não começou a doer nele. Doeu nas bruxas há
séculos atrás, doeu em Galileu, em Artaud, doeu
no peito de todos os sábios, de todos os poetas, doeu no
peito como uma tocha no ponto em que não se separa arte
e dodói, no ponto em que no peito tudo é chama em
substantivo e indicativo. O verbo exige. O verbo chama.
A
história de Beto me doeu essa manhã. O exército
de seu talento entrou dentro dele em guerra como ele, e esse exército
morreu Beto. Quando o que ele tinha de melhor encontrou todas
as portas fechadas e virou morte. Beto virou portador de sua morte.
No lugar do canto, como um canto desprezado no canto da boca,
ela estava ali. Um dia ele estava distraído e fez a besteira
de engolir a própria saliva. A saliva de Beto engoliu ele.
elisalucinda@radnet.com.br
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