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Com
quantas pedras se constrói a liberdade?
Foto:
René Cabrales
A
cientista política palestina Marianne Albina repetiu,
com a platéia do Fórum Social Mundial 2002,
o que as crianças do seu país costumam fazer
com os soldados israelenses: atirou pedras. Só que
foram pedras na forma de palavras. Num depoimento áspero
e dolorido, ela relatou com detalhes o sofrimento de jovens
e crianças palestinos que vivem o dia-a-dia da ocupação
israelense (ver
matéria da seção polêmica)
e que aprenderam desde cedo - e na prática - o significado
da palavra medo.
Nesta entrevista concedida por e-mail direto de Jerusalém
nos dias que sucederam a ofensiva israelense nos territórios
palestinos, ela esmiuça os traumas físicos e
psicológicos destas pessoas, as barreiras militares
impedindo o acesso às escolas, a perda de esperança
na vida, os atentados suicidas, enfim o cenário típico
das guerras.
Marianne é membro da Pyalara (Associação
dos Jovens Palestinos pela Liderança, Direitos e Ativação),
escolhida pela Unicef como maior parceira estratégica
na Palestina.
Ana
Esteves
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Extra Classe
Como é o seu trabalho na Pyalara?
Marianne Albina Eu comecei há quatro anos, com
o jornal jovem The Youth Times. Depois, me tornei
gerente editorial da seção em língua inglesa
do jornal e do escritório de relações públicas
da entidade. Eu costumava ainda treinar os jovens que queriam
seguir a carreira de jornalista: ajudava-os a escrever artigos
e produzíamos, através da Pyalara, um programa jovem
na televisão Palestina. Eu também atuei em workshops
sobre democracia, jornalismo e valores de paz.
EC Quais as principais preocupações dos
jovens e crianças que procuram o Pyalara?
Marianne Conheço muitas crianças que
me confessam ter medo de ir para a escola, pois temem ser baleados.
Como eu posso dizer para uma criança que ela não
levará um tiro se lá no fundo eu sei que existem
grandes chances de isso acontecer? Como devemos nos comportar
com estas crianças, não mentir para elas e dizer:
você tem uma boa vida, está tudo bem, não
se preocupe, você pode ir para a escola e voltar e terá
comida na sua mesa. A juventude palestina é depressiva.
No início da intifada, em outubro de 2000, nós recebíamos
telefonemas de crianças que queriam ajuda e perguntavam:
nós devemos jogar pedras no exército israelense,
devemos ficar em casa, não irmos à escola, o que
devemos fazer. Nossos irmãos e irmãs estão
com medo, nos diga o que fazer.
EC Qual o significado de jogar pedras?
Marianne É para muitas crianças um ato
de resistência. Elas não têm medo dos soldados
de Israel e os querem fora das suas vidas, fora dos seus playgrounds,
das suas casas. Os soldados, com seus tanques, roubam a infância
das nossas crianças e a pedra é uma forma simbólica
de restabelecê-la. Todo o dia, quando vou para o trabalho,
eu tenho que atravessar uma barreira chamada Kanandia e eu vejo,
sim, crianças palestinas, de 11 a 15 anos, jogando pedras
nos soldados de Israel. A pedra para uma criança palestina
é também um símbolo de que queremos resistir
à ocupação e ao status quo.
EC Como os jovens e crianças reagem à
guerra?
Marianne As crianças reagem à guerra
de formas diferentes: fazem xixi na cama, têm problemas
de concentração, ficam revoltadas, têm dores
de cabeças, dores no corpo, se tornam deprimidos e param
de se alimentar. Elas nunca esquecerão a morte do pai ou
quando seu irmão ou irmã foram baleados. As crianças
não querem ser como seus pais e avós, que não
conheceram nada além da ocupação. As crianças
palestinas gostariam de ser como todas as outras crianças
no mundo, elas têm o direito de viver e isso deve ser respeitado.
Elas desejam coisas simples, aproveitar a praia, sair com amigos.
