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Não
precisa ser espanhol
Luis
Fernando Verissimo
Meu
pai tinha um amigo, nascido na Espanha, que culpava tudo no papa.
Seria apenas uma amostra do anticlericalismo tipicamente espanhol
se ele não atribuísse ao Vaticano também
as pestes e os desastres naturais, além de todos os seus
problemas pessoais. Não quero parecer o amigo espanhol
e dizer que até o mau tempo é culpa do neoliberalismo
se bem que, sei não, El Niño não apareceu
depois do Consenso de Washington? mas a vaca louca é.
Foram os métodos
de criação uniformizados e de grandes volumes impostos
pela indústria de carne globalizada que acabaram com a
pecuária tradicional e transformaram o gado europeu em
carnívoro, e sua ração, feita com restos
animais, em transmissora do contágio. Este é um
caso em que os pastorais nostálgicos e ambientalistas românticos
tinham razão.
Já
a indústria farmacêutica serve de exemplo para qualquer
argumento, a favor ou contra o culto ao lucro como motor da felicidade.
A favor: se não fosse o fato de ser o terceiro melhor negócio
do mundo, depois do petróleo e das drogas ilegais, a indústria
de drogas legais não investiria o que investe em pesquisa
e em novos produtos, inclusive alguns dos que me mantêm
vivo (tudo, no fim, é vaidade). Contra: a competição
e a rentabilidade que estimulam a eficiência e a criatividade
da indústria também a transformam no maior exemplo
mundial de amadorismo capitalista, da precedência do mercado
sobre os escrúpulos. Não só concentrando
seus negócios no mundo rico, onde gasta muito mais em publicidade
e propina do que em pesquisa, mas cobrando mais no mundo pobre
do que cobra no seu mundo e ainda sabotando as tentativas dos
pobres de criarem alternativas baratas para suas patentes, como
no caso do tratamento para Aids no Brasil e na África.
Muitas das patentes comercializadas pela grande indústria
farmacêutica nasceram de pesquisa do governo americano financiadas
com dinheiro público, o que acrescenta uma boa dose de
hipocrisia ao ideal liberal do Estado que não atrapalha.
Enfim, você não precisa ser espanhol para dizer
que nem tudo é culpa do neoliberalismo, como nem tudo é
culpa do papa, mas que o prontuário é longo assim
mesmo.
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