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A juventude
fragmentada
Foto: René Cabrales
Pesquisa
aponta que jovem brasileiro médio é individualista,
não têm consciência do quanto seus atos afetam
o meio onde vive e têm no consumo seu principal elo com
a sociedade.
César Fraga
ara
se ter uma idéia, 24% dos jovens (entre 18 e 25 anos) acham
que suas ações não tem impacto sequer em
suas próprias vidas, e, em geral, acham que essas mesmas
ações não impactam na sociedade, no ambiente
ou na economia. Com este perfil aproximado do jovem brasileiro
os pesquisadores apontam a escola, mais uma vez, como principal
agente de mudanças. Porém, existe um outro dado
preocupante, a esmagadora maioria dos pesquisados vêem essa
mesma educação apenas como uma possibilidade de
ascensão profissional e proporcionadora de benefícios
para suas carreiras. O estudo foi realizado em 11 capitais metropolitanas
brasileiras (São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte,
Porto Alegre, Curitiba, Belém, Recife, Salvador, Fortaleza,
Recife e Goiânia) pelo Instituto Akatu, em conjunto com
o instituto de pesquisas Indicator, em parceria com o Programa
das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e
Organização das Nações Unidas para
a Educação (Unesco), com base em pesquisa similares
feitas pelas duas organizações em outros países.
A comparação dos dados brasileiros com os resultados
da Pnuma/Unesco nos outros países é, no mínimo,
cruel. Os jovens brasileiros se interessam por compras mais do
que todos os outros países pesquisados (França,
Japão, Argentina, Austrália, Itália, Índia,
EUA e México, respectivamente). Os norte-americanos, por
exemplo, estão em penúltimo lugar na lista com apenas
12% de sua juventude muito interessada no assunto e outros 21%
com algum interesse. O Brasil, no topo tem 70%, sendo 33% com
muito interessada pelo tema. Em contrapartida, a simpatia por
política deixa o Brasil em último lugar. O nível
é pequeno. Apenas 10% dão muita importância
para assunto e outros 16% de forma mais genérica.
Quando se vai atrás dos motivos, alguns deles podem ser
encontrados em outros ítens pesquisados, como por exemplo
o percentual de leitura que é bastante baixo. A principal
fonte de informação da juventude brasileira é
a televisão. A TV apresenta uma visão fragamentada
das coisas. O fenômeno que encontramos também é
resultado da forma como a informação é apresentada
a esses jovens. A informação chega de forma desorganizada
e certamente isso traz reflexos na formação das
estruturas de pensamento das novas gerações,
teoriza o coordenador do Instituto Akatu, Délcio Rodrigues.
Segundo Délcio, o jornal clássico, em papel, já
trabalha com um certo nível de fragmentação,
mesmo que consiga aprofundar um pouco mais cada questão.
Depois vem a televisão e a própria estrutura dos
telejornais cujas características propiciam este fenômeno.
Na seqüência vem a internet, fragmentando ainda mais.
De acordo com as pesquisas, o tempo média de permanência
em uma tela é de nove segundos. O que cabe de informação
nesse tempo? É tudo muito rápido. Na escola, o livro
didático acaba tendo de se fragmentar para acompanhar a
linguagem dos veículos a que estes jovens e crianças
já estão habituados, argumenta.
Embora já tenha se tornado comum jogar toda a responsabilidade
sobre a escola, quem melhor pode lidar com essa questão
realmente é ela, porque mais do que lidar com a informação,
ela trabalha com algo que vem antes, que é a formação.
Só a escola pode ajudar a construir o filtro que os jovens
precisam para que possam organizar toda a informação
que recebem e estabelecer os nexos entre elas, além é
claro, de ajudar a criar noções de cidadania , de
atitude diante das coisas, justifica. Para ele, não
adianta somente a escola fazer a sua parte. Outros setores da
sociedade também precisam agir, como as empresas por exemplo,
revendo suas formas de produzir, não fazer propaganda enganosa,
questionar seus métodos. Essa atmosfera de responsabilidade
social precisa estar presente nos diversos segmentos da sociedade,
completa. Em contraponto ao saldo negativo dos resultados, a pesquisa
aponta certo grau de consciência ecológica, pois
a maioria dos entrevistados mostrou preocupação
com itens como coleta seletiva, por exemplo.
Consulte a pesquisa completa em www.akatu.com.br
Ausência de perspectivas Mas o cenário
não é totalmente árido. Um outro estudo,
não estatístico, realizado entre adolescentes de
classes baixas em São Paulo pelo mestre em psicologia social
pela USP, Tiago Curbisier Matheus diz que, pelo menos neste extrato
social, a juventude não é tão alienada. Esses
jovens restringem seus ideais ao que é possível.
Eles lutam por transformações, mas de forma mais
realista. Ao invés de tentarem mudar o mundo, procuram
influir mudanças no seu bairro, por exemplo. Em sua
pesquisa, a preocupação com a ascendência
profissional também é evidenciada. Para Matheus,
a violência crescente, o desemprego, o clima de cada um
por si, a atmosfera de desencanto e um universo refratário
que oferece poucas possibilidades de inserção são
os principais causadores da ausência de perspectivas mais
amplas. Não é o jovem que é individualista
ele apenas reflete o ambiente em que vive, explica. E conclui:
apostar na alienação dos jovens, pode ser
excessivamente simplista. Afinal, as pequenas transformações
também influenciam no todo, daí a grande proliferação
de ONGs com participação de jovens.
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