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Direita volver!!!
Nei
Lisboa

Le Pen deve perder a eleição do dia 5, na França,
mas o fato de ter chegado ao segundo turno já assusta e
é mais um sintoma da guinada à direita que assistimos
nos últimos tempos. Direita, aliás, que pode-se
dizer nunca deixou de comandar a cena, se tomarmos a palavra como
representação da intolerância predatória
dos donos do arsenal bélico e da riqueza desse mundo. Mutante
esperta, quando a economia vai bem e a insatisfação
popular é minimizada, permite-se (e nos concede) ares liberais
e democráticos; quando a barriga dos miseráveis
ronca perigosamente, aperta o garrote e parte pra porrada o quanto
for necessário.
Le Pen, Berlusconi, o novo führer austríaco que não
lembro o nome, Bush, Sharon e outros tantos compõem no
todo um quadro lamentável de poder prepotente, segregacionista,
usurpador, militarista e quantos outros péssimos adjetivos
se puder juntar. Não há de ser por acaso, meu velho
Ubaldo, que esses fantoches são erguidos um após
o outro, e grandes interesses econômicos comemoram por trás
do pano. Como sempre, a parcela rica e reacionária da população
escudará seu apoio em argumentos facilmente descartáveis
mais adiante, quando a garantia de uma situação
confortável permitir que se horrorize com pequenas atrocidades
e genocídios colaterais cometidos no caminho do Bem.
Há coisa de um mês, vi muita gente esclarecida preocupar-se
em rechaçar a comparação feita por Saramago
entre os acontecimentos na Palestina e os horrores de Auschwitz.
A reação em Israel, compreensível, beirou
a histeria. Uma repórter quis que o escritor lhe apontasse
onde estavam as câmaras de gás. Uma cineasta, emocionada,
exigiu-lhe que jamais pronunciasse tal palavra. Sinceramente,
não acho que tais pudores contribuam para alguma coisa.
Se há exagero na chocante metáfora usada por Saramago,
bem, foi para chocar e para qualificar um exagero que a usou.
Não tenho outra definição para um sujeito
que se explode dentro de um ônibus urbano senão a
de um terrorista psicopata e sádico, e para o mandante
do massacre de centenas de civis em Jenin não tenho outra
senão a de um primeiro-ministro terrorista psicopata e
sádico. Também não vejo problema nenhum em
comparar Le Pen a Hitler, ou Berlusconni a Mussolini, ou Bush
a ele próprio. Se esperarmos que se tornem o que pensam
que são antes de denunciá-los, será tarde
demais.
Esses dezoito meses de intifada iniciaram com a visita de Sharon
à Esplanada das Mesquitas, muito pertinente se pensarmos
que a radicalização que se seguiu elegeu-o primeiro-ministro.
Mas outro episódio revelador deu-se nos primeiros dias
de novembro de 2001, quando dois atentados do Hamas fizeram 28
mortos e centenas de feridos. Sharon reuniu-se com Bush em Washington
para declarar que Arafat estava obrigado a prender os autores
dos atentados. Acuado ou a contragosto, o fato é que Arafat
anunciou de imediato a captura de 75 militantes do Jihad Islâmica
e Hamas entre eles três líderes deste. Resposta
de Sharon, no dia seguinte: bombardear instalações
da Autoridade Palestina.
Entre Sharon e Le Pen, Bush e Hitler, qualquer desses magnânimos
líderes mundiais, a diferença talvez fique apenas
em quais povos gostariam de exterminar, e nas facilidades que
encontraram ou não para isso. Entre Auschwitz, Jenin e
um ônibus destroçado em Tel Aviv, talvez estejamos
falando de abismos estatísticos e métodos bem diversos,
mas nada que invalide a declaração de Ghandi, quando
lhe perguntaram o que achava da civilização ocidental:
Seria uma boa idéia.
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