Elas querem se apaixonar e sonhar com um futuro melhor. Mas onde
estão os palestinos em todas essas coisas. Eu trabalho
com crianças que nunca viram a praia, não têm
a menor idéia de como é o mar.
EC Qual a sua opinião sobre os jovens que morrem
pela causa Palestina em atentados suicidas? A Pyalara realiza
algum tipo de trabalho referente a esta questão?
Marianne As crianças, das quais você está
falando, perderam a esperança na vida. A ocupação
israelense tirou deles tudo o que tinham e as pessoas que amavam.
A ocupação os levou até um ponto em que eles
não vêem mais sentido na vida. Conseqüentemente,
eles pensam que se cometerem um atentado suicida ajudarão
no processo de resistência e então passam a ter sentido
na vida. O nível de desespero, dor e frustração
alcançou tal estágio que as pessoas, em especial
as crianças, têm encontrado dificuldades para se
adaptar.
Mas é importante destacar que o que nós fazemos
é mostrar para estes jovens que existem outras formas de
lutar contra a ocupação, através da comunicação,
mostrando a verdade ao mundo. Além disso, nós temos
uma hotline para aqueles que precisam de ajuda. Estamos treinando
universitários para atender às ligações
telefônicas e, se os jovens precisam de ajuda psicológica,
nós também providenciamos. É importante mostrar
para as nossas crianças que ainda é possível
ter esperança na vida. Isso é algo que a ocupação
tenta roubar delas.
EC Qual a situação vivida hoje pelos palestinos?
Marianne As forças de Israel, com helicópteros,
tanques e soldados estão cercando a maioria das cidades,
as casas, as escolas, os playgrounds e todos os lugares que as
crianças costumavam freqüentar. Os soldados atiram
indiscriminadamente pelas ruas, prédios e casas. matando
crianças e adultos. As crianças estão, constantemente
detidas dentro de casa, não têm acesso à escola,
aos amigos, às igrejas ou mesquitas. Se alguém se
movimenta, pode ser morto instantaneamente. Outras pessoas são
retiradas de suas casas para que os soldados possam usá-las
como postos militares. Eles colocam franco atiradores nos topos
dos prédios e atiram, matando pessoas que passam pelas
ruas. O exército israelense não deixa que ambulâncias
venham socorrer os feridos. Se tentam se aproximar, eles atiram.
As pessoas ficam sangrando, abandonadas nas ruas. Se morrem, não
podem ser enterradas, pois ninguém pode sair de casa. Além
disso, as forças de Israel têm usado equipes médicas
e crianças como escudos humanos. As tropas também
invadiram muitos hospitais, onde levaram presos muitos feridos.
EC Como está a questão do abastecimento
de comida e serviços básicos, como água e
luz?
Marianne Aproximadamente 80 mil palestinos estão
vivendo sem água e luz. O que você faria se acordasse
pela manhã e descobrisse que, por muitos dias, você
não terá água e luz? O que você faria,
se a comida acabasse e você não pudesse sair para
comprar mais mantimentos, porque os soldados podem matá-lo?
Imagine que você está ferido e precisa de um hospital,
mas ninguém pode vir ajudá-lo. Como você se
sentiria? Os jovens palestinos não precisam imaginar tal
situação, porque eles a vivem diariamente. Eles
temem por suas vidas e a vida das pessoas que eles amam. Seus
sonhos são despedaçados e não têm certeza
de que sobreviverão um outro dia. As crianças se
sentem abandonadas pelo mundo, e isso só aumenta os sentimentos
de raiva e ressentimento.
| Talvez
em muitos outros países, as crianças não
gostem de ir à escola, as palestinas tomam a
ida para a escola como um desafio, é algo que
eles querem fazer, mas não podem |
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EC
Em meio a todas as dificuldades como fica a questão da
educação, do acesso das crianças à
escola?
