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Um
dedinho de amor (I)
Elisa
Lucinda
Mamãe tinha cinco filhos
e um marido que amava, mas nunca associara amor de casamento com
frutos dessa união. Não tinha um dedinho de consideração
por nós. O Júlio ficou reprovado pela 2ª vez
na mesma série, e ela disse apenas folheando o jornal:
é novo, ano que vem passa. Eu pequena, olhava aquela hereditariedade
de desafeto, aqueles irmãos vindo antes de mim sem afago
de mãe. Eu caçula, observava e pensava: qual será
a escala para escalá-la? Nada. Era sempre uma mãe
distante, mãe montanha, mãe gigante, mãe
longe, não imbuída de nos amar, não incumbida
dos mais naturais cuidados: merenda, beijo, estórias na
hora de dormir, preocupações pentelhas Não
suba no muro, não caia daí. Ai, era uma mãe
extra mater. Parecia que estivéramos todos fora dela quando
dentro.
Até que um dia o irmão do meio adoeceu sinistramente
na sexta e no domingo definitivamente nos deixou. Eu mal chorava.
Tudo em mim eram olhos espantados de ver minha mãe assolada
de uma ternura mórbida, porém ternuríssima,
sobre o corpo: meu filho, meu amado, meu preferido, minha vida.
Proferia ela amorosos impropérios destoantes do que entendia
como real até então. Na dor da perda, minha mãe
amava mais aquele filho do que a todos quando nascera: filho meu,
bendito filho meu, o que será de mim?
Compreendi que a culpa disparava nela um amor retroativo, forte,
maravilhoso que, se não ressussitara meu irmão,
tamanha sua força, em mim produzira uma extensa lavoura
de esperança de afeto.
E fora assim desde então. Se algum adoecia, minha mãe
fechava as portas dos jornais, da televisão, do marido,
do mundo, pra ser só mãe daquele filho enfermo.
Cabeceiras insones, estórias contadas até a febre
se render, beijos
longos que diziam: não me deixe amado, não me deixe.
E eu? Eu tinha era uma filha da puta de uma saúde que teimava
em não me largar. Todo mundo lá em casa pegava gripe
forte, porque ainda não existia dengue, pegava hepatite
tipo analfabeta, porque ainda não havia classificação,
caxumba, catapora e infecções sucessivas de garganta.
E eu, boinha da silva! Me encostava em todos, me oferecia para
cuidar; pequenina ainda, queria respirar o ar contaminado do sangue
irmão. E nada. Ela mesmo dizia: essa não precisa
de mim. E eu precisava.
Então passei a perseguir acidentes naturais, árvores
altas, bombas proibídas em São João, altas
velocidades em carrinhos de rolimã, mãos perto demais
das fogueiras, mas nenhum galho fraco era meu cúmplice,
nenhuma bomba, amiga minha, explodira, nenhuma ladeira era minha
companheira, nenhuma chama minha irmã. (continua na próxima
edição)
elisalucinda@radnet.com.br
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