Marianne Como você vai para a escola se tem barreiras
militares e trincheiras nas ruas, como os pais vão ficar
tranqüilos, deixando os filhos saírem às ruas
quando eles sabem que o trajeto de casa até a escola, que
normalmente levaria 15 minutos, leva cerca de três horas
a quatro horas, em função das barreiras militares?
Ponha-se no lugar dos pais e das próprias crianças.
As barreiras militares e as trincheiras estão lá
não por questões de segurança. Você
chega numa barreira e os soldados israelenses simplesmente não
o deixam passar, o que aumenta a raiva e a frustração
já que Israel conseguiu privá-lo de mais um dia
de aula. Quando não abandonam a escola, as crianças
ficam totalmente desorientadas, sem condições de
concentração. Talvez, em muitos outros países,
as crianças não gostem de ir à escola; as
palestinas tomam a ida para a escola como um desafio, é
algo que eles querem fazer, mas não podem.
EC Qual a expectativa dos jovens palestinos em relação
à comunidade internacional. Elas acreditam que podem receber
ajuda de fora?
Marianne Não, porque até agora nada foi
feito. O que o mundo está esperando? Os jovens querem a
ajuda do mundo para mudar o cenário político, querem
um intervenção imediata dos países ricos.
Querem monitores internacionais que ajudem os palestinos a ganhar
proteção. Eles querem ser protegidos da ocupação
israelense, mas ninguém os ouve e, mesmo que alguém
esteja ouvindo, não está fazendo o suficiente.
Mas há organizações internacionais ajudando
no momento. A crise é tão grave que as pessoas só
pensam em sobreviver. Por isso, é importante focar a ajuda
no envio de medicamentos e comida. A Unicef, por exemplo, nos
ajuda em vários programas para a juventude.
| Os
jovens querem ser protegidos, mas ninguém os
ouve e mesmo que alguém esteja ouvindo, não
está fazendo o suficiente |
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EC
A mídia pode ser uma alternativa para mostrar ao mundo
a realidade do povo palestino?
Marianne Algumas pessoas ainda acreditam na mídia.
Muitos jovens dizem: nós devemos escrever cartas
e mandá-las para a comunidade internacional, acionar a
imprensa. Mas outras afirmam vocês devem estar
brincando, porque a mídia não fará nada para
ajudá-lo. Sabemos que alguns veículos internacionais
estão ao lado de Israel. O lobby judeu na mídia
resulta na ocultação de muitas verdades durante
a cobertura do conflito. Desde a eclosão da Al-Aqsa Intifada,
muitos jornalistas internacionais têm se baseado em informações
pouco precisas e cheias de omissões e ambigüidades.
Além do mais, muitas agências de notícias
não têm acesso à cobertura total do que está
acontecendo nos territórios ocupados, pois Israel confiscou
as carteiras profissionais de muitos jornalistas e tem impedido
muitos outros de entrar em determinadas áreas. Por isso,
trabalhamos com a questão da comunicação
entre os jovens, desde a ajuda por telefone até a formação
de jornalistas.
EC Existe alguma expectativa de que os conflitos cheguem
ao final?
Marianne Não haverá chance de paz enquanto
Ariel Sharon continuar como Primento Ministro de Israel. Ele não
é um homem da paz e esta não é a primeira
vez que ele é acusado de matar palestinos. Ele foi responsabilizado
pela morte de palestinos em 1982, nos campos de refugiados do
Líbano e hoje ele está fazendo a mesma coisa. Eu
não entendo como o povo israelense elegeu um homem como
ele. Quando os palestinos elegeram Yasser Arafat, sabiam que teriam
condições de sentar numa mesa de negociações.
Sabíamos que ele era um homem de paz. Mas os israelenses
votaram em alguém que simplesmente não quer ver
os palestinos vivos. Por isso, enquanto Sharon estiver no governo,
a presença israelense dos territórios ocupados continuará.
Enquanto a ocupação continuar, não haverá
chance para a paz. A juventude palestina não está
realmente convencida de que possa existir uma solução
para o problema. Eles estão mais preocupados com o que
poderemos fazer para ajudar uns aos outros.
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